quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Hi Lily!!!

Lily chegou ontem e eu passei o dia tentando entender quando foi que comecei a derreter de amor. É claro que quem já é avó tenta explicar. Mas não tem explicação. Tem só uma avalanche de sentimentos. Imagino que seja algo como usar drogas. Isso. Eu passei o dia num torpor, como se eu estivesse em outra dimensão.
Os mais céticos vão falar: mas você já não sabia que ia vir um bebê? Sabia.
Mas esse bebê não tinha nome. Os pais decidiram que contariam a escolha só quando ela nascesse. Eu entendi o motivo e respeitei. Mas eu tinha que me referir a minha neta de algum jeito.

Então a nora, com aqueles aplicativos de grávida, ia acompanhando o crescimento do bebê. E eu chamando ela de figo da vovó (pq ela estava do tamanho de figo), de brownie da vovó, de manga da vovó, até que chegou na Chinchila. Ok, não tem nome, eu arranjo um: chinchilinha. E ela foi sendo chamada de chinchilinha da vovó até ficar de um tamanho de uma melancia, ao ponto que o filho falava que era a melancia e atrás dela vinha a nora.
A distância não ajuda nessas horas. A gente aqui nesse frio do Maine e eles no calor constante do Panamá. Perdi as contas das vezes que gritei com o marido dizendo: não é justo!
Mas a Deusa sabe o que faz. Do jeito italianado que sou, eu não ia dar sossego para eles.
É tudo muito diferente!
Longe de qualquer família, eles foram construindo o que sabiam de gravidez pelas leituras no google. Tão diferente dos falatórios familiares em que cada um dá palpite, tem uma história da vizinha de quando o nenê estava virado e teve que desvirar, ou as receitas para azia ou enjôo daquela prima. De vez em quando eu lembrava de alguma coisa e mandava uma mensagem.
- mãe, já conversamos sobre isso. Decidimos que vamos comprar tudo usado, não tem porque ficar gastando com coisa nova.
- Está certo.
A nora tinha feito uma tabela. Boa que é no excel, tinha listas e mais listas de marcas, de nomes, e de produtos que iriam precisar. Global, marcas de vários países. Tudo, sem conselho algum dos mais experientes...
Teve um dia que, no facetime para a gente dar oi para a barriga, eu falei 30 minutos com a nora no telefone. A glória! Calma que só ela, foi me ouvindo e dando resposta para tudo. Na verdade nem tão calma assim. Quando os exames periódicos mostravam que tamanho a nenê ia ficando, a nora se arrepiava.
- Ela vai ter que sair de algum jeito...

A última vez que tentei dar um pitaco meio assim, sem jeito, encaminhando um artigo sobre a manobra de Heimlich pro filho, tive que ouvir:
- mãe a gente fez curso, lembra?
- Tá, mas não sabia que você tinha aprendido isso, né?
- É básico, mãe.
- Tá.

Enfim, praticamente cega, surda e muda nessa lonjura, a ansiedade só aumentava. Porque no fundo a gente cria os filhos com todo o carinho, com todo amor, mas não confia. Morre de medo que vão fazer cagada, se machucar, fazer uma escolha de nome para neta toda errada. Daí lembrei de uma única vez que o filho bebê, se sufocou com um pedaço de pão. Pai dele arrancou do carrinho, virou de ponta cabeça e voilá: pão voando e bebê respirando. Sem curso de Heimlich, nem nada. E ele está aí, andando, trabalhando em outro país e fazendo neta para mim. É para confiar, não é? Não, lá no fundo você ainda acha que tem que meter os bedelhos.

Nos últimos dias, morrendo de ansiedade para saber se a neta vinha ou não vinha, comecei a puxar assunto com o filho sobre qualquer outra coisa. Eu sabia que ele ia gritar comigo se eu ficasse perguntando da nenê todos os dias. Então, para mim, lá no fundo, eu imaginava: se ele não responder, é porque tem parto acontecendo. Daí ele demorava, vinha e respondia a coisa randômica. E eu ficava roendo as unhas porque não teve parto.
Tinha monitoramento com o médico praticamente diário na última semana, mas eu ficava sabendo de um de outro e olha lá.
Coração se corroendo muito de medo que algo desse errado. Que a nora sofresse. Que fosse traumático. Pedi para a Nossa Senhora do Bom Parto para olhar por eles. Marido me acordava no meio da noite a qualquer barulhinho do celular:
- É a bebê?
-Não, é a previsão do tempo...

Não me lembro de ter ficado nem 10% desse jeito quando pari o filho.
Então, a lua ia mudar nessa terça e passei o dia pensando: agora vai.
Abandonei a tática do assunto randômico e perguntei:
- Chinchilinha viu que a lua mudava hoje?
-...
MUDO. NÃO RESPOSTA.
Gente, só podia. No primeiro tremelique do telefone, mais de 4 horas depois da pergunta:
- Viu. Parabéns vovó! :)

Aí eram dois avós bobos de pijama no meio da sala chorando e se abraçando.
Sim, ela sempre esteve ali na barriga, no quentinho. Mas saber que ela fez a entrada para esse mundo, e respirou, e está viva, é inexplicável. Ela era real. Ela existia.

Um pouco mais tarde a mensagem da mãe:
- Lily Bona nasceu no dia 19/11/19 às 19h22, com 3,4 kg e 49 centímetros. É super calma, já mamou e está dormindo.

Lily. Lily. Lily.


Não tinha nome mais simples. Mais fácil. Mais leve. Mais tranquilo para ser falado e soletrado nas 4 línguas a que ela vai ser exposta na tenra idade.
Lily.

Lily não era somente bonito, era brilhante.
Eu não conheço nenhuma Lily, o que faz a minha neta ser mais exclusiva ainda no meu mundo.
 E, de repente, como uma bigorna que caiu na minha cabeça, eu entendi que eles sabiam o que estavam fazendo, e estavam fazendo com cuidado. De repente eu entendi que filho e nora não eram mais adolescentes. Eram adultos, fazendo escolhas ponderadas e capazes de discernir e de cuidar de outra vida, mesmo longe de mim. De repente eu entendi que o milagre estava acontecendo de novo e que tudo acontece no seu tempo e de um jeito mágico e que a gente não controla porra nenhuma dessa vida. Passei o dia assim. Tentando digerir que aquele menininho com a cara toda suja de chocolate, sentado na cadeira de comer era, agora, pai. Um pai que ainda sente tudo muito à flor da pele e chora. Pelo menos em uma coisa ele concordou comigo:
- eu disse a você que tudo ia mudar quando ela nascesse.
- sim! É mágico, mãe! É de uma hora pra outra.
- Você agora sabe que é capaz de matar por essa coisinha que está nos seus braços, não é?
- Sem dúvida.

E é aí que as gerações se encontram. No final das contas, a ciência muda, os jeitos de fazer, de cuidar, mudam, mas aquela empatia que liga as gerações por esse fio condutor comum que é essa coisa maluca de sentir-se responsável por outra vida, é sempre a mesma.
Agora eu entendo a minha mãe. E é bem possível que agora ela entenda a mãe dela.
Mas nada melhor que essa irmandade que a gente divide entre amigas. Uma, já avó, me aconselhava:
- Só sente, minha irmã, só se deixa levar... É mágico.
A outra, nem perto de ser vó mas com um coração maior que ela mesma:
-  Tô numa audiência morrendo de vontade de chorar. E NÃO POSSO.
A outra:
- Estou me sentindo tia-avó! Que lindo!
A mais poética de todas:
- Que força de nome. Lembrei de Gal. Olha:

Percebi que sabia a música de cor e salteado. Fui pesquisar.
A original é de um filme-musical de 1953. Conta a história de uma menina francesa (igual mãe de Lily) que está perdida e é adotada por um circo. Ela acaba criando um número em que fala com as marionetes e o moço que as manipula só consegue falar dos sentimentos dele por ela, a partir dos bonecos.



Bem, como uma avó normal eu já comprei o filme, já ouvi todas as versões cantadas por diferentes celebridades, já votei para mim mesma que a letra em português (adaptada por Haroldo Barbosa) é mais feliz que a em inglês, criada originalmente pro filme Lili e composta por Bronislaw Kaper e Helen Deutsch. A trilha ganhou o Oscar e o filme ainda teve mais 6 nominações ao prêmio. Na gravação de Neide Fraga, a valsa é evidente. 

E foi assim que passei meu primeiro dia de avó: chorando vez sim, vez não, imaginando minha neta Lily dançando essa valsa flutuando feliz na sala da casa dela,  e tendo a certeza que meu pai, biso da Lily, é o protetor dela e está ali, zelando por ela e sorrindo feliz para a bisneta que habita essa Terra.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

O direito de sentir (não é título novela mexicana...)



Handkerchief






Ontem eu tive uma discussão séria com o marido. Ambos sob pressão e os ânimos não estavam os mais diplomáticos. Falava para ele que em tempos incertos é importante proteger a energia da gente. Sei que é "easier said than done" (mais fácil falar...), mas eu estava querendo que ele prestasse um pouco mais de atenção à energia dele, tirando um tempo para meditar ou só imaginar, assim como estou fazendo todas as manhãs.
Grosseiro e na defensiva ele diz:
- se tem que proteger é porque você está vendo perigo em toda a parte. Eu não vejo nenhum perigo ou ameaça.
Tentei explicar que não estava "vendo coisas", mas que era bom pensarmos em ter equilíbrio em tempos como os nossos em que tanto na esfera pessoal quanto global o que só temos são perguntas e instabilidade.
 - Então você está se sentindo insegura?
A palavra é um pedido para levantar o tom de voz. Senti o sangue subir, e estava me preparando para um sermão sobre patriarcado e as táticas de esterotipar as mulheres. Eu senti que ia exagerar. Senti que eu ia errar a mão. Ele já tinha levantado o tom de voz um pouco antes e eu tinha me mantindo no meu salto, linda. Não ia despencar agora. Meu pai sempre dizia que "o maior imperador é o imperador de si mesmo" (ele me dizia em latim) e eu estou focada em fazer dessa expressão o meu mantra pra maturidade.
- Sabe, o que eu acho? Que não vai adiantar nada essa conversa. Você está focado em ter razão de qualquer jeito e eu não estou conseguindo me comunicar (tática de terapia: nunca diga que eles não ouvem, diga que você não está conseguindo se comunicar, seja quem for o interlocutor. As garras se abaixam na hora).Vou dormir.
Claro que tive uma noite bosta. Claro que eu estava puta. Mas a beleza dos 40 é que você acolhe o sentimento ruim, conversa com ele e decide onde colocar sua energia. E eu decidi levantar às 5 e ir meditar porque raiva provoca rugas. E, Deus me livre, né?
Eu sei e sinto que estamos todos com os nervos à flor da pele por vários motivos que nem sempre dependem da gente. E sei que é a coisa mais difícil conseguir evitar colocar os pés pelas mãos em situações assim.
Passei o dia pensando o quanto é difícil SENTIR nessa cultura daqui, cheia do individual, racional, focada em resultado e em não mostrar vulnerabilidades. É mais fácil um diagnóstico médico, uma pílula, uma cirurgia, um tratamento químico do que lidar com o trauma, com a coisa lá que machuca e está enterrada dentro do peito.
Tenho uma amiga aqui que está com problemas sérios de saúde. E depois dos mil anos de terapia eu até desconfio que tipo de sentimentos andam a rondando para acabarem com o corpo dela desse jeito. Mas não tenho como explicar. Ela não sabia o que era Reiki. Achou que eu estava mandando ela para a acupuntura porque eu imaginava que podia ser estresse.  Não é à toa que os laboratórios ganham rios de dinheiro aqui. Não é só o lobby, é uma cultura de determinar, colocar etiquetas, nomear, padronizar, definir que resolveu e pronto. E assim, não se resolve nada.
Vim para a loja trabalhar. Cansada, com um pouco da ressaca emocional, tentando lidar com as minhas ansiedades, dúvidas e monstros. Estava na dúvida sobre que horas fechar a loja porque a cidade foi se acalmando no final da tarde.
Olhei o Facebook e me chamou a atenção a postagem de uma amiga sobre como deixar os filhos chorarem é parte do processo de aceitação e administração das emoções. Lembrei que nunca pedi pro meu filho parar de chorar. Eu dizia para ele ir ao quarto e lidar com os sentimentos, fosse de raiva ou tristeza, que quando estivesse pronto podíamos conversar.
Fiquei pensando o quanto desconcerta a galera aqui ver você chorando. Não sabem lidar. Não sabem acolher a dor e lidar com ela.
Enquanto eu estava emimesmada (existe essa palavra?) na loja, entrou uma senhora e pediu por lenços. Há uma diferença no vocabulário aqui. Lenço de papel é tissue. Lenço de pano é handkerchief.
Coisa rara nos dias atuais, os lenços de pano, a gente tem aqui na loja.
Falei que tinha, sim, depois de levar um tempo para sair dos meus pensamentos.
Ela ficou super feliz.
Foi lá e pegou dois pacotes com 3 lenços cada e veio super feliz para o caixa.
Enquanto eu lia os códigos de barra, tivemos uma pequena conversa, como sempre acontece.
Ela me diz:
-Sabe, isso vai fazer uma grande diferença hoje.
- Sério? Que bom, fico feliz.
- Sim, quando minha mãe faleceu, uma das minhas amigas me mandou um lenço desses dizendo: você tem permissão para fazer o luto. E sabe, aquilo foi um aviso concreto de que eu podia sentir, eu tinha o direito de estar triste, de chorar, porque você nunca sabe quando aquele sentimento te pega, né...
- Ah, sei sim, eu perdi meu pai em abril e entendo perfeitamente.
- Então agora, quando sei que alguém está de luto (grieving, é uma ação em inglês, como se você estivesse "lutoando", o mesmo que estar sofrendo a perda de alguém), eu entrego um lenço para eles e digo que eles têm o direito de sofrer.
- Que bonito isso! Que afetivo!, respondi impressionada com a gentileza da senhora.
Fiquei pensando em como, numa cultura racional assim, esses tipos de "carinhos" são tão importantes.
- Que cor você mais gosta, ela pergunta enquanto eu virava para pegar o cartão dela da máquina. Respondo de costas:
-ah, gosto de todas, mas estou numa fase de lilás...
Quando virei novamente pro balcão, ela tinha aberto um dos pacotes e tirado o lenço lilás dali de dentro e me oferecia.
- Toma. Você tem o direito de chorar, viu?
Apertou a minha mão, disse que eu ia ficar bem e foi embora.
Chorei, né.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Essas diferenças culturais, mano...

Eu ia fazer um disclosure (aviso de possível cagada interpretativa à frente) aqui para começar a conversa já pondo que sim, esse texto vai ser enviesado e pode parecer tendencioso por um único e exclusivo motivo: é a minha experiência, com a minha bagagem e minha opinião embutida. Então, plis, NÃO GENERALIZA.

Pois bem, aqui nesse paraíso-fim-de-mundo que se chama Bar Harbor, eu trabalho num Bed and Breakfast - diga-se pousada estilo casa da vó - e numa loja de coisinhas, decorações e presentes que se entitula Fair Trade. Significa que todo o processo de produção e venda dos objetos passa por uma auditoria que garante salários decentes para os artesãos e suas famílias, estimulando comunidades longínquas que produzem coisas muito bacanas, bonitas e criativas.

Galera entra na loja e fica maravilhada com as possibilidades que existem, em como as pessoas são criativas, meu senhor, e outros comentários. Aqui tem cesta feita com fios de linha telefônica que vem da África, tem uns quadros de metal lindíssimos feitos por haitianos que reciclam aqueles tambores gigantes de óleo, tem cartões feitos com minúsculas dobras de papel multicolorido pelo pessoal do Vietnã.
Árvore da vida feita à martelada em tambores de óleo por haitianos.


É muito legal trabalhar aqui pelo conceito que envolve cada uma das peças (Há um ser humano do outro lado dos oceanos que gastou o tempo e habilidade para fazer!) e faço questão de comunicar isso. Então quando um americano desavisado vem de boca aberta perguntar:

- Como a pessoa foi criar essa peça? Que sacada mais inteligente! Impressionante como alguém pensou nisso!!!
Eu respondo:
- Necessidade. Quando você precisa comer no outro dia e não tem ideia de onde vai tirar dinheiro para isso você se torna muito criativo. Você se vira, inventa, faz algo para sobreviver.
E aí eu jogo um balde de realidade na pessoa que sempre teve tudo a disposição, nunca passou frio ou calor, muito menos fome. Uns fecham a cara, pensando. Outros se incomodam e mudam de assunto. Mas pensam também. Pensam, nem que seja por alguns segundos, no privilégio que têm de nunca ter tido que enfrentar as dificuldades que essas pessoas que fazem essas coisas lindas enfrentam.
Cestinhas feitas de fios de telefone.


E aí vem meu juízo de valor (sim, vou julgar, é minha opinião, que não tem nada de científico).
Uma sociedade que tem absolutamente tudo, que resolve todos os problemas num passe de mágica, de maneira barata ou super acessível acaba por não exercitar a criatividade. Ao mesmo tempo que muitos americanos inventam soluções fantásticas para resolver problemas em qualquer lugar do mundo, a grande maioria que nunca saiu do país ou nunca passou necessidades não têm muita ideia do que acontece fora e vive na bolha que o sistema midático oferece. No conforto do sofá e do ar condicionado de casa. A pessoa não tem a prática de solucionar problemas diários sem estar dentro de um padrão pré-determinado. A grande maioria vive um script muito bem planejado. Tem que ter ar condicionado, tem que ter aquecimento, tem que ter determinada roupa ou comida. Tem que ter carro. E tem que ter cartão de aniversário. Mas tem que ser de aniversário, não outro, porque é um aniversário. Assim, não há a mínima possibilidade de se ter um cartão em branco, por exemplo, para se escrever uma mensagem de aniversário. Tem que ser com tema de aniversário e mensagem de aniversário (lembra o script?)
Cartão de quilling.



Aconteceu agora a pouco.
Duas senhoras entram na loja. E eu com cólica, não nos meus melhores dias, já tendo visto essa história antes.

- Você sabe onde posso encontrar um cartão de aniversário?
Eu tenho, na loja, uma parede inteira de cartões lindíssimos de quilling (os mini papeis dobrados coloridos) que você pode transformar em quadro, em cartão de núpcias, de boa viagem, de super formatura, feliz casamento, e feliz aniversário!!! mas eu sabia que não adiantaria dar a ideia SUPER CRIATIVA de usarem aqueles cartões lindos como de aniversário.
qualquer um desses cartões poderia ser de aniversário. É só escrever Feliz Aniversário, né?


- Tenho alguns cartões aqui de aniversário (tinha uns 3 específicos) e outros que são lindíssimos...

-...mas é um aniversário!!!
(segurei meus palavrões em português)

- sim, eu tenho alguns de aniversário, com mensagem de aniversário e figuras que falam de aniversário.

Mostrei as 3 opções para elas. Escolheram a baleia fofa que diz: "Feliz Aniversário" com o esguicho de água da baleia.
:/
- Mas aqui tem baleia?, uma pergunta pra outra.
- Tem puffins, responde a outra.
- O que é um puffin?
Eu, sem paciência (que novidade) interfiro:
- Tem baleia, sim, tem barco que sai no mar para ver as baleias e os puffins você vai ver só em maio ou junho. Não é mais a época em que eles estão aqui.
- Mas o que é um puffin?
- um tipo de um pinguim com bico laranja (para fechar a conversa).
- Ah, tá.

 Uma olha para outra, de novo.
- Vamos levar a baleia?
-Vamos sim, daí a gente divide o custo.

Gente, 6 trumps. Seis dólares aqui é tipo seis reais, sabe? Não faça a conversão. Galera ganha em dólar aqui, sabe? E elas vão dividir os custos!
Uma pediu para eu trocar a nota de cinco por cinco de um dólar...

- São 6,36 com o imposto.
- Ah, você paga os 0,36 porque você comeu um camarão a mais no almoço.

What????

E foi assim mesmo. Uma pagou três dólares dos trocados que dei para ela da nota de cinco que ela pediu para trocar por cinco de um, e a outra pagou 3,36, porque comeu um camarão a mais no almoço, minha gente!

É disso que eu falo. A pessoa não consegue transformar um cartão genérico em cartão de aniversário porque nunca, nunca nem passou perto de alguém que tem um pacote de feijão para alimentar seis pessoas uma semana toda. Não tem ideia do que é colocar água no leite para fazer render. Não tem ideia do que é ir pedir um copo de farinha no vizinho para fazer um mingau pra várias barrigas roncando de fome.
A pessoa não teve um governo que congelou preço, daí outro que veio e tirou o dinheiro suado e economizado da poupança. Eles não têm ideia do que é ficar tenso/atento o tempo todo para ficar vivo e ter que usar a criatividade para sobreviver, a cada dia.

E daí quando é para desembolsar incríveis 6 trumps, contam os centavos. Porque, né? Tem que se apegar aos detalhes, porque talvez não há problema de real envergadura na vida. Detalhes. Há quem fique irritado quando se diz que são white people's problems. Ou first world problems. Porque né? Às vezes dá até vergonha de ter que ir mostrar o cartão de aniversário com mensagem de aniversário e desenho de aniversário porque é só assim que pode ser.

Bem que me disseram que o diabo mora nos detalhes.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

A mulher desiludida da Simone. Ou destruída. Ou em pedaços.



Foi no ano passado. Eu estava determinada a ir para Nova Iorque, depois do congresso da IAMCR no Oregon, para assistir o U2. Mexi pauzinhos, fiz os cálculos e a vida, essa gargalhenta louca, fez a parte dela. Resumindo, nos juntamos de três lugares diferentes eu, marido e filho. Eu, voltando do congresso, marido indo pra encontrar, e filho a trabalho. Todo mundo pra ver U2. Não podia pedir por mais bençãos.
Louca viagem, que me deu o show, um jantar memorável com a minha mini-família, uma manhã nos estúdios da Fox News (como o marido disse, eu estava na barriga da besta, bleh) e um livro. Sim, mais um.
Ficamos num hostel absolutamente doido. Paredes pintadas com milhares de desenhos. Tinha uma árvore com uma cobra pendurada no teto, em cima da cama - e um livro da Simone de Beauvoir na cabeceira.
Parecia que foi deixado ali para eu ler. Algo que o anjo da guarda diz: ela precisa ler esse, vou "sem querer", largar ali.
Pedi permissão para o pessoal do hostel para levar comigo e como acontece em todo hostel a resposta foi: go for it.
Pois bem, mais de ano depois eu terminei de ler esse sofrimento. A pessoa aqui não gosta de deixar livro algum sem ler. Se começo, acabo. Mas gente do meu céu: nunca me arrastei tanto para ler algo. Claro que primeiro tinha a questã da língua: foi escrito em francês e traduzido pro inglês. Uma latina lendo tradução pra uma língua algo-saxã não é lá muito prazeroso, mas como era o que tinha, transformemos em aprendizado.
Foi ali que topei com o termo Shrew e descobri que inglês também tem todos os machismos que colecionamos nas línguas latinas.

Mas o pior foi realmente repassar a história de três mulheres literariamente se despedaçando. Não, elas não se cortaram de verdade, mas as estórias dessas mulheres fictícias que tinham em torno de 40 a 50 anos são tão reais que me trouxeram arrepios e uma dificuldade imensa de continuar a ler. Que sofrimento sem fim!
E já admito: estamos em uma época não muito feliz para mulheres visto toda a reviravolta conservadora mundial que insiste em controlar nossos corpos e mentes. Claro que, face a isso tudo, estou para lá de sensível. Então eu gatinhei, me arrastei, me empurrei para terminar esse livro. Cada página trazia uma pontada diferente, primeiro porque eu sofria por empatia, segundo porque me vi em algumas das cenas (passado, que deixe-se claro) e terceiro porque dava para sentir a pulsação dessas mulheres com a narrativa detalhada das suas crises interiores. Me peguei até conversando com a terceira personagem, dizendo um gigantesco: manda tudo se foder!!
A grande questão que remôo agora é: que diacho meu anjo queria me dizer deixando esse livro ali, ao meu léu, se oferecendo para mim?
Como otimista inveterada que sou, vou escolher entender que essas caminhadas que finalmente terminei de ler não fazem e nem farão pate da minha vida. Que aprendi. Que alguns acontecimentos fizeram parte do passado e que uma mulher cheia das ilusões e esperança mora em mim e vai continuar assim até ter que dançar com meu andador aos noventa e lá vai bolinha na vila de maioridade em que vou morar. Quem sabe dizer, não é? Eu digo: eu sei, porque sou eu que decido. :)

sábado, 7 de setembro de 2019

As tempestades da vida



O silêncio lá fora é pesado. Boa parte das pessoas dorme e é como se tudo estivesse flutuando no ar com medo de tocar-se. Em suspenso. Talvez esteja começando a chover, bem de leve, de pouquinho.
Informação não falta nessas horas. Americanos são muito bons em previsão do tempo, parte porque há diferentes fenômenos da natureza que se mostram muito perigosos no país todo, desde tornados e furacões até tempestades de neve que trazem risco de morte para muita gente e outra parte é porque (minha opinião) a cultura local leva a uma histeria em que se busca proteção e segurança a todo custo. Controle. O norte-americano precisa ter controle das variabilidades para poder se planejar. Ele controla os minutos, as distâncias, o trânsito, os diagnósticos. Surpresas ou tudo que sai do script são recebidos sempre com reação desproporcional em comparação com os latino-americanos. Americanos são capazes de planejar uma viagem com dois anos de antecedência. Coisa impensável para os latinos. Mas essa é uma conversa para outro momento. O que importa saber é que numa sociedade do controle, previsão meteorológica é feita por minutos, têm radar que acompanha as nuvens e você acaba sabendo exatamente a que horas a parte pior da chuva vai acontecer.
A partir desse contexto, o silêncio lá fora fazia com que pudéssemos ouvir o coração das pessoas. Todas sabiam que, de alguma forma, seu dia seria afetado por algo que não tinham planejado. E parecia que as respirações estavam sendo cuidadosamente calculadas.
os barquinhos de Northeast Harbor
Essa manhã de expectativa, num dos destinos de férias mais desejados do país, me fez lembrar do ano passado, quando precisei dirigir para Boston para votar. Eu tentava impedir uma “tempestade” socio-política sem precedentes – que já se mostrou horrível – no Brasil, mas ia enfrentar a chamada Nor’easter no meio do caminho. A Nor’easter é uma tempestade-ciclone que se forma na costa leste dos EUA. As pessoas avisavam a desavisada latina que era para ter todo o cuidado do mundo nas 5 horas de boleia.
Uma calma quase entediante
Na saída da ilha, depois de deixar a cã no hotel, o caminho se deu por Northeast Harbor, um dos vilarejos da ilha que concentra ricos discretos como a maioria dos seus moradores,  e visualizei os barquinhos todos pintando de diversas cores o mar azul. O sol fazia boa parte deles brilhar junto com a água do mar. Tudo calmo. Tudo no seu devido lugar. Tudo organizado e como deveria ser. Tudo entendiantemente perfeito.
Na passagem, fiquei pensando em como seria quando o Nor’easter  passasse por ali. O que o vento e a chuva forte fariam com os barcos e como os seus proprietários ou cuidadores estariam se preparando para que os riscos de desastres fossem minimizados. Não se controla uma tempestade. Mas o ser humano já aprendeu a minimizar os riscos e perdas possíveis. Ainda assim, uma boa parcela do que é a tempestade ou de como ela vai afetar a vida das pessoas e das coisas é desconhecida.
Horas mais tarde eu tinha esquecido dos barquinhos. Estava dirigindo um carro relativamente leve no meio da Nor’easter. A calma se foi. Na highway de 4 pistas, eu precisava focar em segurar bem o volante e devia ficar atenta para as rajadas de vento que faziam o carro balançar na pista, invadindo a dos outros carros. Cuidado redobrado eu tinha que ter com a aquaplanagem também já que a chuva e o vento se concentrava em partes da tempestade.
No começo de setembro o furacão Dorian se formou no Atlântico e está subindo a costa leste dos Estados Unidos, e pela primeira vez em que estou morando no Maine, algo dessa magnitude iria chegar por essas bandas. Classificado como de categoria 5 numa gradação que vai de 1 a 5, Dorian foi nomeado como o segundo mais violento furacão da história. O fenômeno se formou no mar e foi caminhando em direção ao norte. É claro que os efeitos esperados no Maine nem se comparam aos que aconteceram nas Bahamas onde aconteceu a “direct fall”, que é quando um fenômeno desses, que está no ar, encosta no chão. Vendo as entrevistas na TV sobre as preparações dos estados da Flórida e arredores as pessoas repetiam freneticamente que o único medo era um direct fall. Eles são experientes em furacões. Já aqui em cima, no nordeste, raramente um fenômeno desses tem energia para chegar. Mas Dorian, depois de espalhar destruição nas Bahamas, acabou lambendo a costa leste americana e teve fôlego para subir. Segundo as informações do sistema metereológico, vamos acabar sentindo alguns efeitos desse furacão aqui na Mount Desert Island.
Mesmo não sendo especialistas em furacão aqui nessa lonjura, algumas decisões estão sendo tomadas para garantir a segurança dos que visitam a ilha. Acessos para os pontos de visualização do mar foram fechados como Sand Beach e o Thunder Hole. A maré alta pode ter aumento de mais de 10 pés, o que faz com que a água invada partes rochosas onde normalmente os turistas tiram fotos fantásticas. O que quero dizer que com um aumento de mais de 3 metros na água, uma onda que alcance alguém ali fará a pessoa desaparecer muito rápido, dada a violência marítima naquela área.
É isso. Hoje uma ilha pacata e bucólica, em que a editoria de polícia do jornal é praticamente uma piada pra quem vem de grandes centros, vai experimentar um rompante da natureza.
E a pergunta que fico me fazendo é como as pessoas vão reagir. Ontem, dia anterior a chegada dos efeitos do Dorian, muita gente relaxava na praça principal, os cães brincavam, pessoas saboreavam um sorvete e um livro, enfim, levavam uma vida de férias normal. Quantas delas estariam pensando na tempestade? Quantas estariam refletindo sobre o quanto aqueles momentos seriam caros no dia que se segue?
Não foi difícil comparar com o ano em que estamos vivendo, em termos de organização política tanto nacional (Brasil e EUA) quanto mundial. O furacão de extrema-direita está literalmente destruindo direitos, garantias, dignidades e seguranças. Programas que estabeleciam um desenvolvimento decente para o Brasil estão sendo dizimados. Lutas de anos, como da Planned Parenthood nos EUA estão sendo sufocadas. E a pergunta que fica é: quem são os que assistem como se não vão ser atingidos? Quem são os que sabiam desses riscos e trataram de aproveitar para se manter a salvo antes que ele viesse? Quem são os que não tiveram como se preparar e estão sofrendo as piores consequências dessa violência? Quem está a salvo?

Como numa tempestade desse nível, os mais pobres são os primeiros afetados. E numa situação assim análoga, eu fico pensando o que seria o barco de salvação, ou de consolo para esses? 

Nas Bahamas, os desalojados estão sendo recebidos nos grandes navios de cruzeiros que fazem parada na ilha. Talvez essa seja a única maneira que algumas daquelas pessoas vão poder “desfrutar” dos espaços de navios luxuosos assim. Alguns são capazes de transportarem torno de 6 mil pessoas. O mesmo número de pessoas que vivem na pequena cidade em que moro. Uma cidade que se move. E que move uma economia de bilhões, comumente usando as Bahamas como parada para esses visitantes.
Não deixa de ser irônica essa passagem de um furacão. Destrói os menores e escancara as relações de exploração de quem desce de um cruzeiro para desfrutar das “belezas” de uma vivência pobre, que só tem a natureza ao seu favor. Mas e quando até a natureza se volta contra eles? Quem será por eles?
Quando até o Estado, que deveria garantir direitos básicos se volta no inimigo, quem será a barca de salvação desse povo sofrido?
Como em muitas situações que vimos na história, só  solidariedade e a resistência, principalmente para se reconstruir são as tábuas salvadoras.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

As rugas que eu conheci em você



Pintura do pai com cara enferruscada



Eu juro que dentro de todo o processo de procrastinação que eu desenvolvo para então mergulhar num projeto de pesquisa, eu estava me comportando. Coloquei músicas adequadas e estava trabalhando na edição de um texto que ia defender com unhas e dentes no próximo congresso.
Claro que a cada congresso que vou meu senso crítico borbulha e se volta pra mim e me pergunta: que diacho você está fazendo aqui ainda? As lógicas da academia estão cada vez mais perdendo o sentido para mim. São artigos, livros, palestras para os pares. Muito pouco se muda na nossa realidade e às vezes, petrificados e chocados, a gente vê o mundo andar para trás com governos de extrema direita, ódio ao diferente crescendo e menos esperança de um mundo em que todo mundo possa ter uma vida decente.

Mas, olha, o paper era sobre algumas ideias de como podemos mudar o ambiente da universidade e ouvir mais o diferente. É ainda um retrato da minha teimosia em querer mudar de pouco as coisas que estão ao meu alcance. Não, não perdi a esperança ainda...

E, no outro lado da sala o marido estava selecionando algumas pinturas para mostras locais. Interrompe meu processo de escrita:

-Você se importa se eu levar a pintura que fiz do seu pai para exibir no Reel Pizza?
- Claro que não, respondi num processo automático que surpreendeu até a mim.
Mas foi inevitável. Minha cabeça foi para a pintura feita há quase um ano e à lembrança das minhas críticas efusivas a ela:

- Meu pai parece muito bravo aqui. Ele não é assim.
- Mas são as rugas que ele tinha na foto tirada.
- Eu sei, mas aqui ele parece bravo. E ele não é.

Fiquei pensando nas rugas. Você tinha aquelas da testa que eu nem percebia direito. Também não lembro se você tinha pés de galinha, imagino que alguns. Eu lembro da textura do seu rosto, como se hoje eu pudesse passar a mão nele de novo. Lembro das rugas no pescoço, algumas. Mas as que mais me são presentes são aquelas formadas quando você ria. Várias ao redor da boca. E esse era o problema da pintura. Você não estava sorrindo nela. Alí residia todo o problema da pintura. Eu nunca consegui perceber as outras rugas que você tinha porque eu só prestava atenção nas rugas de sorriso. Era como se quando você ria, toda a luz ia para a sua boca e eu nem percebia as rugas que simbolizavam toda a caminhada que você percorreu. Essa pintura diz muito sobre um pai que tentava esconder as dificuldades com o sorriso, ou com a resposta básica para a pergunta automática, se estava tudo bem:

-  Cada dia melhor.

É isso, pai. A pintura mostra as rugas que você sempre teve e eu nunca percebi porque estava prestando atenção nas rugas do seu sorriso. E agora vendo a foto que deu origem à pintura eu entendi o motivo de tantas rugas e dessa cara enferruscada: você estava passando protetor solar. Coisa que você odiava com todo o seu ser e chegava a prender a respiração para passar no rosto. E a gente tinha que gritar sempre que você iria virar um camarão se não o fizesse.

Espero que você esteja descobrindo muitas coisas novas, reencontrando muita galera do passado e sendo feliz.

E também queria te dizer que uma pintura com todas as suas rugas reais colocando protetor solar vai estar exposta em um dos cinemas de Bar Harbor. Vê se aparece para prestigiar, tá?

Cara engruvinhada por causa do protetor solar...


quinta-feira, 2 de maio de 2019

Do tamanho de um figo




Filho disse que minha neta está do tamanho de um figo. Não temos o sexo ainda, mas chamo de neta, no feminino, pra ocupar espaços mesmo. De qualquer forma, eu já amo figo normalmente, assim, só de pensar na fruta. Agora um figo que é parte de mim e do meu filho, só faz a gente explodir de amor. Agora entendo como avós são ridículos, ou se tornam ridículos. É absolutamente natural. Brota um amor incondicional por uma coisinha que tem o tamanho de um figo. Ou o tamanho de uma libélula, que também é um dos insetos mais fofos, ainda mais se for chamar em inglês: dragonfly.

Refletindo aqui, acho que por um lado, essa loucura toda por esse projeto de gente tem muito a ver com o ego. Porque é como se você se tornasse imortal. Você percebe que vai viver em outros seres. Que têm o tamanho de um figo agora. E daí? É quase vida eterna. Um legado.
Se a gente, para deixar um legado na terra, precisava plantar uma árvore, escrever um livro e fazer um filho, o que dirão de se ter uma neta? A gente ganha bônus de legado?

Não sei.

Penso também que, na verdade, esse sentimento de querer esmagar esse figo com todo o amor que já tenho, e muito mais que anda brotando sem controle em mim, tem a ver com a ausência de estresse em educar. Num tem! Num tem estresse nenhum sobre como pagar escola, com que companhias vai andar, bla bla bla. Talvez porque a gente já passou de fase - já doeu tudo com o filho - as netas vem só com a parte boa: quilos, toneladas, litros, de amor. Repentinamente ganhei uma filha-nora, e junto com ela um figo. Gente, é bom por demais de qualquer conta!

terça-feira, 30 de abril de 2019

Mais uma folha da minha árvore saiu voando ao vento








Mudar de hemisfério causa uma boa confusão nos jeitos que a gente se relaciona com a natureza. E para piorar, alguns povos utilizam muito as referências das estações para determinar o período em que algo aconteceu.
Dessa vez, mesmo com os brotos aparecendo ao redor da minha casa e nas ruas, o verde voltando a ser visto nos gramados das redondezas, voltou a ser outono em mim. O mesmo outono que está fazendo as folhas caírem no hemisfério do qual eu vim, o mesmo outono em que nasci e você nasceu. Está muito estranho lidar com a sua não presença. Eu não chamo de ausência porque você já era não presente para mim, desde que saí do país. Mas eu te sabia lá, naquele quarto, com todas aquelas coisas amontoadas nas duas escrivaninhas que competiam por espaço com a cama e o armário cheio.

Na última vez que estive lá, você já não estava. Eu dormi um dia na sua cama e resolvi que no outro dia ia limpar seu quarto para quando você voltasse. Fui limpando com cuidado, levantando as coisas, empilhando sem mexer muito, me surpreendendo com a sua falta de lógica na junção dos objetos. Você tinha uma cartinha que a irmã fez quando ela era muito pequena na gaveta do lado da sua cama, misturada com livrinhos de orações, um relógio todo decorado com uma cena bucólica do campo que não funcionava, seus remédios cotidianos, clipes... Para mim estava tudo muito bagunçado, mas eu limpei tudo com um medo horrível do quanto você iria ficar bravo por eu ter mexido nas suas coisas. Eu deixei tudo muito igual ao que estava, porque sabia que você ia ficar muito bravo. Você nunca voltou para aquele quarto para ver que tirei pó, passei pano em tudo e empilhei boa parte dos seus papeis.

Eu também não te vi passando por outro lado. Mas me contaram. Não te vi no caixão e agradeço muito pela sua delicadeza em esperar eu ir embora só para eu não ver teu rosto perdendo a cor ou ter que ser educada e polida no seu velório com uma multidão que foi se despedir de você. Eu sei, eu sei, que todo mundo estava com boas intenções e muito amor, que foram porque de algum jeito te amavam ou aos seus. Não os julgo, não. Mas você me conhece. E para mim, parece que você fez de caso pensado. Deixou eu ir falar com você tantas vezes, dividir a notícia que você seria biso (tenho bem clara na minha cabeça a cara que você faria se pudesse responder ou reagir!), ouvir música italiana junto, rezar o terço e contar os meus novos projetos. E aí quando tive que tomar uma decisão sobre vir embora ou ficar esperando algo acontecer, pediram para eu ouvir meu coração. Eu, no fundo, não queria acreditar, muito menos aceitar que eu sabia que você estava indo. Tantas vezes não ouvi minha intuição exatamente porque não queria que aquilo acontecesse. Mas aconteceu. Eu cheguei em casa e você fez a passagem no dia seguinte. Aí entendi que você não me queria lá. Porque eu não queria estar lá. E eu pude trabalhar toda a minha tristeza de ver você partir como folha ao vento, sozinha, junto da natureza, do mar, e das árvores.

Nesse último final de semana aqueles casais que sempre vem ajudar na abertura e fechamento da estação no Inn (você os conheceu), conseguiram limpar o jardim das folhas que tinham caído no último outono, em novembro passado. O chão estava forrado ainda porque não deu tempo, como quando você veio aqui aquela vez, de juntar tudo antes da primeira neve. As folhas caíram, assim, sem fazer alarde e estavam no chão, ali, esperando para virar adubo. Igual você pai. Foi, sem fazer alarde. Foi acompanhar o vento e sabe que será adubo. Entendi que você é folha que voou hoje, quando recebi um aviso daquele site que faz as árvores genealógicas. Entendi que era hora de registrar lá que você agora é folha caída dessa árvore ligada a essa terra. Espero que você tenha certeza que antes mesmo de cair, já era adubo para um monte de gente. Com bom adubo a gente cresce. Eu, por exemplo, vou ter que amadurecer a tua ausência. Entender que nunca mais vou te ver naquele quarto que limpei. Lidar com essa coisa de que uma folha que cai, na verdade cai para se transformar em outra coisa. Ela cumpriu o ciclo e agora retorna a sua origem. Lição cara, que aos poucos vou ter que ir aprendendo. Até que essa agonia de não te saber mais lá, no meio desses papeis, seja trocada pela paz de te saber espalhado por onde eu for, no ar, no chão, nas outras plantas, na primavera que insiste em voltar.


domingo, 24 de fevereiro de 2019

Hay que endurecer... pero y la ternura?


O pinheiro endurecido pelo gelo.


Mil teorias e um bom par de dados empíricos dão conta do efeito do facebook em nossas vidas. É espião, controla o que a gente vê de acontecimento, de quem temos notícias, filtra informações e vaza outras. Mau, muito mau.

Tenho muitos conhecidos e amigos que estão fora desta rede social. E eu pensei inúmeras vezes em sair também. Mas viver nessa ilha isolada dos meus e de tantos centros de conhecimento me faz ainda perseverar na comunidade virtual, se é que pode-se chamar de comunidade... Eu sempre quis ser ponte, e facebook me ajuda a colocar em contato um monte de gente e de saber dessas pessoas, mandando apoio, "estando ali", mesmo estando tão longe.

Mas o facebook com os seus algoritmos acabou abrindo uma Caixa de Pandora tão dolorida nos últimos anos que preciso digerir escrevendo. Na verdade, essa plataforma virou um espelho de quem eu me tornei. E, ultimamente, principalmente com o mecanismo das memórias, tive que dar de cara com um ser que foi se transformando nos anos e... endurecendo.

Era uma das minhas características mais caras resistir bravamente a qualquer tropeço da vida que me fizesse agir como velha. Velha de pensamento, descrente do mundo, amarga, fria, dura. Desde ainda adolescente eu que prometia que ia ser mais leve, nunca passei por teste mais doloroso a essa minha promessa do que nos últimos anos.

Lembro de uma vez que meu primo brigou com o pai dele, meu tio, e eu recém-casada, no alto dos meus 17 anos, disse que ele poderia ficar na minha casa. Meu marido na época surtou. Saiu esbravejando pelos cômodos como irresponsável eu fui e bla bla bla. Aos 18 anos, ele já tinha sido mordido pela seriedade adulta. E eu comemorava que tinha a liberdade dos adultos e poderia agir como eu bem quisesse, principalmente contra as regras que diziam que tínhamos que ser sisudos e responsáveis, e chatos. Eu não queria endurecer. Era isso. A vida tinha que ser dançada, é tão linda! Criei o filho de maneira responsável mas não fui rígida. Fui a professora que se vestia de tênis e jeans porque era um jeito de me aproximar dos alunos. Dancei. E tentei, dentro da minha cobrança de ser sempre melhor, ser leve também.

Até 2014. E o facebook está aí para provar e me jogar na cara com as tais memórias. Como eu era fofa, antes! Quase infantil com meus comentários dividindo coisas leves e sem importância do dia a dia.
A partir de 2014 eu comecei a endurecer. Eu ainda estou tentando buscar exatamente quando foi que isso aconteceu, mas 2014, a eleição da Dilma e todo o ranço machista, mal-informado, classista, invejoso e de dor-de cotovelo foi me separando de um monte de gente que eu considerava amiga. Eu tenho a sensação que uma venda estava caindo dos meus olhos. Ou o pouco de tolerância que eu tinha se esvaiu.

Lembro que a primeira vez que desfiz uma amizade no facebook e por consequência na vida real, foi porque não dava para relativizar mais certos comportamentos, escolhas e crenças. Alguém que acredita que o mais importante para uma presidenta era falar bonito e que as meninas precisam de uma escola de princesa não tinha condições de passar desapaercebido na minha vida. Eu não poderia mais em festas e outros encontros acenar e sorrir. Não dá. Não consigo. Ao mesmo tempo que sempre fui a questionadora da paróquia perguntando o motivo de tudo ser assim em vez só de ir fazendo o que os outros fazem, era impossível para mim fingir que estava tudo bem quando não estava não.
E a coisa só piorou com o tempo. Eu piorei. Piorei e muito. Dilma foi impeachmada com discursos que davam ânsia de vômitos feitos por gente mais suja do que pau de galinheiro.
Era como se eu tivesse tomado a pílula vermelha. E não dava mais para regurgitar, cuspir. Certas questões eram incompatíveis.

Afastei-me dos colegas do grupo de jovens. Há tempos não via mais nenhum vínculo nessas vidas adultizadas e ensaiadas de palco. Essas em que a gente medica quem não se encaixa. A mulher não se encaixa - está doente. A filha não se encaixa, toma remedinho para se adaptar.
Cotninuei com os párias. E lá se foi a leveza. Num tem mais.
Veio eleições de novo ano passado e eu dirigi furiosamente para votar a 5 horas da minha casa. Discuti fervorosamente com meio mundo. E acabei com mais um punhado de amizades.

As amizades eram com um tipo específico de gente que realmente não me faz a mínima falta. Gente que não entende que uma mulher morre a cada dia em casa pelas mãos do seu parceiro, que nesse momento uma menina ou um menino, menor, está sendo estuprado por um familiar. Gente que facilmente esquece o que um negro tem que passar a vida toda para continuar vivo. Que aquela gorda sofre horrivelmente toda a vez que alguém faz uma piada. Que o menino com Down tem todo o direito de qualquer outro na escola e na vida, que os animais são nossa responsabilidade e que dependem de nós, que o rio não vai se regenerar amanhã depois daquele lamaçal químico. Gente que acha que tem o direito de curar quem não precisa de cura alguma, só precisa ter a liberdade de viver como todo mundo. Gente que entende ciência como opinião e que desdenha o conhecimento mas espalha piadas de mal gosto e crueis sem se colocar no lugar daquele ser humano. Gente que alugou caminhão de som para tripudiar do presidente preso. Gente que comemorou a morte de outros.

Minha vida é muito boa, muito confortável e eu não tenho direito nenhum de reclamar. Consigo ainda ver poesia na caminhada que faço com a cã todos os dias. Mas, ao mesmo tempo, sinto em mim cada uma dessas vidas sofridas como se de mim fosse feito um vudu que sente o que os outros sentem. Já sabia que não se é feliz sozinho. Que nossa energia não é separada da do resto do mundo e que boa parte da depressão que tantos sofrem tem a ver com uma Terra que pede ajuda. Mas a cegueira de tantos machuca muito, irrita e endurece. E eu endureci. Não me fazem falta alguma essas pessoas que destilaram e continuam destilando ódio. É como se de repente um grupo tivesse tomado a pílula azul e outro grupo tomou a vermelha e essa galera não se mistura mais. E não sou só eu. Quem me dera que eu fosse a única a endurecer assim. Tive muitas amigas saindo do facebook porque não suportaram gente desejando o mal aos seus. De graça. Só pela posição desses de luta por um ideal. Teve gente que se desligou do meu perfil porque me posicionei, porque fui política demais. Tem gente destilando ódio de graça. Tem exilados do meu país por causa desse ódio, porque tentaram brigar por outros.

E foi o facebook que mostrou que, aos poucos, eu deixei de ter leveza. Virei gente grande. Como se tivesse visto a guerra. E endureci. Tanto que não consigo assistir determinados programas na TV, não pago para ver filme de abusador, não dou ibope para produções machistas e não consigo ver produções que mostram a que ponto ainda podemos chegar se tudo for indo por esse lado.

Eu vejo também a resistência e ela é linda. Mas vejo também que ainda está recuperando o fôlego, se reerguendo de um jeito desorganizado, se questionando o tempo todo.

Há duas formas de se explicar isso tudo que estamos passando e que me dão um certo alento. A primeira veio do marido, que vendo o meu sofrimento, tentou apontar a explicação do zodíaco, que reza que estamos chegando na Era de Aquário que determina mais comunicação rápida, uma visão de futuro e a negação de autoritarismos e fronteiras. A de Peixes, passada, determinava disputas pelo poder e a guerra como instrumento de conquista, além do atrito entre a fé e a ciência. Alguns astrólogos fazem as contas de que a Era de Aquário vai ser efetiva a partir do ano de 2150, mas mesmo astrólogos não ousam dar uma data certa. Como as Eras mudam a cada 2 mil cento e poucos anos, estamos no finalzinho de uma e começo de outra e é por isso que todo o tipo de dominação  - olha o fascismo aí, gente - está aparecendo com toda a força. É como se fosse o último respiro desse jeito de ver o mundo. É claro que se tem que acreditar ou não, mas parece que tem uma certa lógica. Só ver a dúvida à ciência, a volta da religião no poder e a divisão tão extrema das nossas diferenças. Se essa for a razão para tudo isso e logo vamos enxergar a besteira que estamos fazendo, até consigo respirar.
Outra explicação é de que se combate o fascismo só com ele no poder. Enquanto ele é uma ideia é invencível. Essa foi uma razão espalhada por conhecidos de gente que o vivenciou na Itália, mas não consegui checar a fonte original.

Em tempos como esses, leveza é um luxo.
Não tenho conseguido partilhar as coisas lindas, por mais que saiba que é preciso, porque fico pensando que enquanto eu estou aqui tirando foto da árvore que tem um formato diferente, tem gente passando fome, tem gente sendo injustiçada e pior, tem gente em gabinetes fechados planejando aprovar reformas que vão matar muitos de fome e de desespero.

Muitas vezes eu desejei a alienação, como aqueles que sempre repetem que a ignorância é uma benção nessas horas.
Mas não tem jeito.
Endureci.
Mas preciso procurar a ternura. E ela é urgente.


Para saber mais: http://vanessatuleski.com.br/v2/era-de-aquario/
https://twitter.com/mdenser/status/1057310399610150913

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Gracias por la vida! Agradecimentos de 2019

Janeiro de 2019

Mattatuck museum, with Progresso.
Opening com família.
Aeeee!!!!! Aeeee!!! Estou conseguindo ao final do mës fazer meus agradecimentos. Aeeee!!! O que significa que nunca se deve desistir nessa vida. Aliás, essa é uma marca que dizem ser dos brasileiros, mas acho que é de um tipo de gente e não de nacionalidade.
Enfim, os dois últimos anos, eu acabei fazendo atrasada os agradecimentos, mas nesse vou firme tentar fechar os meses. E aí eu só atualizo o post com os novos meses que virão.
O convite pra mostra.

Janeiro foi um mês calmo e ao mesmo tempo de várias coisas acontecendo. Os três empregos que eu tenho aqui me fizeram trabalhar. Limpei quartos no Inn, fui à loja e dobrei roupas pra Fran. Nada para se reclamar. Arranjei um tutor de inglês em Ellsworth, fiz meu evento de dança - um monte de gente prometeu ir e poucas pessoas foram - comecei aulas de dança na Artwaves e na high schoool - Greg está realmente sentindo-se torturado - e viajamos. Conheci mais um estado - Connecticut. E tudo por causa da arte do Greg. Ficamos hospedados em Litchfield, no Tollgate Inn. Dirigi de Massachussets para lá e foi a noite mais tensa até hoje com neve. No meio de uma estrada que eu não conhecia tive que dirigir em um squail, que é uma curta tempestade de neve que aparece de repente. A parte boa é que tínhamos lareira no quarto e nos divertimos tentando fazer fogo. Aí Greg fez uma fala no Museu Mattatuck em Waterbury, no outro dia visitamos uma galeria em Torrington e viajamos para Portland, onde ele teve um opening numa mostra que fala sobre os trabalhadores do Maine. O legal é que usaram a obra dele para fazer a promoção do evento. Então, mês empolgante.

Fevereiro 2019

Neve em cima de neve e a gente preparando o Mira Monte Inn para a venda. Sim, a proposta feita em dezembro caminhou e parece que o primeiro sinal financeiro foi dado. Isso significa que temos que organizar a casa ao máximo para que os novos donos gostem do que vão ver. Nessa arrumação toda, Scott e Steve estão sofrendo bastante. É o apego às coisas da mãe, como se a vó ainda estivesse por aqui e vender o Inn significaria enterrá-la de vez.
Nas limpezas, pude subir pelo Ático no telhado do Inn. Como é bom ver a vida de outros ângulos, não é?

Foi mês também de muita neve, e do Greg participar de uma outra mostra, desta vez em Damariscotta, uma cidade pequena que tem uma galeria muito bem movimentada, mais para o centro do estado.
Neve, sempre.

Foto do fogo, já que passei horas tentando fazer ele ficar vivo com os logs que fiz...

Greg, e sua obra, Man´s head, na Riverside, Damariscotta, ME

Também comecei a fazer uns tijolos de papel para queimar na lareira. No início não deu muito certo mas acho que depois de bem secos eles serão ótimos substitutos de logs.
E, claro, aniversário do digníssimo, comemorado com bolo e musiquinha. Porque vida precisa ser comemorada sempre, não é?

E, sim, estou muito agradecida por tudo que aconteceu neste fevereiro.

Março 2019

Ainda está frio, e um tal de derrete e congela que fez um monte de gelos e esculturas lindíssimas.
Nesse mês eu fiz o curso de ServSafe que habilita a pessoa a oferecer comida para outras em troca de dinheiro. A licença vai ser usada no Inn, mas ao mesmo tempo, se eu quiser abrir o meu Ugly Cake, já posso...

Passeio que fiz com a Dani em um domingo cinzento...

Os futuros donos vieram passar uma semana para saber de tudo do Inn e nos convidaram a ficar até o final da temporada para poder ensinar para eles tudo. Isso foi um alívio porque a gente tem tempo, então, de se planejar para a próxima etapa.
Eu comecei a fazer parte do grupo de dança das senhoras, Sheri é a professora, e fizemos uma apresentação numa casa de repouso chamada BirchBay. Eu desenterrei uma das danças de flamenco da Carmen (pedi permissão) e fiz um solo. Ainda preciso colocar meu sapateado em jeito.
Do Brasil vieram notícias bitter-sweet. O pai teve um enfarto, fizeram uma cirurgia e ele está melhorando. Por isso agradecemos, sempre!

Abril de 2019

O mês em que nasci me testou de todas as formas. E engolindo em seco eu agradeço porque ainda consigo ver algo bonito no meio de tudo que aconteceu, mas não é fácil.
Recebi notícias de que o pai piorou, teve uma hemorragia e acabei decidindo ir para o Brasil sem saber ao certo como eu seria de ajuda. Em Bar Harbor estava tudo meio que programado, o spring cleaning e inclusive uma festa de aniversário minha e uma apresentação de dança dentro do museu do automóvel. Tudo ficou bagunçado e é por isso que estou escrevendo esses agradecimentos somente em junho.
Cheguei no Brasil no dia 3 de abril e encontrei a mãe com conjuntivite (para não ver o pai no hospital) e meus irmãos meio como barata tontas e dezenas de pessoas querendo notícias todo santo dia. Havia três horários de visita na UTI do hospital e resolvi que já que eu viajei isso tudo eu iria enviar para o pai tudo de bom que ele precisava ouvir para se recuperar. Fui em praticamente todas as visitas conversar com ele e mandava relatórios sobre a evolução dele para todo mundo que queria.

Minhas amigas foram de um apoio e ajuda exemplar. Estavam ali, mas ao mesmo tempo me dando o espaço que eu precisava para lidar com as questões de família. A mãe precisava descansar. Consegui ver o meu pai várias vezes, dias ele melhorava outros piorava, mas sempre sedado e entubado; conversei com ele, recebi as infos dos médicos e  fiz relatórios para a família, assim pessoal ligava menos. Mas num desses dias à noite o pai teve um AVC. A coisa aconteceu entre o cérebro e o tronco do organismo, uma área que cuida da sobrevivência e os médicos explicaram que ngm volta desse estado, que o momento era de se esperar que os outros órgãos fossem parando aos poucos. No dia do meu aniversário eu vi vários anjos ao redor da cama dele. Eles são lindos, altos, e cheios de luz. Eu achava que estavam ali para curá-lo, mas no fundo era para levá-lo. Quando falaram que ele não iria voltar e que iam manter ele ali, com o conforto que poderiam dar, eu pedi para ele ir embora. Não queria que ele ficasse numa cama de hospital indefinidamente.
Fui embora antes dele ir. No dia 14 eu embarquei de volta, até porque eu sabia que o que era para ser feito por ele eu fiz e porque tudo estava acertado entre nós. Cheguei em casa no dia 15 de tarde e no dia 16 de tarde minha irmã falou que ele foi embora, na frente dela e da mãe. Eu chorei. Mas foi de gratidão. Por ter amigas fantásticas que me apoiaram o tempo todo, desde visitar, buscar no aeroporto, ou me abraçar no dia do meu aniversário, grata porque pude passar algumas boas horas com o pai, ouvindo música italiana e dizendo para ele o quanto ele era amado, agradecida porque ele me poupou de toda a tortura de um funeral - que soube, estava cheio de gente, mas mais agradecida ainda porque tive um pai e porque ele me ensinou um monte de coisas que vou carregar pela vida.
Por fim, para testar o meu coração de vez, o filho contou que vou ser avó. Esse abril vai ficar para a história como o mês que me rasgou por dentro. De todos os jeitos. Mas sou agradecida porque sobrevivi e me entendo como mais forte agora.


Maio de 2019

Maio trouxe mais quilos de maneiras de agradecer. Filho e nora vieram visitar. Depois de um bom tempo pude passar o dia das mães com a cria, e fizemos uma caminhada na montanha, Parkman. São esses momentos que a gente guarda em uma caixinha pra nunca mais esquecer. No fundo, todas as vezes que eu escrevo aqui para agradecer eu vejo que não tenho direito algum de reclamar.
Aprendi com uma das senhoras da loja de artesanato como fazer a minha horta dar certo: um cano enterrado na terra e compostagem dentro do cano pra atrair minhocas.

Também fiz vários cachecóis para vender em Southwest Harbor e na loja da Christina. Ainda preciso fazer mais para levar para outras lojas.

No começo do mês o Inn passou de mãos, da família para os Uenos (Bruce and Cheryl). Os dois são muito queridos, mas têm muito a aprender.

Em casa começamos a limpar o escritório para que no final do mês o Igor venha morar com a gente. A Little House era para ser o lugar onde duas estudantes iriam ficar mas elas acabaram não vindo por questões de visto. Dorothy foi morar lá pq brigou com Nadine. Ainda assim agradeço por termos que limpar o quarto, porque assim Greg e eu nos desfizemos de um monte de coisas. Já que vamos mudar, que seja de maneira compacta.
Filho e nora aqui foi muito fofo. Levamos ela para conhecer os pontos obrigatórios e o Greg cozinhou a lobster. Enfim, minha neta vem ao mundo já tendo experimentado a melhor lagosta do mundo via barriga da Elô.
Esse manos...

Mais pro final do mês fui pela primeira vez participar do congresso da Latin American Studies Association e como fiquei na casa da Paola, pisei pela primeira vez no estado de Rhode Island. Agradeço muito a amizade com a ela, família e amigas extendidas. Outro presente fantástico da vida.
ponte para Bristol-RI

E para coroar o mês, dona Cynthia, amiga de milianos que é melhor não contar, conseguiu encaixar uma visita para conhecer as maravilhas de Bar Harbor. Claro que também não escapou da lagosta. Mesmo lidando com a falta do seu Rogério eu só posso agradecer. E faço do jeito dele: cada dia melhor. Grazie mile!

Junho 2019

Junho foi o mês de voltar para a rotina. Finalmente o sol começou a esquentar tudo e as flores saíram com toda a beleza. Mês de ajudar com toda a velocidade os novos donos do Inn, inclusive tirando fotos para serem mandadas para entrevistas.
Aquelas cenas de verão que a gente quer guardar num potinho...



Foi também mês de começar a pensar em nosso destino, coisa que por um lado me fez viver o presente, já que não tenho nada em vista, mas ao mesmo tempo, me fazendo segurar a ansiedade. Descobri esse mês que vivo no futuro e não é bom quando não se tem muita informação sobre esse futuro.

Poppy do jardim do Inn.

Dei mais alguns passos em relação ao processo de cidadania italiana, que sinceramente não sei se vai funcionar já que tem mil correções pra se fazer nos documentos.
No final do mês passamos um final de semana em Portland. Fomos para Kennebunk levar uma das artes do Greg, fazer uma procuração em Boston para a ermã vender o apartamento de Floripa e voltamos para passar um tempo mais de relaxamento com o Scott e Kathleen. Eles, os meninos, foram movimentar o barco de uma marina a outra. Nós fomos às compras em Portland achar vestidos para eu levar para o congresso da IAMCR. Passamos um tempo bom. Sou agradecida por esse mês.
pai e filho olhando pro futuro.

loja de balas no meio do nosso passeio.
Saudade do pai vem e volta. Essa foi a foto da oração que ele escreveu e carrego na carteira. Para eternizar.

Julho de 2019

Mês de libertação e encontros. No grupo de dança houve um drama e resolvi sair. Senti que estava pesando ter que ensaiar com foco em fazer algo decente e trabalhar as 12 horas por dia da temporada e ainda preparar as coisas para a viagem para o congresso da IAMCR. Lidar com a ansiedade de quem sou eu nesses momentos de transformação está sendo bem desafiador. Sou muito agradecida por ter saído do drama tranquila, de um jeito rápido e definitivo. Entendi que foram os sofrimentos anteriores com principalmente pessoas passivas-agressivas que me fizeram ver muito rápido que não queria mais uma novela mexicana para mim. Por isso sou agradecida por tudo que me transformou no que sou agora. Engraçado como é fácil para mim cortar relações que me fazem mal. É tudo muito rápido e decisivo.
Céu de Madrid
Fui para a Madrid e sou absolutamente agradecida pelas amizades que tenho. Minha marida do coração foi me encontrar e dividimos nossas caminhadas na cidade de Cervantes, mas o melhor foi o vinho com queijo na sacada do prédio medieval. São aquelas memórias que devem ser acessadas sempre para serem saboreadas e revividas.
Um gostinho das nossas noites na varanda

Maridas em Madrid. 


Muito amor envolvido também no encontro com Paola, Jonathan e Dana. Novas amizades e parcerias que ficam pra sempre. Paola têm praticamente me pego no colo para eu conseguir desbravar essa academia internacional. Muito agradecida por ter cruzado o caminho com ela.

Paola e eu preparando para apresentar. Ela apresentar.

Céu da azotea em Madrid

Dana, a roomate que Paola dividiu comigo e eu gamei. 

O congresso da IAMCR consolidou algumas parcerias, outras amizades e pude matar as saudades de outros companheiros fantásticos tanto brasileiros quanto italianos, canadenses, irlandeses. Tudo farinha do mesmo saco e que me faz pensar duas vezes antes de largar esse mundo.


Por fim, fui a Paris pela primeira vez. Foram três dias mágicos muito por culpa de uma dupla fantástica que eu quero que seja guardada numa caixinha para sempre: Luís Otávio e Leandro. Carreguei comigo também alguém que não pode me encontrar mas pagou a passagem: Jefferson de Lima. Pude ver o café onde filmaram a Amelie Poulain, vi o Moulin Rouge e passei umas boas horas dentro da lendária Shakespeare and Company, a livraria que resistiu às diversas guerras e conflitos e foi um centro de reunião de intelectuais que falavam francês e inglês. Que sonho seria passar os três meses trabalhando na livraria e morando lá. Quem sabe um dia eu monto uma livraria dessas?

Paris, né? Perto do metrô de St. Paul

Lê, o estoriador de pé do ouvido que todo mundo gostaria de ter numa passeada por Paris.
Sou privilegiada, sim.

Luís, amigo de longa data. Uma finesse sem tamanho e um coração maior ainda.

São Miguel, lá sempre de olho em mim. Benção meu anjo guerreiro.


Julho foi daqueles meses de ser relembrado sempre. Agradecida a esse universo fantástico e ao marido que se jogou em outros dois trabalhos para que a gente pudesse fazer uma economia no fim do ano. Agradeço!
A livraria em que o mundo inteiro passou.

Tem mais!!! Tem mais! Fizemos uma janta com ida ao teatro com as mulheres de Bar Harbor. Finalmente acho que tenho meu grupo de gente louca por aqui e me sinto bem com elas. Depois de mariscos deliciosos cozidos pela Kathie fomos assistir a Mary, da Kim, em Perfect Wedding. Absolutamente fantástico como sempre.

Agosto 2019

Mês que sempre testa a gente seja em que hemisfério for. Muito cansada pelos trabalhos dobrados, durante fins de semana e sem folga. Uma inflamação nas costas me mostrou algo muito importante: preciso dizer não e saber dos meus limites. Essa é uma história que vem há muito tempo sendo digerida e outra vez identifiquei que são relações passadas - com o pai - que me fazem ser essa coisa protetiva que resolve a vida dos fracos e confusos ao meu redor. A ideia é: mesmo que sejam fracos e confusos, o problema é deles. E nem sempre serei infalível ensinando alguém a fazer algo. A nova dona do Inn me provou isso.
Do barco, o por do sol.


Mês de confusão profissional também, sem ter muito claro onde quero estar ou o que fazer. Tempo de se refazer como fênix. Mas e o medo de deixar de ser o que sou, de perder a identidade, de não saber mais pra que sirvo?
Sogra veio nos visitar e tivemos momentos muito gostosos juntas. Impressionante que temos muito pouco em comum mas ela dá um jeito de participar da nossa vida sempre, sem se intrometer mas partilhando momentos. Foi num desses que Pandora teve sua primeira viagem de barco. Sunset trip, com o Greg trabalhando e a gente curtindo a vista.
Pandora com a vovó!

E ela olhou a imensidão de água ao redor dela.

Ainda nesse mês tivemos que ir de novo a Boston para fazer a procuração para irmà de novo e aproveitamos para encontrar o amigo do Greg de longa data: Tom. Ele foi nosso "padrinho de casamento"em Bar Harbor. Gente finíssima.

No Inn um cervo perdido da família resolveu ser visita frequente. Ele é um gato que de tão mansinho quase pensamos em adotar - se a Pandora não fosse comer ele vivo... Eu gosto de imaginar que ele é o pai vindo me cuidar. Faz um mês que ele zanzeia por aqui. Sei lá. Clima esfriando e a  gente se preparando para mais um inverno. Agradeço!!
O gato que meu pai mandou para checar se estou bem.

Devon the deer.

Setembro 2019

Setembro é o mês em que a luz vai mudando, o tempo esfriando e tudo fica absolutamente dourado por aqui. Foi mês em que Pandora encontrou um novo amigo na sandbar e se jogou no mar para poder parar de brincar um pouco. Mês que fizemos caminhadas todos nós, finalmente.
Pandora depois de se jogar na msr

Ganhei tb cartinha da minha marida Ta com um pingente aromático que está me ajudando a manter a calma nessas loucuras em que nos metemos de não saber pra onde vamos.

Cartinha da marida
Fomos ver casas tb em Bath e Brunswick, com Pandora a tiracolo para que ela saiba que estamos de mudança. Mas alimentando nossos sonhos também fomos ver um antigo convento aqui em Bar Harbor que está a venda e daria uma ótima pensão simples.
Os sonhos estão todos lançados. Que o universo faça a sua parte.


Capela do convento que fomos ver pra comprar.