terça-feira, 6 de outubro de 2020

Um mergulho no vício

 

Coloquei o pé. O quentinho subiu para a perna. Devagar fui entrando na banheira e sentindo a água quente me abraçar. Não lembro quando foi a última vez que tomei um banho de banheira. Ou como dizem aqui, soaking bath, o que se traduz como um banho de molho. Molho. Era isso. Eu queria ficar de molho, de preferência, como quando fazia mergulho, naquela paz silenciosa embaixo da água. Sem ouvir os barulhos do mundo, ou se vierem, que se tornem uns murmúrios sem sentido.

Como meu amigo ortopedista recomendou, o quente da água amenizou a dor no joelho. A banheira é pequena e não consigo ficar com  perna esticada e deitar os ombros e pescoços doídos no calor da água. Revezo. Deixo os joelhos se aquecerem enquanto massageio o sal nos ombros e pescoço. Quando foi mesmo a última vez que tomei um banho assim?

Deve ter sido em Bar Harbor. Foi a primeira casa em que morei que tinha essas soaking tubs. O que é diferente de uma whirlpoll. A soaking tub é uma banheira de colocar água e pronto. Tipo uma baciona. A whirlpool é a banheira de hidromassagem. Sempre foi um luxo essa última. A minha vida toda tive só chuveiro nas poucas casas em que morei. De molho mesmo, eu podia colocar o pé num balde, e nem sempre cabia. Até que o pai e mãe construiram a casa. Fizeram uma banheira de hidromassagem na suíte. Coisa fina. Eu, que morava a umas 8 quadras da casa deles, nos finais de semana em que tinha muita dor nas costas, ou estava muito cansada, montava a minha trouxa com toalha e uma muda de roupa e ia na casa da mãe tomar banho de banheira de hidromassagem. Era um evento. Hoje, olhando para trás, vejo que o que mais me relaxava era poder parar e conversar com os dois, as vezes tomando um café depois do banho, contando da vida sem compromisso. Um colo que me faz uma falta infinita hoje.

Resolvo dobrar os joelhos e escorregar os ombros e pescoço na água. Afundei de pouquinho. Dane-se se entrar água no ouvido. Eu seco depois. Ah, o silêncio. É como se a água filtrasse os ruídos externos. Tudo fica borrado, indefinido, looonge e a gente se obriga a se voltar para dentro.

Pensei no motivo das dores: trabalho. Pela primeira vez na vida eu tenho que brigar para ter um diazinho de folga. Workaholic inveterada, nunca me imaginei suplicando por qualquer dia sem trabalho.

Sempre foi um vício. Lidei na terapia muitas vezes com o problema. Não cheguei a ser internada porque é um vício muito bem visto e altamente venerado na sociedade em que vivemos. Sim, trabalhar demais é digno, é honroso, e o mais importante nessa lógica, faz você ter sucesso (o que nesse caso seria dinheiro e status).  A questão é que nunca trabalhei pelo dinheiro em si. O meu vício tem um mecanismo de recompensa que não é monetário. Como todo viciado, você faz uso da droga para ter uma recompensa, seja ela uma anestesia dos problemas, prazer momentâneo, picos de energia. E o que determina um vício é você não conseguir ficar sem a fonte dessa recompensa. Anos de terapia me fizeram entender exatamente como esse meu vício funciona. Como a minha recompensa não é monetária, não é o trabalho formal só que funciona para mim. É o qualquer fazer. A recompensa? Produzir. Pode ser um texto, pode ser uma arrumação na casa, pode ser uma tese, pode ser uma pintura num móvel, poder ser um livro, pode ser um projeto, pode ser uma rota de entrega de cartas, pode ser um aula finalizada, pode ser um teste criado, pode ser uma palestra feita, até um bolo. Um bolo. Finalizar uma série de tv não entra nesse rol. Não sei ainda porque, vou investigar mais. Mas ver tv, para mim é uma das coisas mais desvinculadas do trabalho/vício/produção, por isso inventei de fazer tear ou costurar enquanto vejo tv. Assim as mãos ficam ocupadas e produzo algo enquanto me atualizo nos filmes e séries. Eu gosto deles. Adoro. O que não consigo é ficar parada, assistindo. Assim, só curtindo.

Comecei a respirar olhando a minha barriga submersa na água. A respiração fazia o corpo flutuar, para cima e para baixo. Lembrei do curso de mergulho. É preciso dominar o equilíbrio entre os pesos que a gente carrega para submergir e o ar inflado no colete. Sim, naturalmente a gente boiaria. Lembrei de, no curso de mergulho, ter colocado alguns pesos e de acordo com a minha respiração ficar subindo e descendo na água. O professor apontou como um ótimo exercício de controle no mergulho. Coisa deliciosa de se fazer. Imagina controlar a posição do corpo todo por meio do respirar?

Continuei brincando na água vendo o tórax e a barriga subirem e descerem de acordo com a minha respiração. Respirar. Quantas vezes no dia eu esqueci de respirar decentemente?

Foram vários tipos de trabalhos pelos quais passei nessa vida. Em todos eu ia até meus limites gritarem. Tive inflamação na sacro-ilíaca umas três vezes – uma delas tentando mover um pinheirinho de Natal... Tensões e embolamentos nos ombros e lombares, então, sempre foram o foco de dores imensas quando eu exagerava na frente do computador ou esquecia de fazer exercícios, alongar, dançar. Gastrite num tive porque não engulo desaforo. Mas aconteceu de ter umas dores de garganta por coisas não ditas dentro do estresse.

Tudo nos serve de lição. Aprendi com essas dores todas que preciso dizer como me sinto, de maneira educada e polida, mas preciso colocar limites também nos projetos.

Foi assim que ontem entrei na sala da chefe, depois de 12 horas caminhando como uma condenada entregando cartas, boa parte no breu noturno outonal do Maine com uma lanterna de cabeça, e balancei o cronograma da semana na frente dela:

 - what is this? Why I am schedule for working tomorrow? You told me you needed me last Sunday so you would give me Tuesday off. Why my name is here? Please, can you review this? Now?

Fui polida. Nessas horas você esquece que pode ser demitida, que há hierarquia, mas não esquece suas origens e valores. Não é porque você está puta que vai sair gritando por aí. O efeito da calma é muito mais efetivo. Ela pegou o cronograma, começou a gaguejar e dizer que eu tinha dito que um dia qualquer de folga seria o ideal. Interrompi.

- Ms. Boss, when we talked at the parking lot you said you put me to work on Sunday but I would have the Tuesday off. I just want you to keep your word. Please.

Para chegar nesse ponto eu posso dizer que alcancei o meu limite de dor corporal e de resiliência mental. Suplantou qualquer vício em trabalho. Dizem que a gente aprende pelo amor ou pela dor...

Tudo começou com caminhadas de 12 a 15 quilômetros por dia entregando cartas. Tem gente que me pergunta: - mas você não dirige? Dirijo. Até porque há um monte de caixas imensas para serem entregues que precisam ser carregadas num caminhão. Várias delas. Americanos compram muito, tudo, o tempo todo. É o clichê que já conhecemos do país da imensa produção de coisas e lixo. Muito lixo.

Você estaciona o caminhãozinho em um ponto pré-determinado e faz o que se chama de loop, uma voltona nas casas, uma ronda. Pega as cartas todas, carrega no braço em duas pilhas e mais todos os pacotinhos que cabem na sua bolsa e sai caminhando e entregando... e ouvindo a canção... Não, ouvir a canção não pode porque não se pode ter nada nos ouvidos. Safety first. Vai que tem um cachorro raivoso solto e sedento por sangue de uma carteira distraída? Aprende-se no treinamento que é assim que tem que ser. Tem que carregar tudo muito atento à sua volta. E se não bastasse seus chefes de vez em quando resolverem te seguir para saber se você está cumprindo os protocolos, você carrega um leitor de códigos de barra que tem a sua posição de GPS no momento exato. O que permite que seu chefe controle sua velocidade, localização, rota, etc sem levantar a bunda da cadeira, do escritório. Então nada de parar para descansar ou ficar de conversê, viu?

Enfim, no início vieram as dores musculares por seguir essa rotina durante seis dias na semana, em torno de 8 a 10 horas por dia. Daí algumas pessoas no escritório entraram de férias e em vez de colocarem substitutos, dividiram o trabalho dessas pessoas entre quem ficou. As horas e a carga aumentaram. Como sou soldado raso e garantia trabalhista aqui é pior que Coelho da Páscoa, porque realmente acreditam que existe dentro da USPS, fui a primeira a ser jogada para trabalhar aos domingos (entregando caixas da Amazon, olha só) e a tapar os buracos feitos pelos que surtam e vão para casa abandonando o dia de trabalho (sim, tem disso e mais frequente do que se imagina).

O caminhãozinho
Um domingo qualquer e a qtdade de caixas que só eu entrego (umas 150). Multiplica isso por mais 5 outros entregadores só nessa cidadezinha (8 mil habitantes), daí multiplica por todas as cidades do país (imaginando que elas são pequenas como essa) e pelos domingos do ano. Entende que o lixo é infinito?




Um domingo qualquer 2 (visão de dentro da caçamba)


Aí, depois, a dor foi na minha artrite do dedão do pé e na planta fasciatis. Fiz um skype com o primo fisioterapeuta e ele me ensinou alguns alongamentos que ajudaram imensamente. Vai lá a pessoa chegar em casa caindo aos pedaços e lembrar de alongar tudo para no outro dia estar pronta de novo para mais um massacre.

Aí começaram as dores nos joelhos. Falei com algumas pessoas no correio perguntando se eles não tinham dores. Várias. Pessoas e dores. Todas resolvidas com analgésicos e cirurgias. Oi? A líder das atendentes locais disse que desde que começou a trabalhar no correio há anos e lá vai bolinha fez 3 cirurgias no joelho e tomava Aleve (o Advil) todos os dias para amenizar a dor. Mas que daí encontrou esse colágeno em pó que repõe o das juntas e deixa o cabelo e a pele uma maravilha... e nunca mais precisou tomar o analgésico...

É uma distopia. Na teoria eu debati muitas vezes sobre a posição do trabalho na nossa sociedade capitalista. Hoje eu sinto na pele, nos músculos, no joelho, o peso dessa instituição e o que estamos fazendo conosco. Como foi que viemos parar aqui, minha gente?

Sentei de novo na banheira e alonguei as pernas.

Para pagar esse aluguel desse mini-apartamentinho que tem uma banheira onde eu posso colocar meu joelho na água, eu preciso trabalhar. Essa é a nova forma de escravidão que criamos para nós. Mas, como toda Polyana, eu vejo o lado bom desse processo, ou fase, porque não é para sempre: estou me curando do meu vício. Primeiro, aprendendo a não assumir coisas demais ou coisas dos outros, só para ter a recompensa interna e egoística de me sentir fodona; segundo, cuidando do meu corpo com a yoga e alongamento feitos em casa; terceiro, valorizando imensamente os dias de folga e fazendo-os ser mesmo dias de folga.

Levantei. Liguei o chuveiro para lavar o cabelo pensando na próxima série que vou assistir.  De pijama.

domingo, 2 de agosto de 2020

Ela morreu de quê? De tubarão.




Não, isso não é uma piada. Por favor, não ache graça do título, porque de engraçado ele não tem nada. A causa da morte de uma mulher nessa última semana aqui no Maine, em Bailey Island, a pouquíssimos quilômetros de onde moramos e trabalhamos, foi um ataque de tubarão. O segundo ataque de tubarão de toda a história do estado. O primeiro ataque fatal de tubarão.

O primeiro ataque fatal de tubarão no estado.

Claro que escrevendo assim é mais uma notícia de fatalidade, afinal morre tanta gente todos os dias, não é? E ataque de tubarão é coisa comum em várias partes do mundo, acontece ainda. Mesmo com toda parafernália que temos de tentar controlar o mundo, colocar plaquinhas de GPS nos animais estudados, medir as correntes, as temperaturas, os costumes e hábitos de todo os seres viventes. 
Mesmo com toda tecnologia criada para estudar tudo e mais um pouco, uma mulher morreu de ataque de tubarão semana passada aqui pertinho.
Ninguém morreu antes dela. Ninguém, numa sucessão de dias, meses e anos. Ela foi a primeira.
Ela não estava fazendo nada de mais. 63 anos. Nova de tudo. Trabalhava com moda em Nova Iorque e tinha se aposentado. Queria passar mais tempo com a família. Vida tranquila, tinha uma casa em Nova Iorque e outra no Maine. Resolveu cair no mar gelado do Casco Bay com a filha. Sim,  filha nadava com ela e o tubarão resolveu atacar ela, não a filha. Dizem que é porque ela estava usando um colete de flutuação (a filha, não) e o tubarão pode tê-la confundido com uma foca, muito comum aqui também, e comida boa para o tubarão.

Hahahahahaahahaha, o tubarão a confundiu com uma foca! 

Os nossos arrogantes estudos dizem que os tubarões são os seres com o olfato mais desenvolvido abaixo da água. Eles sentem cheiro de sangue há distância e são atraídos por ele (segundo a Wikipedia eles podem cheirar uma gota de sangue no oceano a 300 metros de distância. Tem ideia?). Então como é que um bicho com um olfato super desenvolvido desses não iria sentir que o cheiro de corpo humano é bem diferente do cheiro de uma foca, mesmo no mar? 

Onde eu quero chegar? Oras, quero dizer que não sabemos nada. Coisica de nada. Nadica de nada. E ficamos nos achando o tempo todo, achando que nossos sistemas funcionam, achando que está tudo sob controle, achando que vamos sempre encontrar as soluções para tudo. 

Mas a questão é bem essa. Continuamos a ter mais perguntas e as respostas que vamos encontrando como humanidade, são pífias, tão instáveis como a corda-bamba. 

No meio de uma pandemia que já matou mais de 600 mil pessoas no mundo todo, a mulher morreu de ataque de tubarão, num mar onde nunca houve ataques fatais em toda a história registrável. 

E a gente fica se perguntando como todo mundo que está em luto pelos seus mortos hoje: porque ela? porque desse jeito? Porque logo agora teríamos o primeiro ataque de tubarão, no meio de uma pandemia? Quem regula isso tudo? Quem decide quem morre e quem vive? 

Há os que acreditam no destino. Estava já determinado antes dos tempos que a fashionista de Nova Iorque viria para essa terra, faria mundos e fundos com a vida dela, mas um tubarão acabaria com tudo isso no meio de um mergulho no mar, no Maine, no último estado láaaa da ponta dos EUA perto do Canadá. Sim,o destino, um tipo de roteiristas pior que o chapeleiro louco da história da Alice, decidiu quando essa senhora nasceu que ela morreria de tubarão no meio de uma pandemia mundial. E também decidiu que gente passaria fome e que a ciência humana não encontraria solução para isso, porque estaria inserida num sistema muito cruel em que alguns têm demais e outros têm de menos. 

Aos crentes em um poder maior. Foi Deus que assim quis. Arram. Acreditamos em um Deus que tem um plano mirabolante de sensibilizar os seres humanos para o que é realmente importante na nossa vivência que sai por aí matando gente, de pandemia e de tubarão, porque ele é Deus, ele sabe e é da vontade dele. 

Livre-arbítrio. Ateístas e incrédulos diriam que ela foi culpada por ter morrido de tubarão. Ela que estava mergulhando com um colete para estar salva em um lugar em que NUNCA  antes houve um ataque de tubarão.

Que tempos são esses? Esses tempos, de todos os tempos em que procuramos explicação para tudo, encontramos umas merrecas, achamos que controlamos tudo e vivemos nessa ignorância miserável, maquiada de uma arrogância de saberes que surpreende sempre. Ah, descobriram o tipo de tubarão que fez o ataque por um pedaço de dente encontrado na vítima. Era um tubarão branco. A entrevista com o biólogo foi definitiva:
- vi claramente que aquele era um dente de tubarão branco. 

Isso, palmas para a nossa ciência. Essa mesma que não conseguiu impedir o Holocausto de acontecer, a Bomba de Hiroshima de ser usada, as pestes e agora as pandemias de nos assolar, a fome e desigualdade de ser uma constante na nossa existência.
E o que é um tubarão no meio de tanta ignorância, não é? 

No fundo, somos uma piada pronta como humanidade. Em alguma outra dimensão outros seres devem estar assistindo tudo isso comendo pipoca e comentando:
- Quem iria imaginar essa virada no roteiro e ela morrendo com um ataque de tubarão, hein?


segunda-feira, 13 de julho de 2020

Tudo interligado

Há um tempo atrás eu li um artigo de um moço no medium que contava alguns ensinamentos do seu pai, militar, da categoria Seal. É tipo uma tropa de elite da marinha. E ele explicou sobre a Hell Week.
Eu não me lembro o que me fez ler o texto do menino, muito menos porque eu li, mas eu acredito que alguns livros chegam a nossa mão porque precisam ser lidos naquele momento, ou melhor, precisamos da leitura deles. Entendo o mesmo com alguns texto aleatórios.

Pois bem, no texto ele contava sobre a Hell Week, uma semana destinada a "quebrar" os mais talentosos Seals, baixando a porcentagem dos 20% muito bons para os 5% absolutamente bons.

Foi pensando nesse específico artigo que atravessei a última semana.
Explico: para algumas pessoas entregar cartas é algo super simples. Você pega um amontoado de cartas e sai entregando. Sim, é isso, mas você tem que adicionar aí uma montuera de pacotes e caixas também. Coloque um roteiro definido que você, muitas vezes, não tem ideia de onde é. Encha uma van com tudo isso e defina que você tem somente aquele dia para entregar tudo, em torno de 8 a 10 horas. Agora multiplique isso por 12 rotas, 12 profissionais. Vai complicando, não é? Adicione a isso, um profissional afastado por duas semanas para ser testado para o Covid-19, outro em férias e vários com dias de folga atrasados. Assim, sem poder contar com ajuda de outros escritórios que não têm profissionais suficientes para enviar, as rotas vacantes acabam sendo divididas em quem fica. E foi desse jeito que acabei, junto com meus outros colegas, trabalhando uma média de 10 horas por dia, 6 dias por semana.
A pressão, nessa situação, é imensa. Não só psicológica, quando você vê aquele caminhão cheio e acha que não vai conseguir entregar tudo no dia, mas de saber se teu corpo vai aguentar caminhar em torno de 18 a 20 km por dia entregando cartas e subindo e descendo do caminhão, carregando caixas no calor não muito comum por essas bandas.

Isso, semana passada foi minha Hell Week. Foi só pensando no artigo do menino que consegui passar pela semana sem me descabelar ou surtar. Alguns colegas surtaram e simplesmente foram embora. E eu mantinha em minha cabeça que era só mais aquele dia, que ia passar. Para daí chegar no escritório no dia seguinte e ser avisada que alguém mais teve enxaqueca e teríamos mais trabalho aquele dia.
Eu sobrevivi e isso me dá um certo alívio. Não sei a que custas no meu corpo (sim, estou garantindo uma boa alimentação e rios de água), mas eu sobrevivi.

Por fora.

Porque na sexta, eu tive um ataque de choro no meio de uma rota. E o motivo não foi o volume de trabalho.
Eu estava no tal do "hanging there", só segurando as pontas, fazendo uma volta final de uma rota que não era minha, ao redor das 7 da noite e um casal em um carro para do meu lado, com cara de desesperados, e pede para que eu ligue para algum número porque eles acham que uma raposa foi atropelada. No mesmo dia eu tinha visto uma doninha fugir entre uma casa e outra e meu colega salvou uma tartaruga que tentava atravessar a rua.
Eu fiquei sem ação, sem saber para quem ligar e acabei ligando para o 911.
- Qual sua emergência?
- olha estou na rua High e um casal me parou dizendo que um animal que parece ser uma raposa foi atropelado um pouco mais à frente, esquina com a Wright. Para quem tenho que ligar?
- O animal está morto?
- eu não sei, não o vi.
- Mandaremos alguém.

Aos poucos fui chegando perto da esquina, entregando cartas e pensando no pobre animal que pode estar machucado e assustado tentando voltar para a casa dele. Pensei no limite de velocidade daquela rua que ninguém respeita. Pensei em tantas vidas, inclusive a de uma aranha que sem querer eu tinha matado na semana anterior quando tentei colocá-la para fora do carro. Pensei em que mundo estamos vivendo em que valores são tão inversos. Pensei nas mortes choráveis como Ju me lembrou da Butler filosofando. Pensei se esses tempos pandêmicos nos farão pessoas melhores.
Fui chegando perto do cruzamento com o coração acelerado, pensando no pobre animal. Não via nada. Pensei no pior, que estava machucado e fugiu e ia ter uma morte dolorosa e lenta no meio do mato.
Até que avistei o corpinho no meio da rua. Esqueci dos carros. Cheguei perto e vi. Era uma raposa mesmo.
Linda, Uma pelagem com uma combinação de cores tão linda que daria inveja a qualquer colorista de salão.
Eu não queria deixá-la ali.
Pensando na raiva (doença transmitida) peguei um dos panfletos que eu estava distribuindo e fiz de luva. Peguei a raposa pelas duas patas dianteiras e arrastei para o canto. Morta. Morta há muito pouco porque ainda estava morna, molinha. Observei. Dentes branquinhos.
E foi ali que eu desmontei.

Não vi razão para chorar um corpo de uma raposa, porque nossa sociedade aponta que animais não têm mortes choráveis. Mas eu chorei. Chorei sem parar, entregando cartas e vindo para casa. Chorei contando para o marido. Chorei contando para as amigas e estou chorando agora. E fico me perguntando: que mundo é esse que a gente escolhe que mortes chorar? Que banaliza a velocidade, o tiro na favela, que mata por muito pouco, muito pouco, muitas vezes por distração?
E hoje, refazendo as meditações do Dalai Lama me deparei com a resposta: está tudo interligado. Por isso estamos nessa bagunça. Sempre esteve tudo interligado. Não dá para ser feliz sozinho. E mesmo com um vírus vindo e explicando na prática isso para a gente, não acordamos.

Eu não sei se essa semana será uma Hell Week. Mas sei que os efeitos da última vão ficar comigo para sempre.

sexta-feira, 26 de junho de 2020

A tristeza do segundo carro e o infalível sistema.



Meu pai era um fã ardoroso das filosofias do Deepak Chopra. Mesmo sendo católico de carteirinha, ele recebia com bons olhos qualquer jeito de viver que nos tornasse melhores. Como tinha como profissão treinar outros profissionais para se desenvolverem na carreira, tinha que praticar em casa e na vida o que ensinava. Nada dos coachs que vemos pipocar aos montes hoje. O pai fazia parte de uma tribo "treinador raiz", do antigo Ceag, um sistema público que dava suporte para empreendedores, e que virou depois o Sebrae. A missão dele era repassar experiência, conhecimento e aconselhar para que as pessoas tivessem o sucesso no trabalho e muitas vezes na vida.

Essa talvez tenha sido a maior influência dele na minha vida como um todo. Fora toda a carga cristã católica, que sempre levei muito ao pé da letra e dos ensinamentos, ver os outros se desenvolverem sempre esteve entre os meus maiores prazeres. Demora um tempo para a gente entender para o que foi feito. Mas hoje eu posso dizer que ensinar, treinar, encaminhar, comunicar para reunir, estão entre as minhas paixões mais fervorosas. Claro que posso fazer isso em várias outras atividades profissionais e, de certa forma, essa preocupação com os que estão ao redor é constante. Tanto que tenho que ficar me segurando aqui na casa que dividimos com mais 5 alunos, para não dizer para eles como a louça deve ser lavada, os quartos limpos ou a roupa cuidada.

Com o tempo aprendi a fica quieta. Com o tempo aprendi que se o outro quer fazer algo que você vê que vai dar tudo errado e ainda avisou, você tem que respeitar. Com o tempo aprendi que sou mais aprendiz nessa história de tentar ensinar. E foi o tempo que também me ensinou que estamos todos no mesmo barco por isso é um ato de extremo egoísmo e egocentrismo quando investimos nosso tempo para sermos melhores e os outros serem melhores. Porque a verdade é que, como dizia a música, não dá para ser feliz sozinho.
Não dá.

Por que resolvi falar tudo isso?

Porque compramos o segundo carro ontem. Uma tristeza.
Sim, uma tristeza porque mais um carro é contribuir para o desastre ambiental que estamos vivendo. É adicionar mais químicos poluentes na atmosfera. É apostar no individualismo. Mas é também aceitar que falhei como alguém que buscava alternativas para uma vida melhor, principalmente pelo exemplo, como meu pai ensinou.

Eu passei por todas as fases no meu relacionamento com os carros. A que eu pegava o carro do pai escondido, a que sonhava com o meu carro, a que dividia o carro com o marido, a que (burguesíssima) ganhei o carro dos meus pais quando entrei na universidade, a que me fazia diferença a potência ou o tipo de carro que eu tinha, a que apontava que o carro era o must da independência, a que eu usava o meu carro para ensinar os outros a dirigir (queria que fossem todos independentes como eu), a fase em que o carro precisava ser econômico e de fácil manutenção, a que ele precisava ser menos roubável (depois de dois deles desaparecerem), a que eu não via mais o carro como uma extensão minha, mas como um simples instrumento.

Até que vendi o carro. Vendi para não comprar mais outro. Usei o dinheiro para mandar o filho para o programa de intercâmbio e, como não tinha mais que buscar ninguém na escola ou levar para o médico, morando numa cidade com um sistema de transporte decente, eu decidi usar ônibus e táxi.

Um outro mundo se abriu. Aprendi a baixar o meu orgulho e pedir carona. Lidei com gente que me olhava esquisito ou com dó quando eu dizia que não tinha carro. Aprendi a usar uma mochila no lugar das bolsas, que eu colocava na frente do corpo quando estava dentro do ônibus. Aprendi a evitar saias ou sapatos desconfortáveis, porque quando o dia estava bonito eu caminhava. Comecei a andar 3 km para voltar para casa das aulas do flamenco curtindo a noite. Saía direto do trabalho para o bar com os colegas sem me preocupar com quando o estacionamento iria fechar ou se ia beber.

E combinei com os meus pais que usaria o carro deles toda vez que precisasse faze mercado, ajudando a mantê-los com combustível ou ajustes.

Nunca fui assaltada. Aprendi a analisar com cuidado as ruas e lugares por onde ia. E aprendi a receber o cuidado dos outros, quando faziam questão de me levar para casa. Não era mais a independência o que importava, mas dividir, partilhar o taxi as vezes, ou levar todo mundo quando estava com o carro dos meus pais. Saindo um pouco da lógica individualista e com um pouquinho de comunicação e esforço, era possível partilhar os trajetos, flexibilizando um pouco os horários.

Saí do Brasil e vim morar no Maine, no estado menos populoso dos Estados Unidos. Aqui, quem não tem carro sofre e pena muito porque transporte público é centralizado nas cidades maiores e é tão ruim, mas tão ruim de horários, que é usado mais por quem não o usa para trabalhar. Nesse mesmo cenário, imensos estacionamentos, para caminhonetas imensas estão por toda parte.
Marido veio antes e comprou um Prius usado. Carro híbrido, o Prius é um dos mais mancos da categoria, tanto que em um post para ter os conselhos sobre o carro, uma menina recebeu a seguinte mensagem:
- É um carro ótimo, faz de 0 a 60 em três dias...

Piadas a parte, em quatro anos aqui, o Prius vermelho nos serviu muito bem. Morávamos no meio da vila da ilha em que vivíamos então tudo era feito caminhando praticamente. Uma vez por semana um levava a cã na creche de carro. E dias de chuva era possível que um desse carona para o outro. Mas nada muito grave. Para ir ao mercado no município vizinho (que tem ônibus somente duas vezes por semana!!!), para buscar e levar coisas, a partilha do Prius entre marido e eu foi sempre tranquila. Ele me ameaçava: ah, se encontrar trabalho em tal lugar, vamos ter que comprar o segundo carro! E eu resistia bravamente.

Numa viagem que saía de Boston aluguei um carro até o aeroporto. Quando ele foi para a residência artística por um mês ele emprestou uma caminhoneta velha do pai dele. A manobra sempre foi trabalhosa para nos mantermos no único carro, com gente olhando muito torto quando eu dizia que tínhamos somente um carro na família, mas a gente foi ajustando todos os horários, cursos, saída com amigos, até ontem.

Nos mudamos para Brunswick, ao redor de Portland, ironicamente na frente da estação do trem (coraçãozinho aqui para qualquer tipo de trem), e aqui o transporte público também é de hora em hora e muito instável. O trem vem umas 4 vezes por dia e liga outros municípios a Boston, mas não serve para os municípios vizinhos pela opção de horários e preço. Uma tristeza.

Encontrei meu trabalho na cidade vizinha, 15 minutos de carro (15 minutos!!!!!), e estávamos administrando com o marido me levando e buscando, ou quando ele fazia tudo caminhando e eu ia com o carro. Até que ele encontrou o trabalho dele em outro município. Também 20 minutos de onde estamos, mas para o outro lado... Com os horários todos sem poderem combinar, sem rotina, com um dia diferente do outro. Pensei em dividir as idas ao correio (meu trabalho) com uma colega que mora muito perto. Mas os horários dela também não combinam com o meu. E aí não teve jeito, tivemos que comprar outro carro. Foi o pessoal ligar para dizer que o marido podia começar a trabalhar que em dois dias comprarmos um outro carro. Usado, barato, que dava para comprar com o dinheiro que economizamos, sem financiamento. Não é um híbrido, porque os híbridos estavam mais caros. Irônico, tentar salvar o planeta é mais caro.

E foi nessa compra amarga, sem nada da aura e status de conquista que tínhamos no passado, que entendi na prática aquela máxima que realmente estamos no mesmo barco. Todos. E que é possível que muitos de nós ainda tentemos viver um outro tipo de vida, uma melhor, menos invasiva para a Terra, ou ainda ser os off the grid (os novos hippies), mas se não nos juntarmos como comunidade para irmos mudando, a coisa vai patinar por longos anos. Anos que talvez não tenhamos pela frente.

Vim partilhar aqui o gosto amargo de ter descoberto que mesmo fazendo todo o esforço possível para evitar mais poluição e um modo de vida individualista, eu fui vencida. E esse não é um gosto saboroso, não. É bem amargo.




domingo, 14 de junho de 2020

A calcinha do avesso


O papo não é sobre alguma superstição ou sortilégio ou simpatia. É que pus mesmo a calcinha do avesso ontem e só vi hoje de manhã, quando fui fazer xixi.

Fiquei pensando, cá com os meus botões, o que faz uma pessoa colocar a calcinha do avesso e nem perceber. E foi daí que refleti que nas últimas semanas não aconteceu só o descuido com a calcinha, mas com um monte de outras coisas que eram importantes para mim.
Lembrei também da treinadora de cães da Pandora e de algumas teorias relacionadas ao capitalismo. O que tudo isso tem em comum? Explico.

Estamos dividindo a casa que alugamos com outras pessoas, estudantes da universidade daqui perto. Temos um casal de namorados em um quarto e outros três indivíduos em outros três quartos. Marido e eu somos os mais velhos aqui e, por algum tempo, ficamos somente nós nessa casa. Logo, nos sentimos responsáveis pela organização geral e criamos uma linha de atuação, trazendo a caixa para reciclados e a sacola para aproveitamento de garrafas e latas.
Pois bem, não é novidade que entre eu e o marido, o título de "louca por limpeza" sempre ficou comigo. Eu tenho que estar muito cansada  - quase morrendo - ou com muita cólica para ficar parada em casa. Porque sempre tem algo para fazer. E porque me incomoda muito ver coisas por fazer e não fazer. Então, se tem pó, lá estou eu tirando. Se tem mancha no chão, é para já que vai ser lavado. E esse foi o modus operandi até eu começar a trabalhar para o correio.

Depois de caminhar todos os dias uma média de 15 km, com mais de 10 horas de trabalho carregando caixas, entrando e saindo do caminhão umas dezenas de vezes por dia, a única coisa que você quer é ficar parada. Pela primeira vez na vida eu chego em casa e faço o que uma pessoa normal faz: se joga no sofá. Não sem antes tomar um banho de mais de 20 minutos já que, como trabalhadora essencial, eu corro o risco de trazer o vírus para casa. Mas o sofá, e depois a cama, são os destinos certos.

Visto isso, o marido que nunca foi afeito a limpar (limpa muito mais ou menos para meus critérios), começou a fazer as limpezas normais. Ele já cozinhava todas as noites, botava as roupas para lavar e ia ao mercado sempre que necessário. Mas limpar era a última fronteira. E ele começou a limpar. E eu comecei a não enxergar mais as falhas. Porque o cansaço não deixava que eu tomasse uma atitude em relação a isso (normalmente eu relimpava as coisas).

Para adicionar à situação, os digníssimos roommates gostam de cozinhar. Mas não de limpar. Então era um tal de comida largada no ralo da pia, chão da cozinha sempre com migalhas, fogão cheio dos respingados e sujeira por todo o  lado e escadas. No início eu ia lá e limpava. Aspirador ligado no domingo de manhã pra todo mundo saber que limpeza é algo necessário. Até que o cansaço não deixou mais. Coloquei, então, um bilhete bem específico: favor limpar a pia, o fogão, o chão e o pano de pia SEMPRE depois de cozinhar.

Tempo depois, marido, incomodado com essas sujeiras, assumiu as áreas comuns. Até que ele cansou também e só limpa o que usamos: nosso quarto, um banheiro, o caminho da porta até os dois e a sala.
Mas eu vejo as sujeiras. Eu vejo as migalhas na cozinha. Ontem mesmo eu vi um montinho de farinha com outros detritos no canto do chão, perto dos balcões. E não fiz nada. Não consegui. O cansaço não deixou.

E é aí que entra duas teorias/práticas que são muito parecidas.
A treinadora da Pandora disse que basicamente a gente precisava cansar ela para que ela ficasse menos agressiva quando nos mudamos para cá. Bingo. Duas caminhadas diárias desde então fizeram milagres. Isso quando não vamos ao parque e ela pode dar os corridões que ela gosta, buscar a bolinha e brincar horrores com outros cães. Ela volta para casa calminha e dorme. Dorme o dia inteiro e a noite inteira. Humanos são assim. Há mais conflito em situações em que as pessoas não estão ocupadas, não têm uma missão, um projeto, um foco. Isso é muito da cultura judia/cristã/ocidental. Meu pai sempre dizia que mente vazia era oficina do diabo.

Mas há o outro lado da mesma moeda.

Assim é o capitalismo com o trabalhador. Você trabalha para produzir dinheiro para comprar coisas. E essas coisas quando compradas precisam de mais dinheiro para serem mantidas. Então você compra o carro mas daí tem que fazer o seguro e colocar alarme. Você compra a casa e tem que mobiliar, colocar seguro, fazer manutenção. E falemos das roupas, dos entretenimentos. E aí que você então trabalha mais. Para poder prover para você, e os seus, mais disso tudo. A tal da segurança.
E aí que você fica muito cansado para pensar sobre esse processo. Muito cansado mesmo. E não lê sobre, não escreve sobre, não tem tempo, porque está exausto. E vai deixando tudo como está. O sistema do jeito que é. E, com o tempo, acha tudo normal.

Então, a mesma técnica pode ser usada para o bem ou o mal (não gosto dessas expressões absolutas, são só para servir de demonstração), mas as duas falam sobre o controle dos corpos e mentes por meio da atividade. E há diversos questionamentos que podemos fazer em ambos os casos. O primeiro é: isso serve a quem?

E é assim que pela primeira vez na minha vida, a limpeza e organização da casa onde moro, em detalhes não é mais fundamental. Ando muito cansada para me incomodar com isso. É por isso que não tenho feito mais bolos. Porque a energia que gasto ficando puta com a bagunça da cozinha, me é agora, muito cara. E é assim, que aos poucos o cansaço tem me controlado e tenho me focado com o que é só essencial para continuar. É como se tivesse em modo "energy saver".

Foi assim que decidi que não ia desvirar a calcinha essa manhã. Perto de toda a energia gasta para desvirar, achei melhor decidir trocar por outra, prestando atenção no lado certo quando for tomar banho mais tarde. São só mais algumas horas mesmo.

domingo, 7 de junho de 2020

Sugestão pós pandemia: vá viajar. Muito.

Não lembro de ter sonhado apaixonadamente, como muita gente, em sair pelo mundo viajando. A coisa de viajar foi acontecendo naturalmente de acordo com a vida, o trabalho, as amizades que decidem sair voando por aí.

Tenho amigos que nasceram com uma mochila nas costas. Muitos possuem uma base daquelas previstas no "Livro da Vida Tradicional Brasileira", do emprego fixo, de ter finalizado os estudos até faculdade, com casa e família montada. Mas daí saem pelo mundo a cada oportunidade de férias.
Tem outros que resolveram não casar ou filhos, possuem uma comunidade de amigos bem estruturada e saem pelo mundo sempre que dá, fazendo mais amigos.
Outros resolveram sair fazer intercâmbio e se acharam em outros países e resolveram construir a vida lá.

Outros acharam o amor em outros países e por lá ficaram.
Enfim, estou rodeada de gente que tem como uma das prioridades de vida sair pelo mundo, conhecer, experimentar, conviver, trocar. Boa parte da minha comunidade é essa, experimentadeira, que viaja.

E há uma experiência e conhecimento no processo de viajar que não tem faculdade ou doutorado ou curso no mundo que consiga ensinar.

Lembro que quando eu dava aulas para o curso de turismo os professores que não eram da área de conhecimento tinham a oportunidade de ter cursos específicos sobre turismo para poder adaptar os conteúdos para os alunos. Lembro muito bem de um curso da Simone, quando ela nos coordenava, explicando como o turismo nasceu, primeiro a partir de viagens de mercadores mas depois disso com o Grand Tour, no século 18, quando filhos de burgueses, nobre e comerciantes europeus saíam viajar para se prepararem culturalmente para serem membros de uma elite dominante.

É óbvio que o dinheiro não era problema para essas classes e talvez seja por isso que até hoje as famílias se perpetuam em posições de dominação em diversos países e no mundo. Conhecimento pode proporcionar mais negócios, mais conexões e mais poder.

E é aí que eu queria chegar. É preciso viajar. É preciso sair pelo mundo, se despir de visões pré- estabelecidas sobre o que é certo ou errado para assim podermos ser melhores, para poder construir um mundo melhor.

E não estou falando aqui de excursão protegida com tradutor e guia. Estou falando de sair da zona de conforto e pesquisar, e ler e aprender sobre o que se está vivenciando. Saber um pouco da língua se não for fluente. Há uma humildade, uma vulnerabilidade humana em quem se abre para o mundo e para o novo quando se está viajando que não há o que substitua. E nas minhas andanças e nesse casamento internacional e intercultural, colecionei experiências e aprendizados que uma vida no mesmo lugar não me ensinariam. Conto algumas que são bem particulares.
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Tenho a história de dois eventos de casamentos. Marido e eu estávamos começando o relacionamento e certos detalhes culturais e gastronômicos gritavam no nosso dia a dia. Todos os dias.
Em uma das festas de casamento no Brasil, marido foi se servir de comida e colocou no mesmo prato o molho de cachorro quente e uma fatia de melancia.  Uma das minhas amigas riu horrores dessa combinação nada comum para os brasileiros.
E eu contei para ela de um casamento em que participei nos Estados Unidos. Primeiro que a cerimônia começou as 14 horas, jantamos às 15 e a festa foi das 17 às 20. Dentre as comidas oferecidas estavam a combinação, nada comum para brasileiros, entre feijão e bolo de fubá (corn bread). Eu amei! Quando contei para essa minha amiga, ela fez um muxoxo.
Estar aberto a novas comidas, ser curioso, deixar os preconceitos em casa e realmente querer conhecer o novo é fundamental para ser uma pessoa melhor, também gastronomicamente falando.

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Esses dias aqui em casa, um dos roommates, estudante de uma das mais antigas e tradicionais universidades desse lado do país (coisa bem importante por essas bandas), me viu falando com a Pandora e, na sua inocência não viajada, perguntou:
- Você realmente acredita que ela entende Português?

Eu demorei um pouco para responder mas tentei ser didática.
- Ela é brasileira, ela aprendeu os comandos em português e sabe alguns em inglês. Minha relação com ela é em português.

A cara dele foi de surpresa ao mesmo tempo que, imagino, caiu a fichasobre o quanto aquela pergunta foi descabida. E eu fiquei pensando com meus botões que só alguém que não tem noção do que há "lá fora", que não tem relação com imigrantes ou estudantes internacionais pode fazer uma pergunta dessas. E é tão intrínseco que muitas vezes esse estranhamento não é percebido. Até que alguém de outra língua comece a falar perto do indivíduo e ele se force a entender que há mais do que sua bolha english speaking.

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Num grupo de Facebook que discute dicas sobre cidadania italiana um casal brasileiro que vive na Itália há algum tempo conta suas aventuras e dicas em vídeos do youtube. Decidi assistir um pela curiosidade de como as pessoas estão contando as suas histórias. O bate-papo é bem solto, sem muita produção, como se estivessem numa mesa conversando com os amigos. Nesse vídeo específico eles contam sobre como o homem conseguiu um trabalho. No meio da narração eles dão dicas ótimas de como agir, mas eu me apeguei a alguns comentários que mostram que até quem muda de país pode carregar essa falta de "gingado viajador" para qualquer lugar.
O rapaz dizia que precisou viajar para outra cidade para começar a trabalhar e contou que ficou em um hostel. Ambos não sabiam pronunciar a palavra hostel... Mas o pior foi a descrição. Disse que ficou com outros rapazes no mesmo quarto e um acendeu um enorme baseado naquela noite. Ele odiou.  A mulher ainda comenta que preferia que ele nem dormisse porque imaginava que alguém pudesse matar ele durante a noite...

Eu fiquei lembrando dos diversos hostels que fiquei: da Nova Zelândia com uma limpeza espetacular, os da Espanha, em que era possível ter um quarto para o casal separado, o de Roma que era um quarto dentro de um apartamento, em Montevideo em que não se podia tocar nas paredes do banheiro, em Cancun que era um quarto coletivo misto com camas de cimento e cortinas, ou ainda o misto que dividi em Sevilla logo que cheguei com dois respeitosíssimos irmãos húngaros. Todas as experiências foram fantásticas. Todas. Eu entendo que há um medo específico do brasileiro por conta de toda a violência que temos presente no país, mas fazer pesquisa detalhada, ler as avaliações de cada lugar e pedir recomendação de amigos que viajam bastante pode proteger a gente de muito perrengue. E essa expertise ou conhecimento específico (traduzindo) só se consegue de um jeito: viajando.

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Para entender que até o que se pesquisa tem que ser filtrado, conto também um causo meu.
Eu sabia, de ouvir falar e ler, que franceses em geral não gostam de falar inglês. Era quase de saber comum que são "arrogantes" e não dão muita atenção quando você fala inglês com eles. Pois bem, não falo francês e entendo como um voto de boa vontade tentar dizer algumas palavras para mostrar que respeita a a cultura local.
Assim, quando fui para um congresso em Montreal fiz algumas aulas de francês para pedir informação e me apresentar. Coisas-chave para perguntar em outro idioma. Então a frase mais usada foi:
- Bonjour! Parle vouz Englais?
Falei essa expressão para um motorista de ônibus e ele fez uma cara horrível e disse:
- Of course.
Vi que teve uma má vontade imensa em me dar as informações. E entendi o motivo porque também tinha conversado e lido sobre. Americanos em geral, que dividem a fronteira com o Canadá, a atravessam sempre com o comportamento de que todo mundo deveria falar inglês. Aliás, o povo americano é o que menos aprende línguas e eles até fazem piadas deles mesmo com isso.
Pois bem, entrei no ônibus e fui do lado do motorista perguntando coisas sobre a cidade, porque a numeração da rua era leste - oeste e tals. Num dado momento eu falei:
-Je sui Brésilien.
O moço virou o rosto e assustado disse:
- eu jurava que você era americana.
Continuamos a conversa em inglês com um motorista muito mais afável, e eu pedindo desculpas por não saber francês e ele me perdoando. Boa vontade é tudo. Mas informação atualizada é muito mais.

Ano passado indo visitar Paris pela primeira vez, ainda sem falar francês, levei a regra comigo.
Cheguei na estação de trem e perguntei em francês para as fiscais se elas falavam espanhol ou português. Pensei comigo que se eu oferecesse essas outras línguas era possível que entendessem minha dificuldade. Ambas balançaram a cabeça e responderam:
- English.
E aí caiu a minha cara. 90% de Paris fala inglês agora e com melhor vontade. Eu os entendo. Ser invadido todo santo dia por gente perguntando o básico o tempo todo não é algo fofo, nem fácil. Talvez venha daí a "má-vontade" dos parisienses. Mas tudo muda quando você faz um esforço maior para se adaptar e mostrar respeito.

Enfim, poderia continuar a escrever até fazer um livro com causos de viagens e do quanto todas elas me fizeram uma pessoa mais aberta, menos precoceituosa e mais adaptável a diferentes situações. Elas me fizeram uma melhor mãe, uma melhor amiga, uma melhor professora, uma melhor profissional.

Por isso, se eu puder dar uma sugestão para ser usada SEM moderação depois dessa pandemia é: vai viajar. Se joga, experimenta, se relacione com pessoas diferentes. O que esse vírus nos mostrou claramente é que estamos todos no mesmo barco. E quando a gente visita os aposentos dos outros nesse mesmo barco a gente fica mais empático, mais cheio das habilidades, ou como se diz em inglês: resourceful. A gente entende que a dificuldade do outro é nossa também e o que nos divide se torna muito pequenininho.





domingo, 3 de maio de 2020

Para respirar. Aliviado?

*alerta de spoiler: vou falar sobre o livro Tuesday with Morrie, ou a Última Grande Lição, de Mitch Albom.


A gente não percebe o quanto tem como certas, coisas que são efêmeras. Em tempos em que um vírus chega sem pedir licença ou avisar, que deixa humanos prostrados, com febre, tosse, dor no corpo, sem sentir o gosto, o cheiro, ou ainda respirar normalmente, o que era detalhe toma contornos dramáticos.


Respirar. Eu estou fazendo isso agora, você está fazendo, todo mundo ao nosso redor enquanto leva todas as atividades do dia nas costas, está fazendo. Respirar é muito automático. Comparada a essa atividade só a do coração batendo. Duas ações que movem todas essas máquinas humanas.
Estamos todos aqui fazendo amor, guerra, mudando de casa, escrevendo, cozinhando, sonhando, dirigindo, rindo, chorando, celebrando, brigando, lendo, discutindo, dançando, correndo, porque há respiração. Porque respiramos.


Chega, então, um vírus que afeta exatamente essa atividade para lá de automática, mas ao mesmo tempo, fundamental: o respirar. Poucas são as pessoas que passam a vida com problemas para respirar, que "puxam o ar e ele não vem", como disse uma amiga. A sensação é apavorante. Pais que tiveram a experiência de ter um filho se engasgando sabem bem o que desespero significa.

Alérgicos que se deparam com o descuido de não terem perguntado todos os ingredientes de algum prato e têm que ser levados para o hospital às pressas.

Gente que está numa cama respirando com ajuda mecânica.

Todos têm muito claro, estampado em sua frente, a preciosidade que é respirar. Mas a grande maioria passa batido e nem percebe que há um inspirar e expirar contínuo que mantém as coisas funcionando.

O vírus veio como um justiceiro para nos lembrar de que respirar é fundamental. É a base. É aquilo que não percebemos, mas que é a preciosidade máxima de uma vida. É aquilo que prestamos atenção por alguns segundos quando meditamos ou quando fazemos um exercício de yoga - quando fazemos. É aquilo que alguém diz para a gente e que funciona como mágica quando estamos em pânico: RESPIRA.

Ultimamente, motivados pelas reflexões de quarentena e do risco de morte que o vírus tem trazido para quem ainda respira, o livro Tuesdays with Morrie (1997) vem sendo relembrado por quem o leu num passado muito distante ou nem distante assim. Eu, por coincidência - se é que isso existe - o li para um trabalho de um curso de escrita em inglês. A professora, penso eu, nem imaginava o quanto visionária ela foi quando indicou esse livro para a turma em janeiro.

Mitch, o autor, é um jornalista esportivo que nunca pensou em escrever um livro de memórias. Como o mundo todo, ele se graduou e saiu para o mundo dos adultos, movendo as engrenagens do sistema trabalho, dinheiro, consumo. Então, exatamente como o tempo em que vivemos, ele foi pego pelo acaso. Na verdade, o acaso pegou seu melhor professor com uma doença sem cura: esclerose lateral amiotrófica. O que, em resumo e na própria voz de Morrie, o professor, significava que a sentença de morte foi dada e que ele morreria de asfixia. Ele pararia de respirar.

O que o livro traz é exatamente o que o vírus está trazendo para nós: um rever de tudo o que a gente entende como garantido. A possibilidade de, se ele nos infectar,  morrermos antes do que imaginávamos. E pior, de falta de ar. Ou de falta de capacidade de respirar.

E, assim como os encontros de Mitch com Morrie fizeram, estamos todos revendo o que, afinal, é realmente importante em nossas vidas. Porque se ela acabar amanhã, exatamente porque algo que nunca prestamos atenção - respirar - parou de funcionar, o que foi que fizemos com ela, a nossa respiração? Ou, que tipo de ares respiramos? Ou que ritmo de respiração tivemos? Ou que situações nos deixaram a respiração ofegante ou profunda?

A pergunta que hoje pode estar martelando em muitas cabeças é: o que tenho feito enquanto ainda respiro?



segunda-feira, 20 de abril de 2020

Para que a Terra nos deixe ficar


Este texto estilo “bloguerinha” já está planejado há quase dois anos e ficou aqui, sendo digerido, regurgitado, respirado e engolido de novo. Mas não há momento mais adequado para ele ser parido como esse de Pandemia.
As notícias dessa excepcionalidade histórica, que é um vírus virar a Terra, que foi redonda sempre, de ponta-cabeça, confirmou o que muitos de nós já sabíamos: somos o cancro do planeta.

Finalmente, a olhos nus, percebemos que a natureza se vira muito bem sem a gente, e ficou claro que somos os convidados aqui. Um mês de quarentena, enjaulando uma boa parte dos humanos (alguns ainda teimam em não se isolar) e suas atividades degradantes, nos fez testemunhas de coisas raras como pandas se reproduzindo no zoológico (não acontecia há mais de 10 anos), ninhos de passarinhos em carrosvista do Himalaia sem poluição, animais caminhando livremente no meio das cidades.
Teve gente que disse que a Terra acionou o sistema imunológico e está tentando se livrar da gente. E pode ser bem isso, a natureza se recria e muito rápido. E se a gente não aprender a lição agora, outro vírus virá e a humanidade vai acabar diminuindo gradativamente. É o que dizem os futuristas.

Nesse cenário, a gente pode perceber uma variedade de tipos de humanos. Vai desde o infeliz que caça rinoceronte raro na África se achando o dono do mundo e passa por aquele indivíduo com jatinho particular que caga para a poluição e resolve ir jantar em Paris, só porque estava a fim. Segue por outros desperdiçadores de bens naturais em indústrias e linhas de produção, passa por nós, reles mortais que compramos coisas de que não precisamos em embalagem de plástico e chega nos hippies off grid (1), que constroem suas casas autossuficientes, fazem compostagem e usam energia solar para aquecer a água e a casa. Pois bem, a gente pode perceber que para estar nos extremos dessa ordem tem que ter muito dinheiro. Por isso, a grande maioria do planeta ainda usa muitas coisas com plástico, nem sempre orgânicas porque é muito mais caro, toma refrigerante da garrafa PET e compra roupa chinesa pelo alibaba express, porque é mais barato e tem a comodidade de ser enviada pelo correio, do outro lado do mundo. Pois bem, esse comportamento só não é pior do que o do cara que vai caçar na África, mas esses ainda são poucos em números totais. A grande maioria da humanidade que produz muito lixo é da classe média e pobre. Primeiro, porque somos numerosos. Segundo, porque temos pouco ou algum dinheiro para comprar o alimento industrializado e ir na lanchonete comer um sanduíche. O grupo de pessoas realmente consciente, que mede as consequências do seu consumo mesmo sem condições financeiras é ainda tipo unicórnio. Quase não existe.

Foi nessa reflexão, muito antes de qualquer covid-19 vir chacoalhar nossas estruturas, que eu resolvi, aos poucos, pesquisar e mudar alguns hábitos meus, só meus, porque para mudar o mundo já se falava que é preciso começar pela gente. Pois bem, comecei e continuei com mudanças pequenas, mas constantes e contínuas, e algumas duram já anos. E resolvi escrever sobre isso para partilhar com você que me lê e saber suas ideias e estratégias. Uma coisa é certa: precisamos mudar nosso jeito de nos relacionarmos com a Terra, porque ela já está dando sinais de que vai se livrar da gente muito logo se não nos adaptarmos e pensarmos em comunidade, no todo.

Antes de mais nada, explico minha posição nisso tudo: eu estou bem longe de ser uma pessoa verde, vegana, que abraça árvore e planta a própria comida. Nem vegetariana sou. Estou em construção ainda para, se a Terra quiser me manter aqui, ser uma melhor companheira para ela.


Alimentação
Marido e eu (mais eu) temos um gosto bem eclético para comida, mas marido tem predileção por peixe. Eu gosto de tudo mas não faço questão de carne nenhuma. Então carne é algo que já está se tornando raro na casa. Quando a gente compra, é de produção local, sem hormônios. Na maioria dos dias comemos peixe e frutos do mar, primeiro pela proximidade da casa com o mar, segundo porque é (e isso é consciente) menos esculhambação e uso de água na produção de peixe do que de gado. A gente ainda tem que ficar atento sobre de onde esse peixe vem, se não é de uma espécie exótica que está sendo criada em fazendas marinhas e vai competir com a espécie local. Então, dá uma trabalheira, mas já virou rotina.
Todas as outras compras privilegiam produtos locais, orgânicos (quando não estão pela hora da morte) e menos industrializados. Por mais fácil que seja ir ao mercado onde há milhares de opções de todos os sabores de todas as coisas vindas de todos os lugares do mundo.
Outra coisa que fazemos: a gente cozinha, muito. Fiquei pasma de ouvir colegas daqui dizendo que, com a pandemia, nunca cozinharam tanto. Para nós, é mais do mesmo. Porque comer fora é muito caro, e nem sempre você sabe ao certo o que tem de ingrediente na sua comida, o que pode significar um monte de industrializado.

Higiene pessoal e limpeza

Depois de saber sobre uma ilha flutuante que existe formada pelo plástico/lixo que é jogado no mar por anos, eu comecei a buscar alternativas para todos os plásticos de uso único, como sacola de mercado, os de shampoo, desodorantes, pasta e escova de dentes e potes de produtos de limpeza.
Assim, faz mais de 2 anos que uso shampoo sólido para o cabelo. É como se você estivesse usando o sabão de coco que as avós usavam, mas com requintes de outras essências e outros ingredientes naturais. Há também o condicionador em barra que dura mais de 8 meses para mim porque preciso de um pouquinho só.
Eu até já sei o que você vai falar: ah, mas e o cabelo como fica? O cabelo fica limpo, solto e com volume. No meu caso, é claro. Sugiro que você tome o tempo para testar diferentes shampoos sólidos até achar o que agrada. Leva tempo. Eu uso de alecrim e vario com o de laranja, que são os dois que funcionaram para mim. Comprei de diferentes marcas e prefiro de uma que vende as barras mais barato quando não são tão perfeitas no formato. É pequeno, não faz lambança e dura uma eternidade. Quando acaba, acaba. Sem plástico para jogar fora ou reciclar.
Shampoo, condicionador e sabonente para o rosto

Sabonente artesanal, local



A surpresa foi quando encontrei com a amiga Adriana em um congresso na Costa-Rica em 2018 e vimos que fazíamos o mesmo. Ela tinha shampoo sólido na latinha reutilizada e outra com o sabonete. Ela me contou que quando viaja não precisa despachar a bagagem por não carregar líquidos e leva roupas que não sejam amassáveis e se combinem entre si com vários looks. Resumindo, viaja leve, e isso significa também que o avião está usando menos combustível.
Além disso, trocamos figurinhas sobre depilação. Eu uso uma maquininha de arrancar o pelo e ela um suporte de gilete de metal em que se é possível trocar a lámina. Dessa forma, não há plástico, ou no meu caso, o plástico não é de uso único, serve para durar uma vida.


O kit da Adri: pequeno, sem líquidos, sem plástico.


O que eu percebi com essa avaliação é que não preciso dos quilos de cremes de cabelo, cremes de pontas, leave-in e assemelhados que entopem as prateleiras de banheiro. Boa parte desses produtos usam uma máxima que ensinamos no marketing: criam necessidade para vender mais.

Avalie se você realmente precisa de tudo isso que usa e se pode fazer um esforço de se adaptar com produtos que usem menos recursos para serem produzidos.


Pó para escovar os dentes.

O pote não vaza, mas o com carvão ativado marca a pia do banheiro.


Isso se aplica a desodorante (encontrei um com embalagem de papelão), a sabão para lavar roupa (o em pó na caixa de papelão ainda é melhor do que os que existem aqui nos EUA, que são uma infinidade de jarros de plástico), e a escova de dente (há as de madeira). O desafio pode ser achar uma pasta de dente que esteja em embalagem que não seja de plástico.


Desodorante sem plástico e vegan

Uma barra de ingredientes naturebas que dura uma infinidade.

Achei aqui em formato de pó, naturais (bicarbonato de sódio com outras essências), que vêm em um potinho de papelão. Mas o que tem carvão ativado é preto e faz uma zona na pia do banheiro. Nesse quesito, ainda procuro algo que seja com menos plástico e que não faça uma zona. Talvez a versão sem o carvão.


Copinho de menstruação
Eu fui apresentada ao copinho menstrual há muito mais de 10 anos, quando dava aula de redação publicitária para o curso de administração e fizemos um trabalho de criar campanhas de alguns produtos. Uma aluna veio com uma calça branca e apresentou o copinho de silicone. Fiquei muito surpresa. Uns dois meses mais tarde eu comprei o meu copinho e depois de uns 4 períodos menstruais brigando com o dito, eu contatei o pessoal que o fabricava. Pediram para eu insistir um pouco mais. No período seguinte, finalmente consegui que nada vazasse. Uso o mesmo copinho até hoje e nunca imaginei algo mais confortável e seco para esses dias. Mas o que me motiva mesmo é pensar na quantidade de absorventes que eu não usei e não foram parar em um aterro sanitário.


fonte da imagem: https://www.magazineluiza.com.br/copo-coletor-menstrual-de-silicone-ekological/p/jg1k1hj5dg/cp/cmen/


Carro
Quando eu morava no Brasil e o filho tinha crescido o suficiente, vendi o carro e decidi que iria andar de ônibus. Falei com os meus pais que viviam perto da minha casa que, quando precisasse, usaria o carro deles (havia dois) e contribuiria para o combustível ou manutenção. O choque foi imenso na rotina e na aceitação dessa decisão por outras pessoas. Aprendi a pedir caronas, a andar de táxi e mais tarde de uber. Tentei de bicicleta, mas tive algumas experiências não muito boas que me deixaram com medo.
É uma mudança de lógica necessária: morar perto do trabalho, trabalhar em casa, morar perto da escola das crianças ou que tenha transporte público fácil são escolhas que, quando podem ser feitas, devem levar em conta a poluição, tempo no trânsito entre outros.
Aqui nos EUA sou outro E.T. Maine não tem transporte público, é privado e muito raro. Todo mundo precisa de carro para tudo e é normal que cada um tenha o seu porque, enfim, em uma cultura individualista como essa, pedir carona ou sugerir que alguém desvie o trajeto é muito ofensivo. Você precisa ser independente, sempre. Então, desde que cheguei aqui coloquei como uma das nossas prioridades ter um carro somente, menos poluente (temos um Prius híbrido que, piada, faz de 0 a 60 em 3 dias…) e pequeno (o que é desafiador com a neve). E dá-lhe negociação para quando um precisa e o outro também, mas até hoje temos conseguido um levar o outro, se virar de outras formas, caminhar, usar a bicicleta e pedir caronas. Importa dizer que é um esforço de todos os dias, porque a tendência de buscar o mais cômodo é muito grande.

Reciclagem de resíduos
Reciclagem aqui não é obrigatória como em alguns países da Europa. Lembro da Ana contar que, na Bélgica, se você coloca lixo errado no saco errado eles devolvem para a tua casa.
Morar no país que mais usa recursos naturais, mais produz lixo e ainda assim não tem uma política adequada de reciclagem é bem dolorido. Então, o que você faz? Faz sua parte. Há reciclagem na sua cidade, então você separa e recicla.
Na casa que dividimos com outros residentes não havia reciclagem. Trouxemos uma caixa plástica nossa, buscamos na prefeitura o adesivo de reciclagem e colocamos na caixa. Nos quase 4 meses aqui, conseguimos fazer todo mundo se adaptar e colocar o lixo seco (plástico, papelão, vidro, lata, papel) na caixa lá fora toda terça-feira. Eu tenho hoje uma ideia do que deixou de ir para o aterro ou incinerador nesse tempo. E é isso que me motiva.




Roupa do Brechó e móveis

Eu sempre tive esse preconceito herdado de comprar roupa usada. Aqui, depois de gastar somente 30 dólares em 4 calças, 5 camisas sociais e 3 pares de sapatos, todos em perfeito estado, acabou-se o preconceito. No mesmo lugar onde eu doava as roupas que não usava mais, comprei as que eu precisava. Não tem maneira mais perfeita de dar significado amplo ao reusar, reciclar.
Já em relação aos móveis eu sempre tive uma atração especial pelos antigos e usados. Para mim, eles têm mais qualidade do que os novos que são criados com as obsolescências programadas. Assim, aqui o processo é o mesmo, se não for de doação mesmo porque galera não está usando, a gente compra usado. É barato, e é menos coisas no lixo.


Livro (e-book e usado)
Esse é um costume já desde quando eu cursava o mestrado quando não encontrava os livros pedidos em editoras ou lojas. Virei cliente de carteirinha da Estante Virtual e pouco tempo depois perdi até o pudor/vergonha de presentar com livros usados. É a mesma coisa.
Já em relação ao e-book eu tenho uma relação de ódio e amor. Assim como é lindo carregar o livro no meu computador ou no kindle pra onde for, quando se trata de pesquisa a coisa fica mais complicada. Porque ao fichar o livro você quer folhear, ir e vir, e aí esse formato complica. Mas se é para literatura, é a melhor coisa do planeta. Gigantescos volumes cabem na palma da mão e podem me acompanhar para onde eu for. Vida mais leve. Enfim, tudo para diminuir os rastros que deixamos.

Desafio das novas gerações

Assim como minha mãe se sente desafiada por esses novos costumes para esticar a nossa estada na Terra, e eu tento me adaptar a despeito de tudo que é ofertado ao meu redor, o meu filho, a nova geração, me desafia ainda mais. Ele me lembra que o próximo passo é pensar na pegada de carbono que meu consumo vai deixando na Terra. Isso significa mandar menos cartas ou impressos, comprar local e verduras/frutas da temporada ou de mais perto do que de longe, viajar menos, usar menos o carro.
Já é possível comprarcréditos de carbono, o que significa que você pode levar a vida exatamente do jeito que você leva mas, para tirar a grande culpa de estar entupindo a Terra de pegadas, você envia dinheiro para uma empresa que planta um sem número de árvores para compensar essa sujeirada que você/eu provocamos com o nosso consumo. Na minha visão, isso parece limpar bem a sala e colocar todos os entulhos no quarto.

Não há fórmula decente, adequada, mas há um aviso. A Terra precisa respirar e ela poderá provocar o enjaulamento do ser humano de novo se a gente não entender que já passou da hora de reavaliarmos nosso costume, conforto e modelo altamente exploratório e extrativista de viver.





[1] Nome em inglês que não tem uma boa tradução para o português, mas chama-se de off grid um jeito de viver que é considerado fora do sistema.