sábado, 15 de fevereiro de 2020

Saudades do que foi mas poderia ter sido mais

Coisa deliciosa essa musiquinha que o Spotify me apresentou enquanto eu trabalhava um texto aqui.

Faz minha alma ir para uma dimensão que não tenho certeza se algum dia estive. Daí busco lá no fundo e acho. Acho aquelas noites em que eu voltava para casa às 4 da manhã depois de ter ido sozinha para a milonga. Filho grande, tinha os programas dele e era provável que chegássemos juntos da balada. Daí era 4:30 de um domingo e estávamos os dois conversando na cozinha. Meu pé doía de um jeito absurdo mas a alma estava caminhando pela casa com uma toalha no cabelo, de tão lavada que estava.
Outras poucas noites de forró também provocaram esse tipo de reação. Um corpo altamente destruído, mas uma alma para lá de feliz.
O ápice de noites assim, dançantes, como se o mundo fosse acabar amanhã, foi num lugar chamado Casa Roma, na Cidade do México. Fomos para um congresso da ALAIC, e Paulo, Vanessa e eu resolvemos checar a salsa da capital. Coloquei essa noite como um troféu nas minhas memórias de noites dançantes. Eu devo ter girado nos braços de uns 10 pares diferentes a noite toda sem parar, mas nunca fui tão feliz.
Essa musiquinha de Kevin Johansen que tem parceria com Paulo Moska ou Jorge Drexler é muito deliciosa para dançar e me lembra muito dessas noites dançantes felizes. E a letra, como ele mesmo diz, de um macho com total entrega... Hahahaha

Dance comigo. Vamos lá!





El que se quede sin dar el paso, no voy a ser yo
Quien se canse de tus abrazos, no voy a ser yo
No voy a ser yo, no voy a ser yo
Tengo tiempo y tengo paciencia, y sobre todo
Te tengo dentro de mi existencia de cualquier modo
Y aunque falte tal vez bastante, no voy a ser yo
El que se canse antes, no voy a ser yo
Hay gente que no debería enamorarse
Algunos no deberíamos dar el sí
Yo no veo otra salida, no quiero pasar la vida
Sin que la vida pase a través de mí
Auque me pierda completamente, no voy a ser yo
Quien se esconda de lo que siente, no voy a ser yo
No voy a pisar el freno, no voy a ser yo
El que se ande con más o menos, no voy a ser yo
Hay gente que no debería involucrarse
Con cosas que luego no pueden manejar
Yo no veo otra salida, no quiero pasar la vida
Pisando una piedra y volviéndola a pisar
Si querés un Principe Azulado, no voy a ser yo
Si querés un 'Bangundangunladu', no voy a ser yo

sábado, 8 de fevereiro de 2020

A Elsa e os tipos de frozen


Neve. Não me lembro se já falei dela porque já planejei tantas vezes fazer essa postagem que ela deve ter se materializado na minha cabeça mas nunca no papel ou tela.
O significado do meu nome é branca como é neve. Tanto que quando está nevando, dizem que o tempo está níveo, de neve.
Pois bem, por um tempo, eu dizia que era como se fosse uma maldição, porque eu nunca consegui ficar bronzeada, pegar uma ótima cor no sol. Na verdade, eu também não gosto de ficar torrando no sol, nunca tive paciência, mas gostava de por a culpa nos meus pais por não pegar um bronze. Era para eu ser branquela mesmo.
Eu também nunca tive muita experiência com neve. Até 2016. Era como se eu fosse a neve. Onde eu estava, não nevava. Foi assim até vir morar no Maine, porque, né, aqui a neve é eterna.
E tenho alguns causos para contar sobre isso mais à frente.

Ela apareceu em Curitiba nos idos de 1975. Eu tinha um ano. E essa foi a única neve de poder tirar fotas na cidade até hoje. Aliás, uma das poucas fotas que tenho de quando era bebê - porque roubaram os álbuns da minha mãe junto com o carro da garagem.

Seu Rogério e eu embaixo de todo aquele cobertor.
Aí vivi sem neve por uns bons 40 anos. Só uns frios do "djanho" mesmo, ou geadas. Mas neve mesmo, branquinha e fofinha, nada.
Corta para 2012. Fui para Sevilla, sul da Espanha fazer parte do doutorado. Era inverno, mas lá não neva, como não neva em Curitiba, no Brasil. Você só passa frio. Mas eu prometi que iria visitar alguns amigos pela Europa, já que é tudo meio pertinho mesmo e pensei que podia ver a neve...

A primeira foi a Ana em Bruxelas. Ela foi para Sevilla e fomos juntas a Bruxelas. Havia então a previsão de um frio horrível (-1) e... neve! Eu estava preocupada se não ia morrer congelada e a Ana me disse que tinha umas calças todas recheadas, tipo de astronauta, se eu precisasse. Fiquei mais calma. Chegamos lá e... céu azul. Estava um frio que merecia uns waffles belgas (mentira, estou usando como desculpa), mas nada de neve, nem um floquinho que fosse.
O nariz vermelho era de frio mesmo. 

Voltei a Sevilla. Próxima visita era a Roma, ia ver o Pe. Gilson junto com a Vanessa que estava estudando em Lyon. Pois bem, nas nossas preparações, reserva de hostel e tals, Gilson avisa:
- vai ter neve quando vocês chegarem. E os romanos em geral ficam bem malucos quando tem neve. O metrô pára, cancelam um monte de coisas, histeria toma conta das italianada, maggari!
Respondemos que estava tudo bem. Brasileiro já nasce com um kit de sobrevivência para qualquer merda que venha pela frente, inclusive romanos estressados pela neve.
Pois bem, desci do avião, noite escura mesmo, peguei os trens recomendados para ir para o hostel e era um tal de muito sal espalhado para todo lado. Muito sal nas calçadas. Um frio de congelar os ossos, eu encapotada até os cabelos, mas nada de neve. Nos dois dias que se seguiram pegamos uma garoazinha bem tímida em Assis. E só.
Vanessa e Pe. Gilson na garoa de Assis. Nada que desamine essa trupe.

Voltei para Curitiba e em agosto de 2013 teve um frio daqueles e, pasmem, por dois segundos caíram umas coisas brancas do céu. NA MINHA CASA. Vi da janela. Teve carro que parou na rua. São Pedro falou logo: "Já deu. Dois segundos é mais do que suficiente para ter neve em Curitiba. Eles merecem passar só frio senão ficam mais cheios do que já são com essa coisa de ser europeu."
Rua Paranaguá, Curitiba

Araucárias na Av dos Estados

Pois bem, a coisa começou a mudar quando fomos ao casamento do Jeremiah, no Colorado em outubro de 2013. Lá tinha nevado. Tinha neve por tudo onde andamos. Uma neve seca, que parecia grão de areia porque voava no vento. Um frio daqueles, também. Passeamos pelo Estes Park e mesmo com a dor de cabeça que a altitude às vezes provocava, o cenário era lindo. Tinha neve para todo o lado no chão, nas árvores... E começou a nevar!!!!!!!
Jeremiah virou para mim e disse: - tecnicamente então essa é a sua primeira neve caindo, não é?
Era.
Eu fiquei maravilhada. Eu pisava nos flocos de neve curtindo o barulho crunch-crunch que a bota fazia em cada pisada. Depois eram os floquinhos caindo e desaparecendo na jaqueta. Era mágico mesmo.
Bear Lake
Crunch na neve

A primeira de milhares de fotos de esquilos

Em 2016 mudei para Bar Harbor e aí foi a última vez que usei minha mágica nivística de evitar a neve. O tio do marido, sabendo da maldição, que onde eu estava não nevava disse que ia me amarrar para sempre em Bar Harbor. Porque neve é bonito, mas também é uma esculhambação no dia a dia, que quem vive isso sempre facilmente escolheria não ter que enfrentar.

Naquele inverno nevou um pouco em dezembro e a temperatura subiu o suficiente para derreter tudo. Em Janeiro, marido foi para Portugal fazer residência e eu fiquei. Nada de neve. Nadica de nada. Amigos explicavam, na teoria, o que eu iria enfrentar. Que havia diferentes tipos de neve. Às vezes tinha a tal da freezing rain, que é quando o chão está mais frio que o céu e a água cai água mas vira gelo assim que toca alguma coisa. Inclusive havia árvores que "explodiam" porque a água dilatava rápido virando gelo. Eu ficava só imaginando. Sem ver nada, porque não teve neve naquele janeiro inteiro.
Grant Park - jan 2017

Shore Path - jan2017

Agamont Park - jan 2017


No final do mês marido estava voltando e fui de carro para Portland para buscá-lo no aeroporto. Foi a primeira neve que caiu em Bar Harbor em 2017. O tio do marido até hoje me acusa de ter deixado a neve chegar. Eu não deveria ter saído dali, segundo ele.

Depois disso minha maldição ou mágica, nunca mais funcionou. Nevou. Nevou muito. Pilhas, montanhas, inches, feet, como eles medem. Chegamos a ter neve até a cintura quando duas tempestades vieram uma atrás da outra (provo com fotos). E a partir daí comecei a entender porque a neve pode não ser tão fofa e bonita o tempo todo.
Caminho cavado.

Acumulação nos móveis de verão...

Marido abrindo caminho na frente do Inn

Eu, no caminho, pra mostrar a quantidade de neve que caiu

Quem não cresceu com invernos assim nunca imagina os efeitos colaterais daquela beleza branca.
Uma primeira informação: o chão congela. Com chão congelado, esqueça fazer buraco qualquer na terra. Não se planta nada, não se fixa estacas de sinalização. Não há como. Mas pior que isso, não se enterram os mortos! Isso mesmo. Como você vai cavar em uma pedra de gelo? Não tem como. Então galera guarda os corpos em freezer (o que nem era necessário já que lá fora é um freezer) e enterra só na primavera/verão. Por essas e por outras que funerais ou memorials são feitos às vezes muito tempo depois da pessoa morta. Galera acostumou a esperar para enterrar, acho eu.

Outra questã prática: nem pensar em deixar água nos canos de uma casa sem aquecimento. Essa é uma preocupação constante quando os aquecimentos quebram. Porque é dois instantes para a água congelar e estourar os canos provocando vazamentos e desastres incalculáveis no meio das paredes das casas.

Agora, outra coisa que é absolutamente nova para quem nunca viveu isso é a quantidade e variações de tipos de neves e de tempestades. Elas são detalhadamente monitoradas e descritas pelos homens e mulheres do tempo, porque elas definem se vai ser seguro para você ir ao trabalho ou não, se você precisa comprar uma pá nova ou não para cavar seu caminho para sair de casa. Sim, tem neve que pode cobrir as portas e você não sai de casa de jeito nenhum.
Resultado de uma das tempestades em Bar Harbor

Minha janela do quarto metade coberta pela neve

Cadê o carro?

Dirigir então, é de um cagaço master. As estradas viram um sabão com um pouquinho de neve e se tiver mais, você atola seu carro como se estivesse num monte de lama. O carro não anda.
Eu cheguei no Maine (no verão) julgando todo mundo pelo desperdício de terem tantas caminhonetes. Achava um absurdo galera comprar carrão enorme para uma pessoa só dirigir. Quando veio a primeira nevasca eu entendi perfeitamente. Num estado que tem a possibilidade de ter neve por uns 6 meses, ter um carro alto e potente é uma questão de segurança, ainda mais se você precisa dirigir por horas para chegar no trabalho como muita gente faz.
Aliás esqueça caminhar frivolamente na rua. Em temperaturas abaixo de -10 C você corre o risco de congelar e perder seus dedos ou outras extremidades que não estiverem protegidas. É o tal do frostbite. Nem preciso contar a dor lancinante que é esquecer a luva em um dia desses quando você caminha a cã. Dá um desespero tão grande que você é capaz de bater na casa do vizinho só para entrar e se esquentar um pouco.

Junto com neve e frio, há uma gradação de efeitos atmosféricos que misturam vento, variação de temperatura e o estado físico da água. Precisa-se de um glossário para poder entender o que o pessoal anda prevendo para os próximos dias.

Começo o glossário com o que aconteceu ontem. Na verdade aconteceu outras vezes mas eu não tinha uma visão tão privilegiada como tenho agora dos efeitos da freezing rain. Janelas grandes são ótimas para essas observações.
Então, anteontem nevou normal. Floquinhos brancos e leves caindo por tudo. Super fofo, leve, fácil de assoprar de cima do carro se não fosse a acumulação de 7 cm no topo. Mas, fácil de tirar. Acontece que depois da neve, veio chuva. Pois é. A temperatura lá em cima no céu mudou, mas daqui de baixo não. Então tinha uma pilha de neve em tudo e a água que veio por cima fez uma casquinha, porque derreteu parte da neve. Isso aconteceu nas árvores, nos fios de luz, nos carros, na estrada. Gelo. Tudo virou gelo por fora. E gelo escorrega. 90% dos negócios fecharam ontem em Brunswick por conta da segurança. Por mais que se jogue muita areia em cima dese gelo para criar atrito, a situação é muito perigosa. E da janela vi porque. Depois de um tempo de chuva, grandes canudos gigantes de gelo caíam dos fios de luz. Como se fossem pesados galhos transparentes. Pedaços imensos de gelo se descolavam da beirada das casas e das árvores e caíam como cacos de vidro. E no chão ficavam como cacos de vidro mesmo. Mas era água.

Árvore recoberta de gelo e os stalagmites de gelo do teto da casa.

Cadeiras cobertas de pedaços de gelo

Isso é um arbusto baixinho. Se tocar se quebra porque está revestido de gelo.

A neve que parou nas ranhuras da árvore virou gelo.
Continuando nosso glossário há o sleet. Sleet é quando a neve e a chuva decidem cair gelo. Essa mistura acontece na queda e fica uma coisa parecida com granizo (hail), mas é mais granulada. Tipo um smooth feito de água e gelo. Aqui tem um exemplo do que é a precipitação de sleet. É bem rara por isso achei um vídeo para mostrar:




Aí você está se perguntando, então qual é a diferença de sleet e hail (granizo)? Achei aqui uma explicação interessante:



A próxima parte do glossário é a blizzard. Você pode confundir com storm (tempestade) mas a blizzard é uma tempestade de neve com vento forte, que vem de tudo quanto é lado e você engole neve, tem floquinhos no olho, dentro do ouvido, enfim, é uma tempestade irritada.

Já a storm (tempestade) de neve pode ser bem quieta e calminha. Por várias vezes que previram tempestades no inverno por aqui ficava um silêncio imenso lá fora. Não é como chuva que a gente ouve cair. Neve é bem quieta. E muitas vezes você vai dormir com tudo limpo lá fora e acorda com a sua janela parcialmente coberta com a neve que caiu silenciosamente durante a noite toda.

Aí tem também o flurry. É quando cai uma penugem de neve. Tipo quando não dá nem por gasto. Mas não se engane. Se você estiver dirigindo e uma camada pequenininha de neve cai, já pode ser o suficiente para tudo virar um sabão e o carro derrapar fácil.
A penugem de neve no chão

uma poeirinha nivística é chamada de flurry

E por fim vou falar dos dois que mais me apavoraram. O squail e o black-ice. Fui apresentada ao squail quando fomos para Connecticut e estava um frio de -15. Dividimos a direção do carro e na segunda parte da viagem eu fui dirigindo porque tínhamos uma pequena tempestade na primeira parte. Pois então. Posso parecer toda corajosa, mas quando se trata de dirigir na neve sou a velhinha que anda a 10 por hora e forma uma fila atrás dela. Como não tenho o costume de olhar a previsão do tempo - falta de hábito mesmo - eu não sabia que na segunda parte da viagem poderíamos ter o tal do squail. E marido ficou bem quietinho. Então lá estava eu numa estrada que nunca passei na vida, já anoitecendo e aparece neve  assoprando de uma hora para outra. De todos os lados. Com vento. Como se fosse uma emboscada. Aí você diminui a velocidade porque frear é pedir para brincar de ski com o carro, e tenta ir a 5 por hora para ninguém bater na sua traseira. Cagaço é pouco para explicar. Por isso vai vídeo.



O black-ice é uma fina camada de água que se acumulou entre as ranhuras do asfalto e congelou durante a noite. Não dá para ver. Não dá para prever. Não dá para evitar. Não dá para remediar. Se os quatro pneus do carro passarem por algo assim você não freia, não acelera e não vira o volante. Só reza. Sabe porque? Por que não vai adiantar. O carro não responde. Show, né? Pois então, só de pensar em isso acontecer comigo dá três tipos de arrepio na coluna. Vi na minha frente acontecer. A mulher rodou como peão e foi parar na cerca protetora. O problema era todo mundo ao redor conseguir parar, mas alguns conseguiram e a socorreram. A moça estava mais transparente que um fantasma. Também, pudera. Aqui um exemplo mais tranquilo de black-ice.


 Então, da próxima vez que você for pensar como o argentino de Santa Cruz, "que linda es la nieve", pensa em tudo isso que contei. E entenda que a Elsa, personagem da Disney que controla tudo isso, mora lá longe, na ficção.



2020 - GRACIES


Eu fiquei com essa foto da basílica da Sagrada Família em Barcelona por muito tempo como a capa do meu Facebook. Ficava complicado trocar porque eu me sentia agradecida por tudo que a vida tem me proporcionado e a Deusa abençoado. Ser agradecida não significa que as coisas estejam vindo de presente ou sejam fácil. É usar uns óculos para olhar para o copo meio cheio em vez de meio vazio. É ter ciência do que você recebe, tem, é, conquista, ou acontece com você. Esse ano de 2020 não começou fácil nem fofo. Foi hard as hell, como dizem aqui. Isso não significa que não tenham coisas a serem agradecidas. Tem. E várias. E aqui recomeço o meu compromisso de olhar para o mês e apontar diversas razões que me fazem ser muito agradecida.

Janeiro 2020
Eu diria que esse foi um ano que aconteceu em um mês. Olhar para Janeiro dá até uma gastura de tanto que aconteceu o tempo todo.
Eu dei um jeito de escrever um capítulo de livro para a minha amiga Ana. Sou muito grata pela parceria dela e por ela ter me convidado. O assunto fala alto no peito e parece que me chama.
Agradeço também porque fui envolvida muito rapidamente no voluntariado para ajudar os asylum seekers que chegam em Brunswick a se adaptar. E a Deusa me mandou uma numerosa família angolana para que eu seja a helper. Uma família amorosa e alegre que passou por maus bocados para chegar até aqui.
Eu tive vários nãos de trabalho e tive a oportunidade de domar meu desespero diversas vezes. Muitas. Mas também tive ajuda de amigas como a Fer, para entender como meditar ou respirar em tempos tão complicados. Fomos para Bar Harbor algumas vezes para encaixotar a nossa vida. Sou agradecida por ter feito uma limpa nas coisas antes de vir para cá, mas ao mesmo tempo eu entendo que precisamos diminuir mais.
Greg teve o opening do estúdio dele. Veio gente que nunca vimos antes.
A gente se acostumou nesse primeiro mês no quarto alugado. Adaptamos nossa vida por aqui com os dois roommates, Bo e Ojo. Pandora também está se acostumando, mas ainda fica de cara que não tem a casa toda para ela...




Eu comecei um curso de critical reading and writing para melhorar o inglês.

Fevereiro 2020
O mês virou com uma mudança simbólica: trouxemos todas as coisas de Bar Harbor para um storage room em Brunswick. Fomos ajudados por um time de amigos fabuloso (Frank, Gary, Mike, Arojit, Ann). E é como o Cori, amigo do Greg disse: que façamos isso de novo, logo. O que significa que temos que encontrar uma casa para nós rapidinho.
time da mudança

entrega das chaves

storage room

storage room

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Que sempre se espreguice livre...

Acordei devagar. Esquisito não ter horário, não ter um plano em marcha para o dia. Espera! Tem, no final, tem: curtir, ou como os panamenhos dirão, desfrutar da Lily.
Fico pensando o que já sei: são raros os momentos de desfrute na vida de uma pessoa adulta.
Virei para o lado e me espreguicei demoradamente. Sem horário, lembra? Me peguei fazendo uns movimentos reaprendidos com Lily. Ela se espreguiça o tempo todo. As costas, os braços, as pernas, os micro pezinhos. Os dedinhos estão se mexendo o tempo inteiro.
Ensaiei alguns movimentos que ela faz. E me peguei pensando quando foi que desaprendi a me espreguiçar assim.

Nos mil artigos sobre-como-ter/manter-uma-boa-saúde já tinha lido que faz muito bem tomar um tempo toda manhã para espreguiçar-se. Dizem que lubrifica as articulações, faz o sangue circular mais livremente e a energia girar. Sim, somos seres com energia e ela é concreta. Lembro disso toda vez que levo choque com a estática no inverno...
Lily não leu os artigos que li sobre como acordar toda a manhã. Lily acorda. E se espreguiça. Instinto, dirão os especialistas. Lily não sabe que existem especialistas.
- Em tudo, Lily. Gente que diz que sabe mais que os outros sobre alguma coisa. São os especialistas.
Não sei se os especialistas podem explicar ou sabem disso, mas imagino que Lily não sabe que existem os especialistas, mas ela também não sabe que ela mesma existe. Ela é. E pronto. Nem ela sabe que é, ela só é.
Lily não tem uma missão determinada para o dia, não tem profissão que a defina, nem papel social, não sabe das regras sociais que dizem que ela não pode ficar de perna aberta. Ela fica de perna aberta e está bem confortável assim.


Lily faz um barulho estrondoso quando faz cocô. Ou quando solta pum. E ela não se importa se tem gente na sala, se vai feder, se vão julgá-la, se vai denunciar o que ela comeu/bebeu na noite anterior, se vão tirar sarro dela. Ela definitivamente não se importa. Ela caga e peida quando quer.
Lily resmunga quando todo mundo está em silêncio. E respira fundo também. E faz outros barulhinhos bem baixinho - porque ela é pequenininha - nos momentos mais inapropriados, como no meio da noite. Pode estar tudo bem, mas esses barulhinhos acordam os preocupados pais dela. E ela faz os barulhinhos do mesmo jeito. Porque ela não sabe que está dormindo, não sabe que tem gente dormindo, não sabe que tem hora para dormir e não sabe que não se faz barulho quando todos estão dormindo. Ela faz barulho e pronto.
Lily chora. Muito raramente, mas chora. Ela não tem ideia do porque chora, mas não segura o choro, não. Ela chora com o que ela tiver de fôlego. Chora sem se importar se vão pensar que ela é fraca, que ela é vulnerável, que ela não dá conta, que ela é sensível, que ela é emotiva, que ela não tem controle, que ela é histérica. Ela chora quando quer.
Lily faz caras e bocas. Ela não sabe que cada cara e expressão que faz significam alguma coisa para os que estão ao redor dela. Ela não tem ideia de que está sorrindo, franzindo a testa ou entortando o nariz. Ela também não se importa se alguém está vendo ela fazer todas essas caras e bocas, não se preocupa com o que vão pensar dela, ou com qual mensagem ela está passando com aquelas caras e bocas. Ela as faz e pronto.
Lily nunca cruza os braços. Ela não sabe cruzar os braços ou se proteger inconscientemente de algo. Ela os abre, imensamente, expansivamente, quando quer. E os larga relaxadamente do lado do corpo, em cima da barriga ou no rosto, sem se importar se vão achar ela relaxada, barraqueira, sem modos, espalhafatosa, espaçosa, escandalosa. Ela simplesmente abre os braços.
 Ela fecha e abre as mãozinhas quando bem entende também. Não se importa se está fazendo algum sinal ofensivo, segurando um gigantesco dedo carente que quer ser percebido ou enfiando os seus dedinhos nos próprios olhos. Lily abre e fecha as mãozinhas sem olhar para os lados para saber se alguém a nota. Ela abre e fecha as mãozinhas quando quer.
Lily encanta a qualquer adulto. Gente se desabalou de diferentes cantos do mundo com um único propósito: ver Lily. E o programa é esse para todos nós: estar com Lily, desfrutar Lily. Uma dança sem planejamento acontece e esses adultos (que dizem que ficam bobos, mas de bobos acho que não têm nada...) se trocam em turnos para ficar olhando para a Lily. E a razão não é porque Lily é adorável, fofa, perfeita, calminha. Lily é livre. Livre. Lily é absolutamente livre porque nas suas três semanas de vida ela É. Só e inteiramente, ela É. Ela não tem planos de futuro, nem tem ideia de um passado. Ela é, no presente mesmo, um presente.
No fundo, Lily faz esse bando de adultos lembrar que um dia foram livres. E que se espreguiçavam demoradamente todas as manhãs.









quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Hi Lily!!!

Lily chegou ontem e eu passei o dia tentando entender quando foi que comecei a derreter de amor. É claro que quem já é avó tenta explicar. Mas não tem explicação. Tem só uma avalanche de sentimentos. Imagino que seja algo como usar drogas. Isso. Eu passei o dia num torpor, como se eu estivesse em outra dimensão.
Os mais céticos vão falar: mas você já não sabia que ia vir um bebê? Sabia.
Mas esse bebê não tinha nome. Os pais decidiram que contariam a escolha só quando ela nascesse. Eu entendi o motivo e respeitei. Mas eu tinha que me referir a minha neta de algum jeito.

Então a nora, com aqueles aplicativos de grávida, ia acompanhando o crescimento do bebê. E eu chamando ela de figo da vovó (pq ela estava do tamanho de figo), de brownie da vovó, de manga da vovó, até que chegou na Chinchila. Ok, não tem nome, eu arranjo um: chinchilinha. E ela foi sendo chamada de chinchilinha da vovó até ficar de um tamanho de uma melancia, ao ponto que o filho falava que era a melancia e atrás dela vinha a nora.
A distância não ajuda nessas horas. A gente aqui nesse frio do Maine e eles no calor constante do Panamá. Perdi as contas das vezes que gritei com o marido dizendo: não é justo!
Mas a Deusa sabe o que faz. Do jeito italianado que sou, eu não ia dar sossego para eles.
É tudo muito diferente!
Longe de qualquer família, eles foram construindo o que sabiam de gravidez pelas leituras no google. Tão diferente dos falatórios familiares em que cada um dá palpite, tem uma história da vizinha de quando o nenê estava virado e teve que desvirar, ou as receitas para azia ou enjôo daquela prima. De vez em quando eu lembrava de alguma coisa e mandava uma mensagem.
- mãe, já conversamos sobre isso. Decidimos que vamos comprar tudo usado, não tem porque ficar gastando com coisa nova.
- Está certo.
A nora tinha feito uma tabela. Boa que é no excel, tinha listas e mais listas de marcas, de nomes, e de produtos que iriam precisar. Global, marcas de vários países. Tudo, sem conselho algum dos mais experientes...
Teve um dia que, no facetime para a gente dar oi para a barriga, eu falei 30 minutos com a nora no telefone. A glória! Calma que só ela, foi me ouvindo e dando resposta para tudo. Na verdade nem tão calma assim. Quando os exames periódicos mostravam que tamanho a nenê ia ficando, a nora se arrepiava.
- Ela vai ter que sair de algum jeito...

A última vez que tentei dar um pitaco meio assim, sem jeito, encaminhando um artigo sobre a manobra de Heimlich pro filho, tive que ouvir:
- mãe a gente fez curso, lembra?
- Tá, mas não sabia que você tinha aprendido isso, né?
- É básico, mãe.
- Tá.

Enfim, praticamente cega, surda e muda nessa lonjura, a ansiedade só aumentava. Porque no fundo a gente cria os filhos com todo o carinho, com todo amor, mas não confia. Morre de medo que vão fazer cagada, se machucar, fazer uma escolha de nome para neta toda errada. Daí lembrei de uma única vez que o filho bebê, se sufocou com um pedaço de pão. Pai dele arrancou do carrinho, virou de ponta cabeça e voilá: pão voando e bebê respirando. Sem curso de Heimlich, nem nada. E ele está aí, andando, trabalhando em outro país e fazendo neta para mim. É para confiar, não é? Não, lá no fundo você ainda acha que tem que meter os bedelhos.

Nos últimos dias, morrendo de ansiedade para saber se a neta vinha ou não vinha, comecei a puxar assunto com o filho sobre qualquer outra coisa. Eu sabia que ele ia gritar comigo se eu ficasse perguntando da nenê todos os dias. Então, para mim, lá no fundo, eu imaginava: se ele não responder, é porque tem parto acontecendo. Daí ele demorava, vinha e respondia a coisa randômica. E eu ficava roendo as unhas porque não teve parto.
Tinha monitoramento com o médico praticamente diário na última semana, mas eu ficava sabendo de um de outro e olha lá.
Coração se corroendo muito de medo que algo desse errado. Que a nora sofresse. Que fosse traumático. Pedi para a Nossa Senhora do Bom Parto para olhar por eles. Marido me acordava no meio da noite a qualquer barulhinho do celular:
- É a bebê?
-Não, é a previsão do tempo...

Não me lembro de ter ficado nem 10% desse jeito quando pari o filho.
Então, a lua ia mudar nessa terça e passei o dia pensando: agora vai.
Abandonei a tática do assunto randômico e perguntei:
- Chinchilinha viu que a lua mudava hoje?
-...
MUDO. NÃO RESPOSTA.
Gente, só podia. No primeiro tremelique do telefone, mais de 4 horas depois da pergunta:
- Viu. Parabéns vovó! :)

Aí eram dois avós bobos de pijama no meio da sala chorando e se abraçando.
Sim, ela sempre esteve ali na barriga, no quentinho. Mas saber que ela fez a entrada para esse mundo, e respirou, e está viva, é inexplicável. Ela era real. Ela existia.

Um pouco mais tarde a mensagem da mãe:
- Lily Bona nasceu no dia 19/11/19 às 19h22, com 3,4 kg e 49 centímetros. É super calma, já mamou e está dormindo.

Lily. Lily. Lily.


Não tinha nome mais simples. Mais fácil. Mais leve. Mais tranquilo para ser falado e soletrado nas 4 línguas a que ela vai ser exposta na tenra idade.
Lily.

Lily não era somente bonito, era brilhante.
Eu não conheço nenhuma Lily, o que faz a minha neta ser mais exclusiva ainda no meu mundo.
 E, de repente, como uma bigorna que caiu na minha cabeça, eu entendi que eles sabiam o que estavam fazendo, e estavam fazendo com cuidado. De repente eu entendi que filho e nora não eram mais adolescentes. Eram adultos, fazendo escolhas ponderadas e capazes de discernir e de cuidar de outra vida, mesmo longe de mim. De repente eu entendi que o milagre estava acontecendo de novo e que tudo acontece no seu tempo e de um jeito mágico e que a gente não controla porra nenhuma dessa vida. Passei o dia assim. Tentando digerir que aquele menininho com a cara toda suja de chocolate, sentado na cadeira de comer era, agora, pai. Um pai que ainda sente tudo muito à flor da pele e chora. Pelo menos em uma coisa ele concordou comigo:
- eu disse a você que tudo ia mudar quando ela nascesse.
- sim! É mágico, mãe! É de uma hora pra outra.
- Você agora sabe que é capaz de matar por essa coisinha que está nos seus braços, não é?
- Sem dúvida.

E é aí que as gerações se encontram. No final das contas, a ciência muda, os jeitos de fazer, de cuidar, mudam, mas aquela empatia que liga as gerações por esse fio condutor comum que é essa coisa maluca de sentir-se responsável por outra vida, é sempre a mesma.
Agora eu entendo a minha mãe. E é bem possível que agora ela entenda a mãe dela.
Mas nada melhor que essa irmandade que a gente divide entre amigas. Uma, já avó, me aconselhava:
- Só sente, minha irmã, só se deixa levar... É mágico.
A outra, nem perto de ser vó mas com um coração maior que ela mesma:
-  Tô numa audiência morrendo de vontade de chorar. E NÃO POSSO.
A outra:
- Estou me sentindo tia-avó! Que lindo!
A mais poética de todas:
- Que força de nome. Lembrei de Gal. Olha:

Percebi que sabia a música de cor e salteado. Fui pesquisar.
A original é de um filme-musical de 1953. Conta a história de uma menina francesa (igual mãe de Lily) que está perdida e é adotada por um circo. Ela acaba criando um número em que fala com as marionetes e o moço que as manipula só consegue falar dos sentimentos dele por ela, a partir dos bonecos.



Bem, como uma avó normal eu já comprei o filme, já ouvi todas as versões cantadas por diferentes celebridades, já votei para mim mesma que a letra em português (adaptada por Haroldo Barbosa) é mais feliz que a em inglês, criada originalmente pro filme Lili e composta por Bronislaw Kaper e Helen Deutsch. A trilha ganhou o Oscar e o filme ainda teve mais 6 nominações ao prêmio. Na gravação de Neide Fraga, a valsa é evidente. 

E foi assim que passei meu primeiro dia de avó: chorando vez sim, vez não, imaginando minha neta Lily dançando essa valsa flutuando feliz na sala da casa dela,  e tendo a certeza que meu pai, biso da Lily, é o protetor dela e está ali, zelando por ela e sorrindo feliz para a bisneta que habita essa Terra.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

O direito de sentir (não é título novela mexicana...)



Handkerchief






Ontem eu tive uma discussão séria com o marido. Ambos sob pressão e os ânimos não estavam os mais diplomáticos. Falava para ele que em tempos incertos é importante proteger a energia da gente. Sei que é "easier said than done" (mais fácil falar...), mas eu estava querendo que ele prestasse um pouco mais de atenção à energia dele, tirando um tempo para meditar ou só imaginar, assim como estou fazendo todas as manhãs.
Grosseiro e na defensiva ele diz:
- se tem que proteger é porque você está vendo perigo em toda a parte. Eu não vejo nenhum perigo ou ameaça.
Tentei explicar que não estava "vendo coisas", mas que era bom pensarmos em ter equilíbrio em tempos como os nossos em que tanto na esfera pessoal quanto global o que só temos são perguntas e instabilidade.
 - Então você está se sentindo insegura?
A palavra é um pedido para levantar o tom de voz. Senti o sangue subir, e estava me preparando para um sermão sobre patriarcado e as táticas de esterotipar as mulheres. Eu senti que ia exagerar. Senti que eu ia errar a mão. Ele já tinha levantado o tom de voz um pouco antes e eu tinha me mantindo no meu salto, linda. Não ia despencar agora. Meu pai sempre dizia que "o maior imperador é o imperador de si mesmo" (ele me dizia em latim) e eu estou focada em fazer dessa expressão o meu mantra pra maturidade.
- Sabe, o que eu acho? Que não vai adiantar nada essa conversa. Você está focado em ter razão de qualquer jeito e eu não estou conseguindo me comunicar (tática de terapia: nunca diga que eles não ouvem, diga que você não está conseguindo se comunicar, seja quem for o interlocutor. As garras se abaixam na hora).Vou dormir.
Claro que tive uma noite bosta. Claro que eu estava puta. Mas a beleza dos 40 é que você acolhe o sentimento ruim, conversa com ele e decide onde colocar sua energia. E eu decidi levantar às 5 e ir meditar porque raiva provoca rugas. E, Deus me livre, né?
Eu sei e sinto que estamos todos com os nervos à flor da pele por vários motivos que nem sempre dependem da gente. E sei que é a coisa mais difícil conseguir evitar colocar os pés pelas mãos em situações assim.
Passei o dia pensando o quanto é difícil SENTIR nessa cultura daqui, cheia do individual, racional, focada em resultado e em não mostrar vulnerabilidades. É mais fácil um diagnóstico médico, uma pílula, uma cirurgia, um tratamento químico do que lidar com o trauma, com a coisa lá que machuca e está enterrada dentro do peito.
Tenho uma amiga aqui que está com problemas sérios de saúde. E depois dos mil anos de terapia eu até desconfio que tipo de sentimentos andam a rondando para acabarem com o corpo dela desse jeito. Mas não tenho como explicar. Ela não sabia o que era Reiki. Achou que eu estava mandando ela para a acupuntura porque eu imaginava que podia ser estresse.  Não é à toa que os laboratórios ganham rios de dinheiro aqui. Não é só o lobby, é uma cultura de determinar, colocar etiquetas, nomear, padronizar, definir que resolveu e pronto. E assim, não se resolve nada.
Vim para a loja trabalhar. Cansada, com um pouco da ressaca emocional, tentando lidar com as minhas ansiedades, dúvidas e monstros. Estava na dúvida sobre que horas fechar a loja porque a cidade foi se acalmando no final da tarde.
Olhei o Facebook e me chamou a atenção a postagem de uma amiga sobre como deixar os filhos chorarem é parte do processo de aceitação e administração das emoções. Lembrei que nunca pedi pro meu filho parar de chorar. Eu dizia para ele ir ao quarto e lidar com os sentimentos, fosse de raiva ou tristeza, que quando estivesse pronto podíamos conversar.
Fiquei pensando o quanto desconcerta a galera aqui ver você chorando. Não sabem lidar. Não sabem acolher a dor e lidar com ela.
Enquanto eu estava emimesmada (existe essa palavra?) na loja, entrou uma senhora e pediu por lenços. Há uma diferença no vocabulário aqui. Lenço de papel é tissue. Lenço de pano é handkerchief.
Coisa rara nos dias atuais, os lenços de pano, a gente tem aqui na loja.
Falei que tinha, sim, depois de levar um tempo para sair dos meus pensamentos.
Ela ficou super feliz.
Foi lá e pegou dois pacotes com 3 lenços cada e veio super feliz para o caixa.
Enquanto eu lia os códigos de barra, tivemos uma pequena conversa, como sempre acontece.
Ela me diz:
-Sabe, isso vai fazer uma grande diferença hoje.
- Sério? Que bom, fico feliz.
- Sim, quando minha mãe faleceu, uma das minhas amigas me mandou um lenço desses dizendo: você tem permissão para fazer o luto. E sabe, aquilo foi um aviso concreto de que eu podia sentir, eu tinha o direito de estar triste, de chorar, porque você nunca sabe quando aquele sentimento te pega, né...
- Ah, sei sim, eu perdi meu pai em abril e entendo perfeitamente.
- Então agora, quando sei que alguém está de luto (grieving, é uma ação em inglês, como se você estivesse "lutoando", o mesmo que estar sofrendo a perda de alguém), eu entrego um lenço para eles e digo que eles têm o direito de sofrer.
- Que bonito isso! Que afetivo!, respondi impressionada com a gentileza da senhora.
Fiquei pensando em como, numa cultura racional assim, esses tipos de "carinhos" são tão importantes.
- Que cor você mais gosta, ela pergunta enquanto eu virava para pegar o cartão dela da máquina. Respondo de costas:
-ah, gosto de todas, mas estou numa fase de lilás...
Quando virei novamente pro balcão, ela tinha aberto um dos pacotes e tirado o lenço lilás dali de dentro e me oferecia.
- Toma. Você tem o direito de chorar, viu?
Apertou a minha mão, disse que eu ia ficar bem e foi embora.
Chorei, né.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Essas diferenças culturais, mano...

Eu ia fazer um disclosure (aviso de possível cagada interpretativa à frente) aqui para começar a conversa já pondo que sim, esse texto vai ser enviesado e pode parecer tendencioso por um único e exclusivo motivo: é a minha experiência, com a minha bagagem e minha opinião embutida. Então, plis, NÃO GENERALIZA.

Pois bem, aqui nesse paraíso-fim-de-mundo que se chama Bar Harbor, eu trabalho num Bed and Breakfast - diga-se pousada estilo casa da vó - e numa loja de coisinhas, decorações e presentes que se entitula Fair Trade. Significa que todo o processo de produção e venda dos objetos passa por uma auditoria que garante salários decentes para os artesãos e suas famílias, estimulando comunidades longínquas que produzem coisas muito bacanas, bonitas e criativas.

Galera entra na loja e fica maravilhada com as possibilidades que existem, em como as pessoas são criativas, meu senhor, e outros comentários. Aqui tem cesta feita com fios de linha telefônica que vem da África, tem uns quadros de metal lindíssimos feitos por haitianos que reciclam aqueles tambores gigantes de óleo, tem cartões feitos com minúsculas dobras de papel multicolorido pelo pessoal do Vietnã.
Árvore da vida feita à martelada em tambores de óleo por haitianos.


É muito legal trabalhar aqui pelo conceito que envolve cada uma das peças (Há um ser humano do outro lado dos oceanos que gastou o tempo e habilidade para fazer!) e faço questão de comunicar isso. Então quando um americano desavisado vem de boca aberta perguntar:

- Como a pessoa foi criar essa peça? Que sacada mais inteligente! Impressionante como alguém pensou nisso!!!
Eu respondo:
- Necessidade. Quando você precisa comer no outro dia e não tem ideia de onde vai tirar dinheiro para isso você se torna muito criativo. Você se vira, inventa, faz algo para sobreviver.
E aí eu jogo um balde de realidade na pessoa que sempre teve tudo a disposição, nunca passou frio ou calor, muito menos fome. Uns fecham a cara, pensando. Outros se incomodam e mudam de assunto. Mas pensam também. Pensam, nem que seja por alguns segundos, no privilégio que têm de nunca ter tido que enfrentar as dificuldades que essas pessoas que fazem essas coisas lindas enfrentam.
Cestinhas feitas de fios de telefone.


E aí vem meu juízo de valor (sim, vou julgar, é minha opinião, que não tem nada de científico).
Uma sociedade que tem absolutamente tudo, que resolve todos os problemas num passe de mágica, de maneira barata ou super acessível acaba por não exercitar a criatividade. Ao mesmo tempo que muitos americanos inventam soluções fantásticas para resolver problemas em qualquer lugar do mundo, a grande maioria que nunca saiu do país ou nunca passou necessidades não têm muita ideia do que acontece fora e vive na bolha que o sistema midático oferece. No conforto do sofá e do ar condicionado de casa. A pessoa não tem a prática de solucionar problemas diários sem estar dentro de um padrão pré-determinado. A grande maioria vive um script muito bem planejado. Tem que ter ar condicionado, tem que ter aquecimento, tem que ter determinada roupa ou comida. Tem que ter carro. E tem que ter cartão de aniversário. Mas tem que ser de aniversário, não outro, porque é um aniversário. Assim, não há a mínima possibilidade de se ter um cartão em branco, por exemplo, para se escrever uma mensagem de aniversário. Tem que ser com tema de aniversário e mensagem de aniversário (lembra o script?)
Cartão de quilling.



Aconteceu agora a pouco.
Duas senhoras entram na loja. E eu com cólica, não nos meus melhores dias, já tendo visto essa história antes.

- Você sabe onde posso encontrar um cartão de aniversário?
Eu tenho, na loja, uma parede inteira de cartões lindíssimos de quilling (os mini papeis dobrados coloridos) que você pode transformar em quadro, em cartão de núpcias, de boa viagem, de super formatura, feliz casamento, e feliz aniversário!!! mas eu sabia que não adiantaria dar a ideia SUPER CRIATIVA de usarem aqueles cartões lindos como de aniversário.
qualquer um desses cartões poderia ser de aniversário. É só escrever Feliz Aniversário, né?


- Tenho alguns cartões aqui de aniversário (tinha uns 3 específicos) e outros que são lindíssimos...

-...mas é um aniversário!!!
(segurei meus palavrões em português)

- sim, eu tenho alguns de aniversário, com mensagem de aniversário e figuras que falam de aniversário.

Mostrei as 3 opções para elas. Escolheram a baleia fofa que diz: "Feliz Aniversário" com o esguicho de água da baleia.
:/
- Mas aqui tem baleia?, uma pergunta pra outra.
- Tem puffins, responde a outra.
- O que é um puffin?
Eu, sem paciência (que novidade) interfiro:
- Tem baleia, sim, tem barco que sai no mar para ver as baleias e os puffins você vai ver só em maio ou junho. Não é mais a época em que eles estão aqui.
- Mas o que é um puffin?
- um tipo de um pinguim com bico laranja (para fechar a conversa).
- Ah, tá.

 Uma olha para outra, de novo.
- Vamos levar a baleia?
-Vamos sim, daí a gente divide o custo.

Gente, 6 trumps. Seis dólares aqui é tipo seis reais, sabe? Não faça a conversão. Galera ganha em dólar aqui, sabe? E elas vão dividir os custos!
Uma pediu para eu trocar a nota de cinco por cinco de um dólar...

- São 6,36 com o imposto.
- Ah, você paga os 0,36 porque você comeu um camarão a mais no almoço.

What????

E foi assim mesmo. Uma pagou três dólares dos trocados que dei para ela da nota de cinco que ela pediu para trocar por cinco de um, e a outra pagou 3,36, porque comeu um camarão a mais no almoço, minha gente!

É disso que eu falo. A pessoa não consegue transformar um cartão genérico em cartão de aniversário porque nunca, nunca nem passou perto de alguém que tem um pacote de feijão para alimentar seis pessoas uma semana toda. Não tem ideia do que é colocar água no leite para fazer render. Não tem ideia do que é ir pedir um copo de farinha no vizinho para fazer um mingau pra várias barrigas roncando de fome.
A pessoa não teve um governo que congelou preço, daí outro que veio e tirou o dinheiro suado e economizado da poupança. Eles não têm ideia do que é ficar tenso/atento o tempo todo para ficar vivo e ter que usar a criatividade para sobreviver, a cada dia.

E daí quando é para desembolsar incríveis 6 trumps, contam os centavos. Porque, né? Tem que se apegar aos detalhes, porque talvez não há problema de real envergadura na vida. Detalhes. Há quem fique irritado quando se diz que são white people's problems. Ou first world problems. Porque né? Às vezes dá até vergonha de ter que ir mostrar o cartão de aniversário com mensagem de aniversário e desenho de aniversário porque é só assim que pode ser.

Bem que me disseram que o diabo mora nos detalhes.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

A mulher desiludida da Simone. Ou destruída. Ou em pedaços.



Foi no ano passado. Eu estava determinada a ir para Nova Iorque, depois do congresso da IAMCR no Oregon, para assistir o U2. Mexi pauzinhos, fiz os cálculos e a vida, essa gargalhenta louca, fez a parte dela. Resumindo, nos juntamos de três lugares diferentes eu, marido e filho. Eu, voltando do congresso, marido indo pra encontrar, e filho a trabalho. Todo mundo pra ver U2. Não podia pedir por mais bençãos.
Louca viagem, que me deu o show, um jantar memorável com a minha mini-família, uma manhã nos estúdios da Fox News (como o marido disse, eu estava na barriga da besta, bleh) e um livro. Sim, mais um.
Ficamos num hostel absolutamente doido. Paredes pintadas com milhares de desenhos. Tinha uma árvore com uma cobra pendurada no teto, em cima da cama - e um livro da Simone de Beauvoir na cabeceira.
Parecia que foi deixado ali para eu ler. Algo que o anjo da guarda diz: ela precisa ler esse, vou "sem querer", largar ali.
Pedi permissão para o pessoal do hostel para levar comigo e como acontece em todo hostel a resposta foi: go for it.
Pois bem, mais de ano depois eu terminei de ler esse sofrimento. A pessoa aqui não gosta de deixar livro algum sem ler. Se começo, acabo. Mas gente do meu céu: nunca me arrastei tanto para ler algo. Claro que primeiro tinha a questã da língua: foi escrito em francês e traduzido pro inglês. Uma latina lendo tradução pra uma língua algo-saxã não é lá muito prazeroso, mas como era o que tinha, transformemos em aprendizado.
Foi ali que topei com o termo Shrew e descobri que inglês também tem todos os machismos que colecionamos nas línguas latinas.

Mas o pior foi realmente repassar a história de três mulheres literariamente se despedaçando. Não, elas não se cortaram de verdade, mas as estórias dessas mulheres fictícias que tinham em torno de 40 a 50 anos são tão reais que me trouxeram arrepios e uma dificuldade imensa de continuar a ler. Que sofrimento sem fim!
E já admito: estamos em uma época não muito feliz para mulheres visto toda a reviravolta conservadora mundial que insiste em controlar nossos corpos e mentes. Claro que, face a isso tudo, estou para lá de sensível. Então eu gatinhei, me arrastei, me empurrei para terminar esse livro. Cada página trazia uma pontada diferente, primeiro porque eu sofria por empatia, segundo porque me vi em algumas das cenas (passado, que deixe-se claro) e terceiro porque dava para sentir a pulsação dessas mulheres com a narrativa detalhada das suas crises interiores. Me peguei até conversando com a terceira personagem, dizendo um gigantesco: manda tudo se foder!!
A grande questão que remôo agora é: que diacho meu anjo queria me dizer deixando esse livro ali, ao meu léu, se oferecendo para mim?
Como otimista inveterada que sou, vou escolher entender que essas caminhadas que finalmente terminei de ler não fazem e nem farão pate da minha vida. Que aprendi. Que alguns acontecimentos fizeram parte do passado e que uma mulher cheia das ilusões e esperança mora em mim e vai continuar assim até ter que dançar com meu andador aos noventa e lá vai bolinha na vila de maioridade em que vou morar. Quem sabe dizer, não é? Eu digo: eu sei, porque sou eu que decido. :)

sábado, 7 de setembro de 2019

As tempestades da vida



O silêncio lá fora é pesado. Boa parte das pessoas dorme e é como se tudo estivesse flutuando no ar com medo de tocar-se. Em suspenso. Talvez esteja começando a chover, bem de leve, de pouquinho. É o Dorian.

Informação não falta nessas horas. Americanos são muito bons em previsão do tempo. Parte porque há diferentes fenômenos da natureza que se mostram muito perigosos no país todo, desde tornados e furacões até tempestades de neve que trazem risco de morte para muita gente. Outra parte é porque (minha opinião) a cultura local leva a uma histeria em que se busca proteção e segurança a todo custo. Controle. O norte-americano precisa ter controle das variabilidades para poder se planejar. Ele controla os minutos, as distâncias, o trânsito, os diagnósticos. Surpresas ou tudo que sai do script é recebido sempre com reação desproporcional em comparação com os latino-americanos. 

Americanos são capazes de planejar uma viagem com dois anos de antecedência. Coisa impensável para os latinos. Mas essa é uma conversa para outro momento. O que importa saber é que numa sociedade do controle, previsão meteorológica é feita por minutos, têm radar que acompanha as nuvens e você acaba sabendo exatamente a que horas a parte pior da chuva vai acontecer.

A partir desse contexto, o silêncio lá fora fazia com que pudéssemos ouvir o coração das pessoas. Todas sabiam que, de alguma forma, seu dia seria afetado por algo que não tinham planejado. E parecia que as respirações estavam sendo cuidadosamente calculadas. Sabiam que o Dorian estava por chegar. 

os barquinhos de Northeast Harbor
Essa manhã de expectativa, num dos destinos de férias mais desejados do país, me fez lembrar do ano passado, quando precisei dirigir para Boston para votar. Eu tentava impedir uma “tempestade” socio-política sem precedentes – que já se mostrou horrível – no Brasil, mas ia enfrentar a chamada Nor’easter no meio do caminho. A Nor’easter é uma tempestade-ciclone que se forma na costa leste dos EUA. As pessoas avisavam a desavisada latina que era para ter todo o cuidado do mundo nas 5 horas de boleia.
Uma calma quase entediante
Na saída da ilha, depois de deixar a cã no hotel, o caminho se deu por Northeast Harbor, um dos vilarejos da ilha que concentra ricos discretos como a maioria dos seus moradores,  e visualizei os barquinhos todos pintando de diversas cores o mar azul. O sol fazia boa parte deles brilhar junto com a água do mar. Tudo calmo. Tudo no seu devido lugar. Tudo organizado e como deveria ser. Tudo entediantemente perfeito.
Na passagem, fiquei pensando em como seria quando o Nor’easter  passasse por ali. O que o vento e a chuva forte fariam com os barcos e como os seus proprietários ou cuidadores estariam se preparando para que os riscos de desastres fossem minimizados. Não se controla uma tempestade. Mas o ser humano já aprendeu a minimizar os riscos e perdas possíveis. Ainda assim, uma boa parcela do que é a tempestade ou de como ela vai afetar a vida das pessoas e das coisas é desconhecida.

Horas mais tarde eu tinha esquecido dos barquinhos. Estava dirigindo um carro relativamente leve no meio da Nor’easter. A calma se foi. Na highway de 4 pistas, eu precisava focar em segurar bem o volante e devia ficar atenta para as rajadas de vento que faziam o carro balançar na pista, invadindo a dos outros carros. Cuidado redobrado eu tinha que ter com a aquaplanagem também já que a chuva e o vento se concentrava em partes da tempestade.

Assim que, no começo de setembro o furacão Dorian se formou no Atlântico e está subindo a costa leste dos Estados Unidos, e pela primeira vez em que estou morando no Maine, algo dessa magnitude iria chegar por essas bandas. Classificado como de categoria 5 numa gradação que vai de 1 a 5, Dorian foi nomeado como o segundo mais violento furacão da história. O fenômeno se formou no mar e foi caminhando em direção ao norte. É claro que os efeitos esperados no Maine nem se comparam aos que aconteceram nas Bahamas onde aconteceu a “direct fall”, que é quando um fenômeno desses, que está no ar, encosta no chão. Vendo as entrevistas na TV sobre as preparações dos estados da Flórida e arredores as pessoas repetiam freneticamente que o único medo era um direct fall. Eles são experientes em furacões. Já aqui em cima, no nordeste, raramente um fenômeno desses tem energia para chegar. Mas Dorian, depois de espalhar destruição nas Bahamas, acabou lambendo a costa leste americana e teve fôlego para subir. Segundo as informações do sistema metereológico, vamos acabar sentindo alguns efeitos desse furacão aqui na Mount Desert Island.

Mesmo não sendo especialistas em furacão aqui nessa lonjura, algumas decisões estão sendo tomadas para garantir a segurança dos que visitam a ilha. Acessos para os pontos de visualização do mar foram fechados como Sand Beach e o Thunder Hole. A maré alta pode ter aumento de mais de 10 pés, o que faz com que a água invada partes rochosas onde normalmente os turistas tiram fotos fantásticas. O que quero dizer que com um aumento de mais de 3 metros na água, uma onda que alcance alguém ali fará a pessoa desaparecer muito rápido, dada a violência marítima naquela área.
É isso. Hoje uma ilha pacata e bucólica, em que a editoria de polícia do jornal é praticamente uma piada pra quem vem de grandes centros, vai experimentar um rompante da natureza.

E a pergunta que fico me fazendo é como as pessoas vão reagir. Ontem, dia anterior a chegada dos efeitos do Dorian, muita gente relaxava na praça principal, os cães brincavam, pessoas saboreavam um sorvete e um livro, enfim, levavam uma vida de férias normal. Quantas delas estariam pensando na tempestade? Quantas estariam refletindo sobre o quanto aqueles momentos seriam caros no dia que se segue?
Não foi difícil comparar com o ano em que estamos vivendo, em termos de organização política tanto nacional (Brasil e EUA) quanto mundial. O furacão de extrema-direita está literalmente destruindo direitos, garantias, dignidades e seguranças. Programas que estabeleciam um desenvolvimento decente para o Brasil estão sendo dizimados. Lutas de anos, como da Planned Parenthood nos EUA estão sendo sufocadas. E a pergunta que fica é: quem são os que assistem como se não vão ser atingidos? Quem são os que sabiam desses riscos e trataram de aproveitar para se manter a salvo antes que ele viesse? Quem são os que não tiveram como se preparar e estão sofrendo as piores consequências dessa violência? Quem está a salvo?

Como numa tempestade desse nível, os mais pobres são os primeiros afetados. E numa situação assim análoga, eu fico pensando o que seria o barco de salvação, ou de consolo para esses? 

Nas Bahamas, os desalojados estão sendo recebidos nos grandes navios de cruzeiros que fazem parada na ilha. Talvez essa seja a única maneira que algumas daquelas pessoas vão poder “desfrutar” dos espaços de navios luxuosos assim. Alguns são capazes de transportarem torno de 6 mil pessoas. O mesmo número de pessoas que vivem na pequena cidade em que moro. Uma cidade que se move. E que move uma economia de bilhões, comumente usando as Bahamas como parada para esses visitantes.
Não deixa de ser irônica essa passagem de um furacão. Destrói os menores e escancara as relações de exploração de quem desce de um cruzeiro para desfrutar das “belezas” de uma vivência pobre, que só tem a natureza ao seu favor. Mas e quando até a natureza se volta contra eles? Quem será por eles?
Quando até o Estado, que deveria garantir direitos básicos se volta no inimigo, quem será a barca de salvação desse povo sofrido?
Como em muitas situações que vimos na história, só  solidariedade e a resistência, principalmente, para se reconstruir são as tábuas salvadoras.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

As rugas que eu conheci em você



Pintura do pai com cara enferruscada



Eu juro que dentro de todo o processo de procrastinação que eu desenvolvo para então mergulhar num projeto de pesquisa, eu estava me comportando. Coloquei músicas adequadas e estava trabalhando na edição de um texto que ia defender com unhas e dentes no próximo congresso.
Claro que a cada congresso que vou meu senso crítico borbulha e se volta pra mim e me pergunta: que diacho você está fazendo aqui ainda? As lógicas da academia estão cada vez mais perdendo o sentido para mim. São artigos, livros, palestras para os pares. Muito pouco se muda na nossa realidade e às vezes, petrificados e chocados, a gente vê o mundo andar para trás com governos de extrema direita, ódio ao diferente crescendo e menos esperança de um mundo em que todo mundo possa ter uma vida decente.

Mas, olha, o paper era sobre algumas ideias de como podemos mudar o ambiente da universidade e ouvir mais o diferente. É ainda um retrato da minha teimosia em querer mudar de pouco as coisas que estão ao meu alcance. Não, não perdi a esperança ainda...

E, no outro lado da sala o marido estava selecionando algumas pinturas para mostras locais. Interrompe meu processo de escrita:

-Você se importa se eu levar a pintura que fiz do seu pai para exibir no Reel Pizza?
- Claro que não, respondi num processo automático que surpreendeu até a mim.
Mas foi inevitável. Minha cabeça foi para a pintura feita há quase um ano e à lembrança das minhas críticas efusivas a ela:

- Meu pai parece muito bravo aqui. Ele não é assim.
- Mas são as rugas que ele tinha na foto tirada.
- Eu sei, mas aqui ele parece bravo. E ele não é.

Fiquei pensando nas rugas. Você tinha aquelas da testa que eu nem percebia direito. Também não lembro se você tinha pés de galinha, imagino que alguns. Eu lembro da textura do seu rosto, como se hoje eu pudesse passar a mão nele de novo. Lembro das rugas no pescoço, algumas. Mas as que mais me são presentes são aquelas formadas quando você ria. Várias ao redor da boca. E esse era o problema da pintura. Você não estava sorrindo nela. Alí residia todo o problema da pintura. Eu nunca consegui perceber as outras rugas que você tinha porque eu só prestava atenção nas rugas de sorriso. Era como se quando você ria, toda a luz ia para a sua boca e eu nem percebia as rugas que simbolizavam toda a caminhada que você percorreu. Essa pintura diz muito sobre um pai que tentava esconder as dificuldades com o sorriso, ou com a resposta básica para a pergunta automática, se estava tudo bem:

-  Cada dia melhor.

É isso, pai. A pintura mostra as rugas que você sempre teve e eu nunca percebi porque estava prestando atenção nas rugas do seu sorriso. E agora vendo a foto que deu origem à pintura eu entendi o motivo de tantas rugas e dessa cara enferruscada: você estava passando protetor solar. Coisa que você odiava com todo o seu ser e chegava a prender a respiração para passar no rosto. E a gente tinha que gritar sempre que você iria virar um camarão se não o fizesse.

Espero que você esteja descobrindo muitas coisas novas, reencontrando muita galera do passado e sendo feliz.

E também queria te dizer que uma pintura com todas as suas rugas reais colocando protetor solar vai estar exposta em um dos cinemas de Bar Harbor. Vê se aparece para prestigiar, tá?

Cara engruvinhada por causa do protetor solar...