sexta-feira, 20 de outubro de 2017

A beleza da dor


Let's hurt tonight.




Difícil ter uma tradução decente para essa expressão que não signifique algo ruim. Mas a ideia é tratar de ir fundo nas intensidades da vida. A música/clip acima é do filme Collateral Beauty.
Na produção, Will Smith perde sua filhinha e não consegue se recuperar. Ele manda cartas para a morte, o tempo e o amor, indignado. E recebe respostas. Não só ele, mas seus parceiros de trabalho também recebem as mensagens que precisam ouvir. E, penso, que nós recebemos as respostas que merecemos se formos fundo pensando que realmente vivemos às voltas com essas três abstrações, que de abstratas nada têm. São concretas, estão a nossa frente e todas doem. Muito.

Cada um de nós teve algum momento ou situação em que a dor lancinante foi presença. Não consigo imaginar a dor de perder um filho, mas experienciei intensas dores que nem chegam perto dessa situação e fico imaginando que ninguém é o mesmo depois de doer assim. Pense em relações impossíveis, em perdas de pessoas queridas, de não ter aproveitado o tempo certo para aquele sonho. Dói. Mas toda dor tem uma beleza. Não se trata de brincar de Pollyana e ver tudo é lindo mesmo na desesperança. É notar que o belo existe mesmo quando estamos quebrados, destruídos, em pedaços.

Pense nos artistas. Eles tiram a beleza da dor mais profunda.

Como esse trecho da série Doctor who. Prepare-se para chorar. Tanto no vídeo abaixo quanto no filme  Beleza Colateral. E veja a beleza nisso.


sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Em nome de Deus

Eu procurei aqui. Eu tinha certeza de ter escrito algo sobre esse filme. Não é possível. Ou talvez eu encontre essa postagem daqui a algum tempo.
Mas enfim, hoje foi dia de mente voando. Não consegui focar mais que 30 minutos em qualquer atividade. Cansaço, pode ser.
Mas esse filme, que em português não sei porque mudaram o nome, no original se chama The Magdalene sisters, conta a história de colégios que eram usados para "guardar" mulheres que não se ajustaram na restrita sociedade católica irlandesa.
O filme dói na alma mostrando os abusos ao livre-arbítrio, ao corpo feminino, à dignidade.

Mas como a gente sempre tira algo bom daquilo que nos machuca, foi ali que decidi que eu aprenderia a tocar bodrhan. Por causa do trecho no início do filme. Dá uma olhada:



A letra da música abaixo, é completa. No vídeo estão cortados alguns trechos.
Mas a história da música é tão sinistra que li que mesmo os tocadores folcloricos irlandeses evitam tocá-la.

 Ela conta a história de um peregrino que pede para uma mulher que está em um poço um copo de água. E ela diz que não tem nenhum. Ele responde então que se o amante dela estivesse ali ela teria. Ela jura que não tem amante algum e o homem aponta dizendo que ela deu a luz a seis crianças e que ele sabe onde ela as enterrou. Ela pede ao homem que tenha misericórdia dela e ele diz então que ela será transformada em uma pedra da calçada por sete anos, num sino de porta mais sete anos e por fim, mais sete anos ela passaria no inferno. 

Em resumo: o filme, a música, tudo depõe contra a mulher e suas decisões. Ela é punida por existir. E mesmo em meio a todo esse sofrimento, a gente consegue ver a beleza da produção cinematográfica e da música em si. Impressionante como mesmo sempre levando porrada, as mulheres conseguem ainda trazer beleza e poesia para esse mundo.



A gentleman was passing by
He asked for a drink as he got dry

Chorus:
At the well below the valley oh
Green grows the lily oh
Right among the bushes oh

My cup is full up to the brim
If I were to stoop I might fall in

Chorus:
At the well below the valley oh
Green grows the lily oh
Right among the bushes oh

If your true lover was passing by
You'd fill him a drink as he got dry

Chorus:
At the well below the valley oh
Green grows the lily oh
Right among the bushes oh

She swore by grass, she swore by corn
That her true love had never been born

Chorus:
At the well below the valley oh
Green grows the lily oh
Right among the bushes oh

He said, Young maid you're swearing wrong
For six young children you had born

Chorus:
At the well below the valley oh
Green grows the lily oh
Right among the bushes oh

If you be a man of noble fame
You'll tell to me the father of them

Chorus:
At the well below the valley oh
Green grows the lily oh
Right among the bushes oh

There's two of them by your Uncle Dan

Chorus:
At the well below the valley oh
Green grows the lily oh
Right among the bushes oh

Another two by your brother John

Chorus:
At the well below the valley oh
Green grows the lily oh
Right among the bushes oh

Another two by your father dear

Chorus:
At the well below the valley oh
Green grows the lily oh
Right among the bushes oh

If you be a man of noble 'steem
You'll tell me what did happen to them

Chorus:
At the well below the valley oh
Green grows the lily oh
Right among the bushes oh

There's two buried 'neath the stable door

Chorus:
At the well below the valley oh
Green grows the lily oh
Right among the bushes oh

Another two 'neath the kitchen door

Chorus:
At the well below the valley oh
Green grows the lily oh
Right among the bushes oh

Another two buried beneath the wall

Chorus:
At the well below the valley oh
Green grows the lily oh
Right among the bushes oh

If you be a man of noble fame
You'll tell me what will happen myself

Chorus:
At the well below the valley oh
Green grows the lily oh
Right among the bushes oh

You'll be seven years a-ringing the bell

Chorus:
At the well below the valley oh
Green grows the lily oh
Right among the bushes oh

You'll be seven more burning in the hell

Chorus:
At the well below the valley oh
Green grows the lily oh
Right among the bushes oh

I'll be seven years a-ringing the bell
But the lord above may save my soul
From burning in hell

Chorus:
At the well below the valley oh
Green grows the lily oh
Right among the bushes oh




quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Kennedy, Cido e Vanessa e a distância nem tão distante assim

Há um tempo atrás o Kennedy me adicionou no facebook. Não conheço o Kennedy. Nunca falei com ele. Mas descobri, rápido, que temos um vínculo. Graças a competência dele em se comunicar. Cido veio um pouco depois e Vanessa, essa semana.
Mil discussões sobre redes sociais por aí e criei um código muito particular para tratar esse ambiente.
Sou professora universitária e pesquisadora. Meu ambiente de trabalho, para algumas pessoas, exige determinado código de conduta. Ao meu ver, uso o dito por Claudio Abramo: a ética do jornalista deve ser a mesma do marceneiro. Assim a professora é a mesma pessoa que vai beber no bar, que viaja ou que dança salsa. Por isso não mantenho dois perfis de rede social, mas respeito as razões de quem tem.
Com esse primeiro código, de ter somente um perfil, eu tomo bastante cuidado em quem vou adicionar como amigo. Mantenho na minha rede todo mundo por quem nutro atenção, carinho, respeito, pelo que são. Ali estão também muitas das pessoas que amo. E tiro da minha rede muitas pessoas que pelas quais tenho respeito, mas que com as quais possuo diferenças gritantes nas formas de ver o mundo, e que sei que com as minhas opiniões posso machucar. Sim, escolho. Talvez tenha construído uma bolha rosa para mim. Sim, me protejo de algumas discussões sem sentido.
Outro código “de procedimento” que mantive foi de só adicionar alunos que tiveram aulas comigo. Porque eles conhecem o tom do meu discurso e saberiam que me expresso de uma determinada forma na rede. Dessa forma, muito aluno que só me conheceu de corredor e que tentou me adicionar acabou por não fazer parte da minha timeline. Nada pessoal, mas não conheço, não partilhamos nenhum momento a não ser um bom dia ou boa tarde. Assim, não vejo sentido em partilhar o que penso.
Mas aí veio o Kennedy (e o Cido e a Vanessa). Na verdade, antes deles veio a educação à distância que, assim como a internet, propiciou que espaço e tempo para uma aula sejam relativizados. Nesse modelo de educação, professor e aluno não partilham da mesma sala e do mesmo horário para que haja troca de conhecimento. É a terceira ou quarta vez que me vejo ensinando sem estar, efetivamente, em ação no agora. Essa ação ocorreu para mim no passado, a partir de uma comunicação que preparei há mais de um ano, e que é presente para muitos alunos agora. Sei que isso é capaz de dar um nó nas nossas tradicionais formas de ver os processos, mas há muito tempo é a realidade em muitas instituições.
Kennedy mora em São Luís do Maranhão, uma cidade que não conheço mas sei que é linda e morro de vontade de visitar. Cido mora em Cupira, PE e Vanessa em Ibirubá, no RS. Eu estou a uns bons milhares de quilômetros deles, vivendo no nordeste dos EUA. Eles talvez nem saibam disso. Mas, hoje, estão tendo aulas comigo. Estão acompanhando vídeos e lendo os materiais que preparei anteriormente. Não estou ensinando agora. Eles estão aprendendo agora.
Quando a Educação à distância se tornou uma realidade eu ouvi de tudo. Que ia ser o fim da educação, que os professores não teriam mais trabalho, que tudo ia ficar mecânico, que íriamos tratar os alunos como clientes. Ouvi também o outro lado: que seria a nona maravilha da terra, que poderíamos levar conhecimento aos confins do mundo, que quem se adaptasse estaria acostumado às mais modernas tecnologias usadas nas grandes universidades do mundo.
Eu, pra variar, fiquei no meio. Concordo que a educação à distância ajuda a aproximar grandes centros educacionais de remotos lugares levando o mesmo conteúdo para ambos. Também acho fantástico que gente que não tenha oportunidade de frequentar as torres de marfim no tempo e frequência tradicional possa, por meio da tecnologia, alcançar o estudo e a graduação tão desejada.
Por outro lado, a educação à distância deixa muito pouca margem para o relacionamento entre professor e aluno. Aquela troca que a gente faz no final das aulas, ou ainda no feedback de um material ou na discussão de algo que não está planejado no conteúdo e apareceu de repente, não existe ou é entrecortada por outras pessoas nesse modelo. Para as dúvidas, temos os monitores, para as correções de trabalhos, outros tutores. Temos um professor no vídeo, outro no texto e outro em sala ou no pólo. Esse conteúdo chega por meio de diversas faces para o aluno. E enquanto algumas aulas à distância ao vivo ainda provocam um pouco dessa troca aluno-professor, as gravadas ou atemporais, deixam essa relação desparipasso.
Mas o ser humano encontra jeitos de acostumar-se com essas formas diferentes de relacionamento. Kennedy, Cido e Vanessa encontraram. Assim como vários outros colegas deles, eles me encontraram no facebook. Só houve uma diferença sutil entre eles e os, em torno, de 15 outros alunos que tentaram me adicionar anteriormente. Eles se apresentaram. Porque imagino que intuitivamente entenderam que estávamos com espaço e tempo não simultâneos e precisavam usar da comunicação para fazer as pontes, as relações. Ou ainda entenderam que não consigo dar conta do número de pessoas que deve estar assistindo essas aulas atualmente. E foi assim que Kennedy, Cido e Vanessa entraram para a minha timeline essa manhã. Eles foram nas mensagens in box e disseram: olá, sou seu aluno no curso de jornalismo.
Eu sempre fiquei pensando o que as pessoas que simplesmente me adicionam no facebook pensam. Eu queria dizer para cada um que sem uma apresentação, sem nunca ter conversado ou ainda saber o vínculo para estar sendo adicionada à vida virtual social de alguém ia ser muito difícil aceitar a “amizade”.
As razões que determinam as maneiras como alguém vê a rede social podem ser excelentes problemas de pesquisa. Há quem não veja facebook como extensão da sua vida. Há quem ache que tudo é auto-explicativo ali. Há quem ache que fazer coleção de conhecidos, de nomes na TL, é determinante. Escolhas, claro.
Mas confesso, eu realmente estava esperando alguém que entende dos meandros da comunicação, assim, naturalmente. Alguém que saiba que ela não é automática, mas pode ser intuitiva. Ela não é fácil, depende de se colocar no lugar do outro. Comunicação é, na verdade, metade intuição metade empatia.

E é assim que esses três indivíduos, de super diferentes rincões do Brasil agora fazem parte da minha timeline. Eu nunca os vi, nunca “falei” com eles. Mas temos toda a possibilidade de trocar informações e experiências daqui pra frente. Estou bem curiosa para saber como Kennedy, Cido e Vanessa entendem o mundo e como esse conteúdo vai ajudá-los a chegar onde planejam. Eles acordaram a professora em mim.  

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Salada linguística na Colômbia

Eu nunca quis acreditar naquelas frases prontas que diziam que quando mais velhos a gente passaria a entender os pais e suas requisições. Achava tão pobre e superficial simplesmente dizer que os pais teriam razão sempre - pombas, são humanos! - e que a gente daria essa razão para eles após certo tempo.

Então. Está acontecendo. De novo.

Ontem foi dia dos avós no Brasil e eu me peguei pensando quantas vezes em qualquer desafio que a vida me colocou eu ouvi a voz dos meus avós com um conselho. Na época não entendia, mas como fazem sentido hoje. Meu pai sempre foi outro que tinha - e tem - grandes expressões, e as repetia. E elas ecoam até hoje na minha cabeça. A mais constante delas era sobre o aprendizado das línguas. Ele dizia: "aproveita que você é nova e aprende tudo que puder". Eu sei que isso é uma faca de dois gumes quando se trata de discutir livre-arbítrio dos filhos, mas eu desejo hoje que ele tivesse me enfiado em uns três cursos de línguas na época. Sem chance de eu reclamar ou escolher. Eu poderia até ficar muito revoltada, mas hoje entenderia com toda a clareza necessária o que ele fez.

Na verdade, eu percebi que ele tinha razão muito cedo. E coloquei isso como objetivo para o meu filho. Juntei os trocados, vendi o carro e mandei ele para fora do país. Ele ia aprender na marra uma das línguas mais faladas do mundo. A segunda, ele foi atrás por ele mesmo e hoje fico feliz de ver que ele trabalha e se vira muito bem em inglês e espanhol. Não posso falar o mesmo de mim. O inglês foi algo extra-escolar somente depois dos 18 anos... E o espanhol devo ter tido um ano de preparação antes de ir para os 5 meses de doutorado-sanduíche na Espanha. Resumindo: em nenhuma das duas línguas eu posso dizer que nado de braçada. Aí encontro um gringo, tento explicar para ele até desenhando que eu era chave de cadeia e... claro, não fui feliz na comunicação. Acabamos casando e o inglês misturado com o português virou a língua oficial da minha casa.

O que tenho hoje é um conjunto de quebra-galhos para sobrevivência. O que me frustra muito, porque tem tanto o que ler e aprender em ambas as línguas e em outras (italiano di mio cuore!). Mas é claro que esse aprendizado contínuo traz um bando de gafes juntas. As últimas foram numa mistura bem bagunçada de português, inglês espanhol na viagem para a Colômbia.

A primeira gafe foi uma lição super comum, aquela de que nunca se diz "dessa água não beberei". Congresso internacional de comunicação na Colômbia e a indicação era de que seria bilíngue. Pensei: sobrevivo. O problema é que dependendo do público, deveria-se falar em espanhol ou inglês e a apresentação escrita deveria ser na língua oposta. Como a apresentação da pesquisa era no último dia, deu para perceber que teríamos mais hispano hablantes. Então falaríamos em espanhol e a apresentação seria em inglês. Até aí tudo sob controle. Mas aí vem o lado "dessa água não beberei". Sempre odiei quem vai a eventos para ler sua apresentação. Oras, se for para ler a gente manda por email e não precisa se juntar numa sala para debater. Sempre me recusei a ler apresentações. Mas eu não contava com a salada linguística que seria a minha. Erros que cometi: não fiz meu roteiro em espanhol, só a apresentação em inglês. Não preparei nada em ambas as linguagens para ler. Daí saiu uma bosta de apresentação em portunhol com as preposições em inglês. Não tem jeito. Há uma caixa no cérebro para a língua-mãe e outras para as segundas línguas. E aí, numa situação assim, de pressão para se comunicar, o cérebro vai revirando a caixa e busca aquilo que explica melhor o que você vai dizer independente da língua... E sai uma salada nem um pouco saborosa. Essa confusão já acontece em casa quando estou muito cansada. Sai espanhol ou português quando todo mundo só entende inglês. Uma zona. Então, conselho: faça roteiro sempre na língua que você vai falar. Ou em todas possíveis. E concentra. Muito.

A outra gafe é o branco de memória, que também vem dessa salada. Tarde de passeio em Bogotá e o filho Juan manda eu sair com o amigo alemão porque ele precisava trabalhar. Com o amigo alemão eu estava falando inglês. Com o restante da cidade, castelhano/espanhol. Pois bem, fui procurar um Filtro dos Sonhos no mercado de artesanato local. O filho brasileiro estava tendo pesadelos porque se mudou e esqueceu o que ele tinha no Brasil. Mãe nenhuma quer ver cria sofrer, então vai lá eu providenciar outro feito pelas comunidades colombianas.

Cheguei na banquinha, olhei, olhei, olhei e nada. Vou perguntar. Sim, mas como é que fala Filtro de Sonhos em castelhano?
-Tiene la cosa que saca pesadillas?
- Cómo?
- Una cosa que saca las pesadillas por la noche... Así, redonda, y tiene unas líneas como una red... Si colga en  la habitación...
- No sé, señora, de que habla. Voy a preguntar. Lucia, sabe de algo que saca pesadillas?
A mulher se aproxima. Lembro do nome em inglês: dream catcher. Não vai adiantar muito dizer em inglês...
- No sé... Pesadillas?
Caminho pelo mercado com as duas mulheres me seguindo, agoniada para encontrar algo similar e mostrar.
Achei!!!!
-Eso!!! Como llamas eso?
- Ahhhhhhhhh!!!!!! Atrapasueños....
- Humpf. Porqué se atrapa los sueños? Necesito solo para las pesadillas.... Todos rimos, mas eu fiquei triste. As mulheres me vendem o objeto e eu saio me sentido o maior fracasso linguístico/comunicacional de todos os tempos. Porra, porque não traduzi do português e do inglês? Ambos falam de sonho ou dream... Nada de pesadelo ou nightmare
- Escuto as senhoras rindo e repetindo: pesadillas...


No fundo, o pesadelo é conseguir passear pelas línguas sem ser atrapado por algum misunderstanding.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

O jeito "pack" de ser



A cã ensinando que estamos no mesmo barco... ou que fazemos parte do mesmo pacote de seres vivos.

A gente aprende horrores com os pets. Muito mais ainda quando presta atenção neles. É claro que cada um tem um tipo de personalidade e aqui em casa as referências são sobre a Pandora e seu comportamento.
Desde que a adotamos demos um jeito de passar um bom tempo com ela. A gente se revezava para não deixá-la muito tempo sozinha porque simplesmente entendemos que certos animais, ainda mais cachorros, que são descendentes de lobos, vivem em grupo. Ou em matilha. Ou, em inglês, pack (que também significa pacote ou mala, o que traz outros significados).
Pois bem, temos percebido esse comportamento de matilha da cã aqui. E aprendendo muito com ele.
No geral, se estamos em algum lugar da casa relaxados, parados, ela dá um jeito de sentar por perto. Isso em casa.
Fora de casa, é muito comum ela sentar perto, mas tocando alguma parte do corpo. Geralmente nas costas. Típica posição de quase alerta, para saber que se alguém da matilha se mexe, ela se mexe também. Atenta para o outro lado.

Mas em casa, a situação mais comum é quando eu e o marido estamos sentados no tapete quentinho que dá para as escadas da cozinha, ou no sofá, ou qualquer outro lugar em que ela possa estar. Ela vem, dá um cheiro para medir a energia, vê que está todo mundo conversando tranquilo, sai, pega um brinquedo ou um pedaço do osso e volta. E daí senta ou deita do nosso lado. Perto. Sem tocar nenhum de nós, mas perto, mordiscando o brinquedo ou osso.

E só essa pequena atitude que é repetida diversas vezes todos os dias nos ensina muita coisa. Ensina que cada um tem seu espaço. E que não é legal invadir o espaço do outro quando não é necessário. Ensina que cada um tem seu objetivo, sua vida, seus afazeres, sua conversa, enfim, o seu osso para roer. Mas é grupo. E não precisa ser necessariamente todo mundo comendo o mesmo osso para fazer parte do grupo. Só estar perto. Só estar ali já nos lembra que somos indivíduos, mas que fazemos parte de um grupo maior, diverso, que se cuida, se percebe. Que não sufoca, mas está disponível, perto.

Seria tão bom se os humanos tivessem esse "pack mind". Não haveria relação abusiva, possessiva, assédio moral. Só suporte, colo, para quando precisarmos. E aquela sensação de pertença, de que estamos todos no mesmo barco. Porque, na verdade, estamos mesmo.

domingo, 2 de abril de 2017

Ano Novo

Meu ano novo astrológico está começando essa semana. Ano passado eu prometi para mim que faria um agradecimento para cada dia. Não tive disciplina para fazer cada dia. Mas porque eu tinha prometido para mim, eu precisava cumprir.
Aí usei a desculpa do ano novo astrológico para fazer de vez cada um dos agradecimento. E gente minha! Quanta coisa eu tive para agradecer. Esse ano vou fazer diferente. Mesmo tendo coisas para agradecer todos os dias eu vou agradecer mensalmente. Dá uma visão de todo, de desenvolvimento, de dinamicidade. Porque mesmo que eu sinta que passa voando, cada mês tem tanta transformação que parece que tudo aconteceu há anos atrás, não meses...
Ai essa relação com o tempo!

quarta-feira, 22 de março de 2017

Saudade não tem tradução


Finalmente a mudança chegou. Cinco meses a mais do que o prometido. Nesse tempo de espera fui do “aimeudeusdocéuminhascoisas” para o “nem lembro mais do que está vindo” para, depois, o “meudeusminhasfotostodasestãoali!!!!”.

Posso dizer que foi um choque de dois mundos a chegada dos meus pertences. Primeiro porque eu fiz uma limpa tão limpa antes de mandar, que eles se reduziram a uma mala de roupas que se usa uma vez na vida outra na morte, uma mala com todas as fotas impressas que eu tive, e uma mala de memórias. Essa mala de memórias mexeu comigo. Essas coisinhas lembraram de outras formas de mim que estavam navegando de jangada até chegar aqui. Nela vieram meus apetrechos de flamenco (a castanhola!), meu Santo Antônio, Nossa Senhora feita de pedra sabão que meu filho tinha trazido, um sol feito de vidro e metal trazido do Hawaí, um presépio nordestino, um imã de geladeira da sagrada família que veio de Sevilla, um vaso de florzinhas da comemoração do casamento do meu irmão e cunhada e mais um punhado de outras coisinhas que são únicas e carregam quilos de memórias e símbolos.

Vieram também as seis caixas de livros. Eu espremi todos também. Mais da metade dos que eu tinha foram dados, doados, distribuídos. Mas os que ficaram, meu senhor, que falta fizeram na última pesquisa que precisei fazer. Senti muitas saudades de folhear e ver que página era mesmo aquela citação que eu quase sabia de cor e que ficaria perfeita nessa parte do texto...

Todas essas memórias foram provocando meu cérebro, fuçando aqui e ali, em algumas histórias. Foi quando abri a mala de roupas. As toalhas decoradas e coloridas pularam da mochila e o cheiro do sabão que eu usava em Curitiba rescendeu no ar. Inspirei fundo. Ainda estavam com cheiro de limpas. E o gatilho disparou. As cenas vieram como mágica. Cores. Luz e sombra. Lembro do apartamento. De dias claros nos quais eu pendurava as roupas nos dois varais e a casa inteira ficava cheirando à limpeza. Em domingos de início de outono ou de primavera, que eram fresquinhos, calmos, ensolarados e que da janela podia se ouvir as movimentações dos vizinhos para os churrascos na casa de outrem. De levar a cã no parque para brincar e depois passar na casa da minha mãe para dar banho em um animalzinho enlameado e feliz.


Saudade. Definitivamente ela veio junto com a mudança.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Contemplação

Desde que adotei a Pandora, a minha primeira cã, eu aprendo todo dia uma excelente lição: a contemplação. 

A cã decidiu por ela própria fazer xixi e cocô só fora de casa. Cansei de deixar o jornal lá, no chão, por meses e ele ficar ressecado do sol, sem um xixi em cima, sem um cocô para trocar.
Até que desistimos de deixar o jornal à disposição. Ela segurava e pronto.

Muita gente já me disse que sou sortuda por isso. Nada de caca dentro de casa. 
Mas a percepção que tem alguém segurando o xixi ou cocô e que isso depende de você não é tão legal. Não há, também, a chance de um dia sequer não sairmos de casa. Pode estar caindo o mundo de chuva, pode estar ventando tudo e mais um pouco, pode ser de noite porque não deu tempo durante o dia, pode ser bem cedo para ter que dar tempo de fazer as outras coisas... não importa. Você se obriga a sair de casa pelo menos duas vezes ao dia. Às vezes mais. E isso ensina muita coisa. Resiliência é uma. Porque você percebe que enfrenta qualquer clima, que não vai morrer se tiver que ir lá fora num domingo preguiçoso, que você não vai derreter na chuva ou ser levado pelo vento. Você vai.


Esses momentos de saída dão oportunidade para a contemplação. Mas ela só se dá quando você faz isso no ritmo da cã. Tem gente que fica apressando o cãozinho, tratando essa saída como mais uma obrigação. Eu, que não sou trouxa, resolvi aprender a desacelerar com a Pandora. E ela tem sido uma excelente professora.

Quando eu estava em Curitiba essas caminhadas aconteciam ao redor do prédio. Era a percepção da florzinha, da árvore, do fruto que acabou de cair, da folhagem diferente. Da textura do chão. Às vezes ela se interessava por pessoas. Ela sentava na calçada e, me deixando extremamente embaraçada, ela fitava os passantes. Até eles sumirem de vista. 
Havia as situações em que ela cheirava meticulosamente uma árvore. E eu ficava ali esperando. Na espera, eu prestava atenção ao formato da árvore, ao desenho do caule, à coloração das folhas. Aprendia a contemplar.

Na mudança para Bar Harbor essas lições passaram para outro nível de dificuldade. O frio é infinitamente maior. Há neve, muitas vezes mais de metro no chão. E houve a adaptação da Pandora ao novo lugar.
Pandora buscando a bolinha na neve. Preste atenção, tem uma bolinha ali.

Nos primeiros meses ela estava agressiva e a treinadora disse: “você precisa cansá-la. Ela tem que gastar energia. Faça duas boas caminhadas de uma hora cada, ou corrida de meia hora por dia”.

Então, em vez de só achar um lugar para fazer xixi e cocô, agora a gente precisava exercitar a Pandora. Arranjar tempo para isso também, se organizar, e mais importante, tirar algum proveito disso.

Foi desse jeito que testemunhei cenas lindíssimas no céu e na natureza. Foi desse jeito que conectei com a natureza ao redor, que já é um desbunde, mas que precisa de tempo para ser contemplada. Foi desse jeito que aprendi, com ajuda dos conceitos chineses, a estar 100% em cada lugar. Quando caminho com a Pandora, somos nós duas e a calçada, rua ou trilha à nossa frente. Nada mais.

Foi assim que um dia paramos para ver uma perseguição de esquilos.


Foi assim que encontramos outra bolinha para brincar, que depois de 3 dias passando por ela, e sem ninguém a recuperando, trouxemos para casa.
Foi assim que sentamos na pedra, perto do mar e ficamos vendo os patos.
Foi assim que ouvimos o corvo e paramos embaixo da árvore para observar.
Foi assim que fiquei mais de 10 minutos parada na frente de uma casa vendo um chipmunk (esquilo menor e marrom) comer uma noz. Pandora tentou ir falar com ele, mas decidiu sentar e assistir.

Foi assim que conversamos com diversas senhoras.
“Posso passar a mão nela?” “Pode, só cuide com o rosto, ela pula.”

Foi assim que observamos vários pássaros desde os lindos Bluejay e Cardinal.

Foi assim que ontem, passando na piscina de crianças, que estava congelada, vimos um show particular de patinação. A menina treinava sozinha rodopios e outras manobras. Dessa vez fui eu que parei para ver o espetáculo. Pandora sentou do meu lado. A menina percebeu e, com medo de atrapalhar, resolvi continuar andando. Pandora queria mais. Ficou olhando para a menina e seus rodopios até virarmos a esquina.

Cada dia é um espetáculo diferente. E sou grata pelo aprendizado da contemplação.
Obrigada Pandora.


sábado, 4 de março de 2017

A Kate

Faz tempo que não venho falar dos filmes que assisti mas os dois últimos merecem alguma atenção por causa da Kate. 

The Reader ou O leitor, é originado da história de livro homônimo. Eu tinha lido o livro há algum tempo, numa troca feita em sala de aula, e sabia que tinha uma hora do livro que havia uma virada, do tipo: nuuuussaaaaa!!!!! Mas eu não lembrava que virada era essa.



Óbvio que não vou bancar a spoiler aqui, mas no livro essa virada se deu de um jeito mais chocante do que no filme. Talvez porque a narração solitária do menino vai se encaminhando para  visão que ele tinha da Hanna Smith, personagem de Kate Winslet. O marido não tinha lido o livro e no meio do filme, antes da virada, ele já tinha sacado. Aí fiquei pensando nos formatos de narrativas que precisamos aplicar no texto e no audiovisual para ter o mesmo efeito. Há uma distância imensa entre as construções e me deliciei comparando, depois que a memória do livro voltou.

Mas o que eu queria ressaltar de O Leitor é a incrível interpretação de Kate Winslet. Eu não sou ligada em artistas, nas carreiras, muito menos cinéfila o suficiente para ficar fazendo comparações e elucubrações mas vou deixar minha opinião mesmo assim. Eu fiquei impressionada com a interpretação dela. Mudou completamente da Kate que eu lembrava do Titanic e achava que ia ficar com aquela personagem grudada todo o sempre nela-atriz. Em O Leitor ela é exatamente a personagem descrita no livro: contida, enigmática e rígida. Uma surpresa mesmo de interpretação.



Ontem assisti The Dressmaker, que tem o título em português A vingança está na moda (tradução que sinceramente empobrece o apelo do filme). E lá vem Kate de novo. Totalmente outra pessoa. Sem vestígios da Hanna ou Rose, ela vira Tilly. Uma mulher sarcástica, femme fatale que aprendeu a alta costura e volta para sua cidadezinha rural no interior da Austrália para cuidar da mãe e faz sucesso produzindo vestidos para as mulheres da cidade. Mesmo sendo dirigido por Jocelyn Moorhouse ele lembra muito o estilo drama-um-pouco-de-comédia dos filmes de Wess Anderson, os quais eu já tenho um carinho especial. Só desconfio que o The dressmaker não teve uma super aceitação primeiro por esse título em inglês e segundo por ser um roteiro que já vimos antes: a persona non grata volta pra se vingar. Apesar de eu entender do roteiro que não era essa a intenção quando ela chega na cidadezinha.

Então, tá aí. Kate Winslet para quem gosta dela. Eu passei a gostar bastante.


sábado, 4 de fevereiro de 2017

De tudo um pouco - Women´s March


A arte do cartão postal que percorre o mundo agora
foi feita por Jennifer Judd-Mcgee, moradora da Ilha de Mount Desert 


Quem me conhece sabe que tenho uma história de afeto com alguns tipos de ativismo. Não sou das radicais que devota a vida a uma temática ou luta, mas participo e me envolvo sempre em demandas que estão ao meu redor. É aquela história de não passar pelo mundo a passeio e entender que todo mundo pode fazer diferença.

Essa caminhada me levou a estudar os movimentos sociais dentro da academia ligando com a paixão que alimento sempre que é a comunicação.

Pessoal da universidade onde eu trabalhava dizia que eu era a que estudava os “pobres”. Enquanto outros colegas estavam desenvolvendo pesquisas sobre comunicação entre robôs, sobre técnicas publicitárias e campanhas geniais, sobre as tecnologias da informação aliadas à comunicação, eu sempre estava mais interessada em como aquela pequena comunidade estava imprimindo panfletos para informar a todos sobre uma epidemia, sobre direitos, enfim, como estavam usando a comunicação para se desenvolver.

Se em alguns círculos eu era o peixe fora da água, em um grupo de pesquisa, especificamente, eu sempre me senti em casa. Todas as vezes que fui a encontros do Comuni, na Metodista de São Paulo, eu via que não estava sozinha e isso me motivava cada vez mais. No fundo, fazemos parte da galera que quer ver um mundo em que todos tenham as mesmas oportunidades. Simples assim.

Nas pesquisas que desenvolvi encontrei muita gente na América Latina e Europa nessa trilha também. A gente vai fuçando e acaba encontrando nossos similares. Conheci gente que saiu da Europa – porque tudo já estava muito discutido - para investigar as iniciativas na América Latina que borbulha em criativas formas de se comunicar e se desenvolver com recursos muito escassos. O cenário é riquíssimo em soluções e formas de conviver comunitariamente.

Mas aí mudei para os Estados Unidos. Morar no símbolo da opressão econômica de outros povos não é algo fácil de se digerir para alguém nessa caminhada. Eu poderia passar pela cooptação, isto é esquecer quem sou, quem fui e fingir que está tudo bem nesse novo mundo tão abundante de recursos. Mas há um detalhe chamado senso crítico que mesmo que a gente queira desligar, não desliga (se você souber como fazer, me avisa. É bom para descansar de vez em quando).

Então, o que me restou para não começar a autoflagelação foi entender onde estou inserida e como são as lógicas aqui. E aí a gente percebe que nada é por acaso, que a tal da sincronia existe.
A única faculdade da ilha tem como degree (formação) a Ecologia Humana. É a terceira instituição no país todo em melhor alimentação para os estudantes, oferecendo alimentação balanceada, produzida ali, orgânica e com variações para veganos, vegetarianos, alérgicos entre outros. Ao redor do campus estão pendurados muitos avisos sobre suporte afetivo, psicológico e comunitário para qualquer problema. É uma comunidade afetiva, a princípio.

A ilha onde moro já foi chamada de Éden e ao mesmo tempo que é lugar de veraneio para riquíssimas famílias (Rockfellers eram proprietários de quase tudo), possui uma comunidade de pescadores de lagosta super organizada e ferrenha em defender seus interesses e mais um bom punhado de ecosuperchatos que querem a preservação do parque Acadia (que rodeia tudo isso). Há mais dezenas de outras organizações, inclusive uma que quer que a ilha seja autosuficiente em energia. Bem, isso já diz muito sobre porque estou quase à vontade aqui.  

O centro de reciclagem é uma lindeza e deveria ser exemplo de ideia simples para qualquer cidade.
Mas é importante ressaltar que todas essas iniciativas estão inseridas dentro de uma cultura da abundância e do descarte, em que aquilo que está um pouco ruim não se conserta, é jogado fora. Comida em geral é desperdiçada de maneira assustadora e nem todo mundo entende a reciclagem como algo pro mundo, mas simplesmente como uma maneira de conseguir uns “pennies”. Isso é país, variando para mais ou menos, dependendo do estado.

Claro que não sou ninguém na fila do pão para poder opinar. E sei que a minha visão é fragmentada e contaminada pela minha experiência de vida.

Pois bem, dentro desse escopo, ontem tive uma noção de que não tem escapatória. A gente pode ter diferença cultural em muitos lugares do mundo, mas as lógicas de convivência acabam tendo a mesma raiz, o mesmo modus operandi.

No dia seguinte em que o novo presidente (aquele que é melhor nem citar o nome) assumiu, milhões de mulheres, homens e crianças se dirigiram à Washington para comunicar aos líderes do país que não estavam satisfeitos com a visão de como as coisas estavam se encaminhando em relação a garantia de direitos conquistados (para resumir).

Daqui da ilha, uma mulher, vendo toda a movimentação, pensou em se juntar ao pessoal que se organizava. Ontem, em frente de mais de 100 pessoas, dentro de uma sala do YWCA, ela contou que imaginava que seria ela e mais umas duas amigas viajando no próprio carro, reforçando aquela massa de povo e suas intenções. Quando se deu conta, ela tinha dois ônibus organizados, cheios, reunindo 110 pessoas só daqui desse titico de mundo. Do estado do Maine, que tem uma população de 1 milhão de residentes, foram em torno de 4 mil pessoas.

Ontem, essa pequena comunidade se juntou para se organizar. Entre os discursos, líderes de diversas organizações da região falaram em como ser estratégico agora. Em como trabalhar em turnos, em como tomar cuidado da saúde e das relações perto da gente. Porque todo mundo tem que estar alerta por 4 anos, sem descanso. “O governo aposta no nosso cansaço”. Falou-se em agir em turnos. Falaram em unificar forças no momento, e em como é importante, mesmo com as diferenças, manter uma atitude pró-ativa. Uma das expressões que mais simbolizaram o momento e a mística do grupo foi dita pela Rachel: “a democracia efetiva não é organizada, controlada, calma. Ela é bagunçada, barulhenta, cansa, nem todo mundo concorda, mas todo mundo quer trabalhar junto, tem a vontade de trabalhar para todos. Mantenhamos nossa organização essencialmente democrática.”
Milja Brecher Demuro, que reuniu os dois ônibus, contando sua experiência.

A senhorinha que sentava ao meu lado sorriu. Ela trabalha em uma rádio comunitária fazendo um programa sobre mulheres nos domingos à noite. Um pouco antes ela tirou o recibo do mercado do bolso e disse animadamente: “Bem, não ando com cartões de visita. Mas esse é o tipo de cartão que a gente, dos movimentos, usa. Esse é o meu contato”.

Um pouco depois um professor da faculdade entregou para todo mundo um texto mostrando como cada um pode ajudar financeiramente cada organização que já está fazendo um trabalho pelo bem de todos deixando de comprar loucamente em datas festivas (Valentine´s day é na próxima semana) e doando para esse tipo de serviço.
Depois, uma outra senhora contou para todo mundo como agora ela se viu envolvida em um movimento chamado Indivisível. Existem mais de 4 mil grupos no país todo e o que eles fazem é pegar as demandas locais e fazer pressão nos representantes políticos.

Havia comida, preparada por várias pessoas da comunidade. Era um potluck (o que chamamos de festa americana) em que cada um traz um pouco. Teve gente que trouxe bastante, teve gente que trouxe um pouco, teve quem não trouxe. Ninguém ficou preocupado. Ninguém deixou de comer. Sobrou.

Ontem percebi que é possível que a Women´s March se torne o 15M americano. O guarda-chuva que vai unificar vários grupos, várias demandas. E mostrar que o povo quando está organizado, resiste.

E eu, claro, finalmente me senti em casa.