Tatuagens e suas histórias

Ontem fez um ano que fiz minha última tatuagem. Última em ordem, não que eu tenha decidido parar de fazer tatuagem. Essa última, eu posso dizer que é uma das mais significantes para mim. 

 Muitas pessoas que fazem tatuagens têm problemas quando outras pessoas, normalmente não tatuadas, perguntam o significado dos desenhos que decidiram fazer no corpo. Dizem que primeiro, isso não deveria ser da conta de ninguém além do tatuado, e segundo que nem toda tatuagem precisa ter uma história por trás. Eu discordo. 

Eu acho que tatuagens são histórias, sentimentos, posições, momentos que decidimos marcar na pele. É como se a pessoa resolvesse fazer um livro dela mesma – acho até poético. Eu mesma tenho cinco tatuagens, nada muito declarado, mas todas elas têm uma história para contar. Já meus irmãos são, o que posso dizer, dois gibis com braços ou costas cobertos. E sei da maioria das histórias por trás de cada desenho. Eu lembro até que a primeira tatuagem que a minha irmã fez foi fora do Brasil e eu estava lá para autorizar como irmã mais velha – ela era menor – e para segurar a mão dela.

Eu, como irmã mais velha e a típica oldschool, fui fazer a minha primeira tatuagem aos 35 anos. Um anjinho nas costas. O Lauviah ou Lala. Eu dizia que ele cuidava das costas e eu da frente. Sempre fui muito interessada por anjos e toda a mística ao redor desses seres, mas hoje vejo que havia uma outra intenção por trás. Eu estava numa relação com um pessoa que não gostava de tatuagem, ou dizia que mulheres de tatuagem eram assim ou assado. Foi, hoje vejo, um jeito de determinar que esse corpo é meu e eu sou a única pessoa que decide o que será marcado nele ou não. 

Lala cuidando das minhas costas junto da nova tatuagem
 
Depois do Lala, decidi fazer duas estrelinhas na perna: Orion e Cassiopéia. Não havia uma razão profunda para esses desenhos, era mais a experiência de fazer algo na canela para me testar - que diziam que doía mais - e para celebrar a minha relação com a minha irmã e meu primo, porque ele indicou o tatuador e minha irmã iria fazer um desenho naquele dia. Dessa vez fui maria-vai-com-as-outras e não me arrependi. Todo mundo ia se desenhar, resolvi também fazer parte do clan. 



 A terceira tatuagem produziu um auê social e trouxe para a superfície toda a hipocrisia de algumas pessoas e de instituições religiosas e sociais. Eu e, hoje, marido, decidimos casar por motivos práticos (visto para ele ficar no Brasil) e estávamos decidindo se sucumbiríamos à tradição de trocar aliança. Nenhum de nós queria aliança (eu porque quebro sempre anéis; ele, porque tem que ficar tirando para escalar), mas ao mesmo tempo, já que não faríamos nada muito especial, queríamos carregar um símbolo do nosso comprometimento. Foi daí que encontrei a ideia de uma tatuagem de aliança. Coisa mais prática do mundo para duas pessoas que estavam casando por motivos práticos. 

Marido refazendo a aliança com Patrick 10 anos depois



Ninguém precisaria tirar para lavar a louça, praticar escalada, não haveria problemas de perder ou ainda gastos com jóias quando nenhum de nós as valoriza. Ele nunca tinha feito tatuagem e estava hesitante, mas aceitou se fosse um traço simples, nada muito elaborado. Para mim, estava tudo bem, elaborado ou não. Assim fizemos nossas “alianças”, no dia 31 de dezembro de 2014, em Florianópolis-SC. Quando as pessoas ficaram sabendo que decidi fazer uma tatuagem no lugar da aliança eu ouvi inúmeras vezes: 

 - Mas tatuagem é para sempre! 

 Esse comentário normalmente vinha de homens casados, que não eram fieis, ou seja tiravam a aliança para serem outras pessoas quando longe de suas esposas. Eu respondia: 

 - Ué, você não casou para sempre? Num é especificamente essa promessa que fazemos quando casamos? 

 Eu não tinha mais ilusão alguma de que casamentos são para sempre, já que esse é o meu terceiro marido, mas eu sei bem que casamentos são feitos de duas pessoas. E eu estava ali, imprimindo na minha mão, no meu dedo, o meu compromisso de fazer a minha parte nesse acordo de cultivar essa relação. Meio sem planejar, exatamente 10 anos depois, “renovamos os nossos votos” refazendo o desenho da aliança quando decidi fazer a minha tatuagem mais recente. 

 A penúltima é também relacionada com anjos, a espada de São Miguel, desenhada em 2018 por uma artista fantástica de São Paulo que hoje não tatua mais. Ela chegou a aplicar o branco para fazer o brilho da espada (quem tatua sabe que usar branco é desafiador). 

Pois bem, a mais recente levou cinco anos para ser finalmente produzida e posso dizer que pela combinação do motivo, do desenho e de quem a fez, é a minha favorita de todos os tempos. 

Quando a minha neta nasceu, em 2019, eu fiquei tão, mas tão, mas tão feliz que sabia que faria uma tatuagem para marcar a vinda dela para esse mundo. Não sabia o que tatuar, nem em que parte do corpo e muito menos quem a faria. Meu filho pensou em fazer a primeira tatuagem nele por causa da filha também, mas o momento ou desenho ainda não chegou. 

O eletrocardiograma



 Quando fui conhecer a pequena no Panamá minha nora e meu filho me deram a impressão do último eletrocardiograma feito quando ela ainda estava na barriga. Pensei que aquele seria um bom desenho para a minha tatuagem, mas ainda não estava certa nem se deveria ser esse mesmo e nem onde eu o faria no meu corpo. O tempo passou, o desenho ficou guardado, fiz pesquisas de como as pessoas faziam os batimentos cardíacos como tatuagem. Nada me convencia, e morando nos Estados Unidos sem conhecer tatuadores, deixava tudo mais complexo. 

Até que um dia fui a minha primeira orientação no College of Communication da Boston University com um pingente feito pela Lena Muniz. Um coração vermelho de cerâmica. Minha reitora passou por mim, apontou para o pingente elogiando-o e disse: 

 - So, you can wear your heart on your sleeve… 

 Eu sorri, e concordei mas não tinha entendido o significado figurado da expressão. Cheguei em casa, fui pesquisar e descobri ser uma expressão dirigida as pessoas que são transparentes, mostram o que sentem. Sem dúvida, ainda mais nessa cultura em que todo mundo guarda os sentimentos a sete chaves, eu sou bem transparente. Até demais. Refleti por mais tempo e cheguei à conclusão que depois que minha neta nasceu, ficou bem mais fácil de assumir os sentimentos que me inundam e me perpassam. Parece que passei de fase no jogo da vida e não dou mais tanta bola para um monte de coisas, entre elas, o julgamento dos outros. Mas o mais interessante, é que essa expressão aprendida com a minha chefe, me ajudou a decidir em que parte do meu corpo eu desenharia o “coração” da minha neta. Só ficava faltando achar o tatuador. 
Coração de Lena Muniz

Os planetas se alinharam em 30 de dezembro de 2024. Há um ano e um dia. Patrick, meu amigo querido de décadas, que atualmente mora em Barcelona, estava começando tatuar. Ele estaria no Brasil, na mesma cidade que eu no penúltimo dia do ano. Foi assim, que depois de passar algumas semanas fantásticas com a minha neta nas praias de Florianopolis, fui para Curitiba para finalmente fazer a tatuagem. Ficou fantástica, como tudo que Patrick faz. 

Patrick em ação há um ano e um dia.


Lily, a neta ficou sabendo da tatuagem por vídeo. Mas eu achava que ela nem iria entender o significado daquilo. Até que em julho finalmente fui passar as férias com ela e pude mostrar pessoalmente. Eu perguntei para ela se ela sabia o que era aquilo. Ela abriu aquele sorriso mais lindo do mundo e disse: 
- Meu coração! 

Sim, eu derreti. Vesti meu coração na minha manga, junto com o dela que estaria ali para sempre. Mas o mais fantástico foi quando eu estava distraída, ver aqueles dedinhos percorrerem as subidas e descidas do desenho, uma metáfora da vida, como sabemos muito bem, cheia de subida e descidas.
Os dedinhos aprendendo como a vida é.



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