sexta-feira, 21 de abril de 2017

O jeito "pack" de ser



A cã ensinando que estamos no mesmo barco... ou que fazemos parte do mesmo pacote de seres vivos.

A gente aprende horrores com os pets. Muito mais ainda quando presta atenção neles. É claro que cada um tem um tipo de personalidade e aqui em casa as referências são sobre a Pandora e seu comportamento.
Desde que a adotamos demos um jeito de passar um bom tempo com ela. A gente se revezava para não deixá-la muito tempo sozinha porque simplesmente entendemos que certos animais, ainda mais cachorros, que são descendentes de lobos, vivem em grupo. Ou em matilha. Ou, em inglês, pack (que também significa pacote ou mala, o que traz outros significados).
Pois bem, temos percebido esse comportamento de matilha da cã aqui. E aprendendo muito com ele.
No geral, se estamos em algum lugar da casa relaxados, parados, ela dá um jeito de sentar por perto. Isso em casa.
Fora de casa, é muito comum ela sentar perto, mas tocando alguma parte do corpo. Geralmente nas costas. Típica posição de quase alerta, para saber que se alguém da matilha se mexe, ela se mexe também. Atenta para o outro lado.

Mas em casa, a situação mais comum é quando eu e o marido estamos sentados no tapete quentinho que dá para as escadas da cozinha, ou no sofá, ou qualquer outro lugar em que ela possa estar. Ela vem, dá um cheiro para medir a energia, vê que está todo mundo conversando tranquilo, sai, pega um brinquedo ou um pedaço do osso e volta. E daí senta ou deita do nosso lado. Perto. Sem tocar nenhum de nós, mas perto, mordiscando o brinquedo ou osso.

E só essa pequena atitude que é repetida diversas vezes todos os dias nos ensina muita coisa. Ensina que cada um tem seu espaço. E que não é legal invadir o espaço do outro quando não é necessário. Ensina que cada um tem seu objetivo, sua vida, seus afazeres, sua conversa, enfim, o seu osso para roer. Mas é grupo. E não precisa ser necessariamente todo mundo comendo o mesmo osso para fazer parte do grupo. Só estar perto. Só estar ali já nos lembra que somos indivíduos, mas que fazemos parte de um grupo maior, diverso, que se cuida, se percebe. Que não sufoca, mas está disponível, perto.

Seria tão bom se os humanos tivessem esse "pack mind". Não haveria relação abusiva, possessiva, assédio moral. Só suporte, colo, para quando precisarmos. E aquela sensação de pertença, de que estamos todos no mesmo barco. Porque, na verdade, estamos mesmo.

domingo, 2 de abril de 2017

Ano Novo

Meu ano novo astrológico está começando essa semana. Ano passado eu prometi para mim que faria um agradecimento para cada dia. Não tive disciplina para fazer cada dia. Mas porque eu tinha prometido para mim, eu precisava cumprir.
Aí usei a desculpa do ano novo astrológico para fazer de vez cada um dos agradecimento. E gente minha! Quanta coisa eu tive para agradecer. Esse ano vou fazer diferente. Mesmo tendo coisas para agradecer todos os dias eu vou agradecer mensalmente. Dá uma visão de todo, de desenvolvimento, de dinamicidade. Porque mesmo que eu sinta que passa voando, cada mês tem tanta transformação que parece que tudo aconteceu há anos atrás, não meses...
Ai essa relação com o tempo!

quarta-feira, 22 de março de 2017

Saudade não tem tradução


Finalmente a mudança chegou. Cinco meses a mais do que o prometido. Nesse tempo de espera fui do “aimeudeusdocéuminhascoisas” para o “nem lembro mais do que está vindo” para, depois, o “meudeusminhasfotostodasestãoali!!!!”.

Posso dizer que foi um choque de dois mundos a chegada dos meus pertences. Primeiro porque eu fiz uma limpa tão limpa antes de mandar, que eles se reduziram a uma mala de roupas que se usa uma vez na vida outra na morte, uma mala com todas as fotas impressas que eu tive, e uma mala de memórias. Essa mala de memórias mexeu comigo. Essas coisinhas lembraram de outras formas de mim que estavam navegando de jangada até chegar aqui. Nela vieram meus apetrechos de flamenco (a castanhola!), meu Santo Antônio, Nossa Senhora feita de pedra sabão que meu filho tinha trazido, um sol feito de vidro e metal trazido do Hawaí, um presépio nordestino, um imã de geladeira da sagrada família que veio de Sevilla, um vaso de florzinhas da comemoração do casamento do meu irmão e cunhada e mais um punhado de outras coisinhas que são únicas e carregam quilos de memórias e símbolos.

Vieram também as seis caixas de livros. Eu espremi todos também. Mais da metade dos que eu tinha foram dados, doados, distribuídos. Mas os que ficaram, meu senhor, que falta fizeram na última pesquisa que precisei fazer. Senti muitas saudades de folhear e ver que página era mesmo aquela citação que eu quase sabia de cor e que ficaria perfeita nessa parte do texto...

Todas essas memórias foram provocando meu cérebro, fuçando aqui e ali, em algumas histórias. Foi quando abri a mala de roupas. As toalhas decoradas e coloridas pularam da mochila e o cheiro do sabão que eu usava em Curitiba rescendeu no ar. Inspirei fundo. Ainda estavam com cheiro de limpas. E o gatilho disparou. As cenas vieram como mágica. Cores. Luz e sombra. Lembro do apartamento. De dias claros nos quais eu pendurava as roupas nos dois varais e a casa inteira ficava cheirando à limpeza. Em domingos de início de outono ou de primavera, que eram fresquinhos, calmos, ensolarados e que da janela podia se ouvir as movimentações dos vizinhos para os churrascos na casa de outrem. De levar a cã no parque para brincar e depois passar na casa da minha mãe para dar banho em um animalzinho enlameado e feliz.


Saudade. Definitivamente ela veio junto com a mudança.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Contemplação

Desde que adotei a Pandora, a minha primeira cã, eu aprendo todo dia uma excelente lição: a contemplação. 

A cã decidiu por ela própria fazer xixi e cocô só fora de casa. Cansei de deixar o jornal lá, no chão, por meses e ele ficar ressecado do sol, sem um xixi em cima, sem um cocô para trocar.
Até que desistimos de deixar o jornal à disposição. Ela segurava e pronto.

Muita gente já me disse que sou sortuda por isso. Nada de caca dentro de casa. 
Mas a percepção que tem alguém segurando o xixi ou cocô e que isso depende de você não é tão legal. Não há, também, a chance de um dia sequer não sairmos de casa. Pode estar caindo o mundo de chuva, pode estar ventando tudo e mais um pouco, pode ser de noite porque não deu tempo durante o dia, pode ser bem cedo para ter que dar tempo de fazer as outras coisas... não importa. Você se obriga a sair de casa pelo menos duas vezes ao dia. Às vezes mais. E isso ensina muita coisa. Resiliência é uma. Porque você percebe que enfrenta qualquer clima, que não vai morrer se tiver que ir lá fora num domingo preguiçoso, que você não vai derreter na chuva ou ser levado pelo vento. Você vai.


Esses momentos de saída dão oportunidade para a contemplação. Mas ela só se dá quando você faz isso no ritmo da cã. Tem gente que fica apressando o cãozinho, tratando essa saída como mais uma obrigação. Eu, que não sou trouxa, resolvi aprender a desacelerar com a Pandora. E ela tem sido uma excelente professora.

Quando eu estava em Curitiba essas caminhadas aconteciam ao redor do prédio. Era a percepção da florzinha, da árvore, do fruto que acabou de cair, da folhagem diferente. Da textura do chão. Às vezes ela se interessava por pessoas. Ela sentava na calçada e, me deixando extremamente embaraçada, ela fitava os passantes. Até eles sumirem de vista. 
Havia as situações em que ela cheirava meticulosamente uma árvore. E eu ficava ali esperando. Na espera, eu prestava atenção ao formato da árvore, ao desenho do caule, à coloração das folhas. Aprendia a contemplar.

Na mudança para Bar Harbor essas lições passaram para outro nível de dificuldade. O frio é infinitamente maior. Há neve, muitas vezes mais de metro no chão. E houve a adaptação da Pandora ao novo lugar.
Pandora buscando a bolinha na neve. Preste atenção, tem uma bolinha ali.

Nos primeiros meses ela estava agressiva e a treinadora disse: “você precisa cansá-la. Ela tem que gastar energia. Faça duas boas caminhadas de uma hora cada, ou corrida de meia hora por dia”.

Então, em vez de só achar um lugar para fazer xixi e cocô, agora a gente precisava exercitar a Pandora. Arranjar tempo para isso também, se organizar, e mais importante, tirar algum proveito disso.

Foi desse jeito que testemunhei cenas lindíssimas no céu e na natureza. Foi desse jeito que conectei com a natureza ao redor, que já é um desbunde, mas que precisa de tempo para ser contemplada. Foi desse jeito que aprendi, com ajuda dos conceitos chineses, a estar 100% em cada lugar. Quando caminho com a Pandora, somos nós duas e a calçada, rua ou trilha à nossa frente. Nada mais.

Foi assim que um dia paramos para ver uma perseguição de esquilos.


Foi assim que encontramos outra bolinha para brincar, que depois de 3 dias passando por ela, e sem ninguém a recuperando, trouxemos para casa.
Foi assim que sentamos na pedra, perto do mar e ficamos vendo os patos.
Foi assim que ouvimos o corvo e paramos embaixo da árvore para observar.
Foi assim que fiquei mais de 10 minutos parada na frente de uma casa vendo um chipmunk (esquilo menor e marrom) comer uma noz. Pandora tentou ir falar com ele, mas decidiu sentar e assistir.

Foi assim que conversamos com diversas senhoras.
“Posso passar a mão nela?” “Pode, só cuide com o rosto, ela pula.”

Foi assim que observamos vários pássaros desde os lindos Bluejay e Cardinal.

Foi assim que ontem, passando na piscina de crianças, que estava congelada, vimos um show particular de patinação. A menina treinava sozinha rodopios e outras manobras. Dessa vez fui eu que parei para ver o espetáculo. Pandora sentou do meu lado. A menina percebeu e, com medo de atrapalhar, resolvi continuar andando. Pandora queria mais. Ficou olhando para a menina e seus rodopios até virarmos a esquina.

Cada dia é um espetáculo diferente. E sou grata pelo aprendizado da contemplação.
Obrigada Pandora.


sábado, 4 de março de 2017

A Kate

Faz tempo que não venho falar dos filmes que assisti mas os dois últimos merecem alguma atenção por causa da Kate. 

The Reader ou O leitor, é originado da história de livro homônimo. Eu tinha lido o livro há algum tempo, numa troca feita em sala de aula, e sabia que tinha uma hora do livro que havia uma virada, do tipo: nuuuussaaaaa!!!!! Mas eu não lembrava que virada era essa.



Óbvio que não vou bancar a spoiler aqui, mas no livro essa virada se deu de um jeito mais chocante do que no filme. Talvez porque a narração solitária do menino vai se encaminhando para  visão que ele tinha da Hanna Smith, personagem de Kate Winslet. O marido não tinha lido o livro e no meio do filme, antes da virada, ele já tinha sacado. Aí fiquei pensando nos formatos de narrativas que precisamos aplicar no texto e no audiovisual para ter o mesmo efeito. Há uma distância imensa entre as construções e me deliciei comparando, depois que a memória do livro voltou.

Mas o que eu queria ressaltar de O Leitor é a incrível interpretação de Kate Winslet. Eu não sou ligada em artistas, nas carreiras, muito menos cinéfila o suficiente para ficar fazendo comparações e elucubrações mas vou deixar minha opinião mesmo assim. Eu fiquei impressionada com a interpretação dela. Mudou completamente da Kate que eu lembrava do Titanic e achava que ia ficar com aquela personagem grudada todo o sempre nela-atriz. Em O Leitor ela é exatamente a personagem descrita no livro: contida, enigmática e rígida. Uma surpresa mesmo de interpretação.



Ontem assisti The Dressmaker, que tem o título em português A vingança está na moda (tradução que sinceramente empobrece o apelo do filme). E lá vem Kate de novo. Totalmente outra pessoa. Sem vestígios da Hanna ou Rose, ela vira Tilly. Uma mulher sarcástica, femme fatale que aprendeu a alta costura e volta para sua cidadezinha rural no interior da Austrália para cuidar da mãe e faz sucesso produzindo vestidos para as mulheres da cidade. Mesmo sendo dirigido por Jocelyn Moorhouse ele lembra muito o estilo drama-um-pouco-de-comédia dos filmes de Wess Anderson, os quais eu já tenho um carinho especial. Só desconfio que o The dressmaker não teve uma super aceitação primeiro por esse título em inglês e segundo por ser um roteiro que já vimos antes: a persona non grata volta pra se vingar. Apesar de eu entender do roteiro que não era essa a intenção quando ela chega na cidadezinha.

Então, tá aí. Kate Winslet para quem gosta dela. Eu passei a gostar bastante.


sábado, 4 de fevereiro de 2017

De tudo um pouco - Women´s March


A arte do cartão postal que percorre o mundo agora
foi feita por Jennifer Judd-Mcgee, moradora da Ilha de Mount Desert 


Quem me conhece sabe que tenho uma história de afeto com alguns tipos de ativismo. Não sou das radicais que devota a vida a uma temática ou luta, mas participo e me envolvo sempre em demandas que estão ao meu redor. É aquela história de não passar pelo mundo a passeio e entender que todo mundo pode fazer diferença.

Essa caminhada me levou a estudar os movimentos sociais dentro da academia ligando com a paixão que alimento sempre que é a comunicação.

Pessoal da universidade onde eu trabalhava dizia que eu era a que estudava os “pobres”. Enquanto outros colegas estavam desenvolvendo pesquisas sobre comunicação entre robôs, sobre técnicas publicitárias e campanhas geniais, sobre as tecnologias da informação aliadas à comunicação, eu sempre estava mais interessada em como aquela pequena comunidade estava imprimindo panfletos para informar a todos sobre uma epidemia, sobre direitos, enfim, como estavam usando a comunicação para se desenvolver.

Se em alguns círculos eu era o peixe fora da água, em um grupo de pesquisa, especificamente, eu sempre me senti em casa. Todas as vezes que fui a encontros do Comuni, na Metodista de São Paulo, eu via que não estava sozinha e isso me motivava cada vez mais. No fundo, fazemos parte da galera que quer ver um mundo em que todos tenham as mesmas oportunidades. Simples assim.

Nas pesquisas que desenvolvi encontrei muita gente na América Latina e Europa nessa trilha também. A gente vai fuçando e acaba encontrando nossos similares. Conheci gente que saiu da Europa – porque tudo já estava muito discutido - para investigar as iniciativas na América Latina que borbulha em criativas formas de se comunicar e se desenvolver com recursos muito escassos. O cenário é riquíssimo em soluções e formas de conviver comunitariamente.

Mas aí mudei para os Estados Unidos. Morar no símbolo da opressão econômica de outros povos não é algo fácil de se digerir para alguém nessa caminhada. Eu poderia passar pela cooptação, isto é esquecer quem sou, quem fui e fingir que está tudo bem nesse novo mundo tão abundante de recursos. Mas há um detalhe chamado senso crítico que mesmo que a gente queira desligar, não desliga (se você souber como fazer, me avisa. É bom para descansar de vez em quando).

Então, o que me restou para não começar a autoflagelação foi entender onde estou inserida e como são as lógicas aqui. E aí a gente percebe que nada é por acaso, que a tal da sincronia existe.
A única faculdade da ilha tem como degree (formação) a Ecologia Humana. É a terceira instituição no país todo em melhor alimentação para os estudantes, oferecendo alimentação balanceada, produzida ali, orgânica e com variações para veganos, vegetarianos, alérgicos entre outros. Ao redor do campus estão pendurados muitos avisos sobre suporte afetivo, psicológico e comunitário para qualquer problema. É uma comunidade afetiva, a princípio.

A ilha onde moro já foi chamada de Éden e ao mesmo tempo que é lugar de veraneio para riquíssimas famílias (Rockfellers eram proprietários de quase tudo), possui uma comunidade de pescadores de lagosta super organizada e ferrenha em defender seus interesses e mais um bom punhado de ecosuperchatos que querem a preservação do parque Acadia (que rodeia tudo isso). Há mais dezenas de outras organizações, inclusive uma que quer que a ilha seja autosuficiente em energia. Bem, isso já diz muito sobre porque estou quase à vontade aqui.  

O centro de reciclagem é uma lindeza e deveria ser exemplo de ideia simples para qualquer cidade.
Mas é importante ressaltar que todas essas iniciativas estão inseridas dentro de uma cultura da abundância e do descarte, em que aquilo que está um pouco ruim não se conserta, é jogado fora. Comida em geral é desperdiçada de maneira assustadora e nem todo mundo entende a reciclagem como algo pro mundo, mas simplesmente como uma maneira de conseguir uns “pennies”. Isso é país, variando para mais ou menos, dependendo do estado.

Claro que não sou ninguém na fila do pão para poder opinar. E sei que a minha visão é fragmentada e contaminada pela minha experiência de vida.

Pois bem, dentro desse escopo, ontem tive uma noção de que não tem escapatória. A gente pode ter diferença cultural em muitos lugares do mundo, mas as lógicas de convivência acabam tendo a mesma raiz, o mesmo modus operandi.

No dia seguinte em que o novo presidente (aquele que é melhor nem citar o nome) assumiu, milhões de mulheres, homens e crianças se dirigiram à Washington para comunicar aos líderes do país que não estavam satisfeitos com a visão de como as coisas estavam se encaminhando em relação a garantia de direitos conquistados (para resumir).

Daqui da ilha, uma mulher, vendo toda a movimentação, pensou em se juntar ao pessoal que se organizava. Ontem, em frente de mais de 100 pessoas, dentro de uma sala do YWCA, ela contou que imaginava que seria ela e mais umas duas amigas viajando no próprio carro, reforçando aquela massa de povo e suas intenções. Quando se deu conta, ela tinha dois ônibus organizados, cheios, reunindo 110 pessoas só daqui desse titico de mundo. Do estado do Maine, que tem uma população de 1 milhão de residentes, foram em torno de 4 mil pessoas.

Ontem, essa pequena comunidade se juntou para se organizar. Entre os discursos, líderes de diversas organizações da região falaram em como ser estratégico agora. Em como trabalhar em turnos, em como tomar cuidado da saúde e das relações perto da gente. Porque todo mundo tem que estar alerta por 4 anos, sem descanso. “O governo aposta no nosso cansaço”. Falou-se em agir em turnos. Falaram em unificar forças no momento, e em como é importante, mesmo com as diferenças, manter uma atitude pró-ativa. Uma das expressões que mais simbolizaram o momento e a mística do grupo foi dita pela Rachel: “a democracia efetiva não é organizada, controlada, calma. Ela é bagunçada, barulhenta, cansa, nem todo mundo concorda, mas todo mundo quer trabalhar junto, tem a vontade de trabalhar para todos. Mantenhamos nossa organização essencialmente democrática.”
Milja Brecher Demuro, que reuniu os dois ônibus, contando sua experiência.

A senhorinha que sentava ao meu lado sorriu. Ela trabalha em uma rádio comunitária fazendo um programa sobre mulheres nos domingos à noite. Um pouco antes ela tirou o recibo do mercado do bolso e disse animadamente: “Bem, não ando com cartões de visita. Mas esse é o tipo de cartão que a gente, dos movimentos, usa. Esse é o meu contato”.

Um pouco depois um professor da faculdade entregou para todo mundo um texto mostrando como cada um pode ajudar financeiramente cada organização que já está fazendo um trabalho pelo bem de todos deixando de comprar loucamente em datas festivas (Valentine´s day é na próxima semana) e doando para esse tipo de serviço.
Depois, uma outra senhora contou para todo mundo como agora ela se viu envolvida em um movimento chamado Indivisível. Existem mais de 4 mil grupos no país todo e o que eles fazem é pegar as demandas locais e fazer pressão nos representantes políticos.

Havia comida, preparada por várias pessoas da comunidade. Era um potluck (o que chamamos de festa americana) em que cada um traz um pouco. Teve gente que trouxe bastante, teve gente que trouxe um pouco, teve quem não trouxe. Ninguém ficou preocupado. Ninguém deixou de comer. Sobrou.

Ontem percebi que é possível que a Women´s March se torne o 15M americano. O guarda-chuva que vai unificar vários grupos, várias demandas. E mostrar que o povo quando está organizado, resiste.

E eu, claro, finalmente me senti em casa. 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

A luva

Tem gente que explica por meio de signos. Eu tenho ascendente em virgem e acho que esse pode ser o meu problema. Não sinto que é doença, mas posso dizer que entre um diagnóstico de TOC que vá de 0 a 10 em intensidade, eu devo estar ao redor do 6.

Não consigo começar a escrever sem a mesa estar arrumada. Casa bagunçada me deixa mal humorada. Por outro lado, dia de faxina, no final, quando tudo está organizado e limpo, sinto como se  estivesse no céu. Já tive carro cheio de lixo para não jogar em qualquer lugar. Hoje tenho sacolinhas, para tudo.

Arrumar mala é outro esquema. Tem método. E tudo se encaixa de maneira a ficar seguro e caber sem problemas. A família nunca acreditou como consegui colocar tanta coisa na mala que veio de volta da temporada em Sevilla. Com as mesmas malas que fui eu acabei trazendo tudo de volta com mais duas cobertas queen de pena e alguns livros.

Copos e louças desparceirados ou estão assim porque é “cool”, e daí é tudo bagunçado mesmo, ou vão virar outras coisas únicas, como vasos, porta-velas. Não dá para ficar com 25 tipos de pires que não combinam com as xícaras.

Mas o pior de tudo é quando a coisa tem que vir em par e perde-se um item. Se eu não conseguir dar uso para o item que ficou solitário, isso me causa uma agonia imensa. Sensação ruim mesmo.
Sim, já perdi meia. E a meia que fica sem o outro pé vira pano para tirar pó, tudo certo. Já perdi brinco. O brinco que fica, sempre tem uma opção decorativa virando até um chique pin para segurar bilhetes no mural de cortiça.

Mas ontem eu perdi uma “mão” de luva. Continuo inconsolável. A luva foi de alguém importante, estava sendo super útil mesmo. É daquelas que esquenta mas não é grande, gordona. Era ótima para proteger no frio sem tirar os movimentos.

A luva que está ótima...


Não sei o que fazer com a outra mão da luva que está ótima. Olho para ela e me dói saber que a outra mão está por aí, no mundo. Acho que perdi no aeroporto quando saía do carro... Deve estar lá no chão. Carros passando por cima, ou gente pisando. Ou ainda enterrada em uma grossa camada de neve.

Perder uma mão de luva é a coisa mais absolutamente normal em lugares de frio. Não tem jeito. As peças são pequenas, soltas, você está no meio de uma ventania ou chuva e precisa abrir um trinco. Tira a luva. Se ela cai, você não vai perceber. Ela não faz barulho.

A luva pode cair do bolso, da bolsa. Não tem jeito. Eu queria muito que houvesse um lugar onde esses objetos perdidos pudessem ser encontrados. Até imagino as duas luvas correndo felizes uma para a outra. E eu mais feliz ainda.

Mas não dá. A gente tem que lidar com o que se perde para sempre também. Preciso aprender essa lição sem sofrer tanto. Fazer como Mags Harries que transformou em arte as luvas perdidas de Boston. Elas estão nas calçadas, na escada rolante do metrô transformadas em esculturas de bronze. Todas tortas, com aquela cara de abandonadas que ficam quando caem ou são levadas pelo vento ou pisadas.
http://harriesheder.com/project/glove-cycle/

http://harriesheder.com/project/glove-cycle/

http://harriesheder.com/project/glove-cycle/



As que supostamente vão, viram arte. Mas o que fazer com as que ficam?

sábado, 31 de dezembro de 2016

Winter is coming...

1 de dezembro
Agradeço por ter a oportunidade de brincar com as folhas secas.


2 de dezembro
Agradeço pelo chá de gengibre e pelo trabalho na loja que começou hoje, na midnight madness.

3 de dezembro
Agradeço porque o inverno será tranquilo. (Todo mundo diz isso...).

4 de dezembro
Eu agradeço por que tenho esperança sempre em fazer as coisas de um jeito melhor e ter um mundo melhor. Esperança alimenta, e eu agradeço que ela exista.

5 de dezembro
Agradeço pela neve. E por ter a oportunidade de presenciá-la.



6 de dezembro
Grata por continuar a escrever, como Dory disse para continuar a nadar...

7 de dezembro
Agradecida pela família que ganhei esse ano.


8 de dezembro
Agradecida aos montes pelos amigos além-mar que ajudam nas pesquisas vendo referências em livros, buscando na biblioteca outras bibliografias, cedendo acessos à biblioteca virtual.

9 de dezembro
Grata por ter espaço e instrumentos para fazer o artesanato das coisas, como móveis, móbile e outros.

10 de dezembro
Agradeço por aos poucos me adaptar ao frio e por ter a oportunidade de curtir paisagens absolutamente lindas de branco.

11 de dezembro
Agradeço pela vida das primas, Venúcia do dia 7 e Grasi do dia 11. Primas em geral são uma benção na caminhada na terra.

12 de dezembro
Agradeço por ter sido possível ser instrumento para a vida de outro ser humano. Grata pelo filho saudável e independente que vive por mim.


13 de dezembro
Agradeço pela natureza que me rodeia, que não importa a estação, continua absurdamente linda.

14 de dezembro
Agradeço por às vezes entender que o jeito brasileiro de arrumar as coisas mais agressivamente é o melhor a fim de termos soluções práticas.

15 de dezembro
Agradeço por todo o clima de Natal que nos rodeia e que faz refletir sobre a vida.

16 de dezembro
Sou grata pela criatividade em resolver problemas.



17 de dezembro
Agradeço porque nesse dezembro eu não estou estressada, não tenho uma lista imensa de presentes para distribuir, não tenho que lidar com a correria do final de semestre, não preciso planejar festas e comilança.


18 de dezembro
Agradeço porque a água continua a correr mesmo quando o gelo tentar pará-la.


19 de dezembro
Sou grata por ter que caminhar com a cã duas vezes ao dia. Sem isso eu não veria as belezas que vejo sempre ao meu redor.

20 de dezembro
Sou agradecida porque tenho consciência do que pode viciar e por isso posso ficar atenta pra não ser escrava de comida ou comportamento.

21 de dezembro
Agradeço todas as dificuldades que tive na vida - que não foram muitas. Porque elas me fazem valorizar o que eu tenho ao meu redor, desde o silêncio da noite para dormir (pq antes eu tinha um bar aberto até as 4 da manhã) até a casa confortável que sempre tive.

22 de dezembro
Agradeço por valorizar os cartões de Natal e vir morar num lugar que os valoriza.


23 de dezembro
Eu agradeço hoje porque mais um ano está terminando que os projetos foram se encaminhando de uma maneira que o universo entendeu como a melhor. Obrigada!

24 de dezembro
Agradeço pelos amigos feitos ao redor do mundo, Itália, Nova Zelândia, Espanha, Colômbia, Bélgica.

25 de dezembro
Agradeço por ter uma família que me adotou e me fez sentir-me acolhida.


26 de dezembro
sou grata por uma viagem de volta Portland - Bar Harbor sem neve caindo e sem qualquer percalço na estrada. Pandora se comportou também e foi companheira.

27 de dezembro
Sou grata por estar sozinha e me sentir bem comigo mesma, com a cã, com a casa e com o Universo.

28 de dezembro
Agradecida por poder cozinhar, ler e encaminhar a vida no meu ritmo.

29 de dezembro
Grata por todas as pessoas que me ajudaram com dicas, com conselhos ou qualquer outra direção, a entender melhor a nova vida ou a direcionar melhor os meus esforços.

30 de dezembro
Sou grata por ter harmonia, pelos meus amados estarem realizando suas coisas e pela esperança que sempre será uma presente na minha vida.

31 de dezembro
Eu agradeço por poder passar o último dia do ano de pijama e participar do ano novo que acontece em Álora, Espanha por vídeo, e em Curitiba no Brasil por whats. Não importa a distância, agradeço por ter amor onde for.

Agradeço por 2016!

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

sonhos que doem de tão reais

Eu acordei chorando e não conseguia parar. Foi agora a pouco. Estava organizando na minha cabeça a informação de que tinha sido um sonho, mas o sentimento de perda, de arrependimento, de tristeza profunda foi tão grande que ainda chegam lágrimas aos olhos.

Meu pai diria: foi só um sonho!

Mas, que tipo de sonho é esse em que os sentimentos são tão fortes, tão duradouros que a gente sofre com eles por um dia todo, até dormir de novo? Não é a primeira vez. Por muitas vezes fiquei pensando em pessoas com as quais não falo há anos, ou ainda com raiva de alguém o dia todo, tipo do padeiro, porque no sonho eu tinha brigado por uma oferta. Era só um sonho... mas porque essa "sensação" de realidade segue a gente durante um dia ou mais?
Há sonhos que reverberam até hoje, cujas imagens continuam ainda plasticamente claras...

Nesse, meu amigo Louis tinha morrido. Mas além de ter sido uma morte super de repente, foi super assim só para nós. Ele estava doente. Não contou para ninguém. Estava organizando a vida com seu marido Letier de um jeito lindo. Construíram uma casa com jardim enorme, estavam realizando os sonhos de artes de ambos: um fotógrafo o outro escultor. Tinham tomado decisões corajosas de abraçar a vida com tudo que ela tinha para oferecer. Minha vó diria: tinham a vida toda pela frente. A questão era essa: um estava vivendo esse "sonho", o outro estava sorvendo as últimas gotas de vida que possuía com toda a vontade do mundo, porque sabia que não havia mais nada pela frente. Pelo menos para ele.

E ele não queria nublar essa fase linda de todo mundo. Todo mundo com projetos, com futuros sonhados em realidade. Por isso, calou. Foi planejando sua ida sozinho.
E eu chorava muito no sonho. Chorava porque ficava pensando na solidão dessa viagem dele. Na solidão de se planejar sozinho essa viagem sem volta. Nos medos e dúvidas que ele teve sozinho.

Assistindo o marido em choque, lentamente caminhando e  me contando que tinha sido no dia anterior que ele não acordara, que ele gostava daquela parte da casa, que era ali que ele estudava, que agora ele entendia determinadas decisões... eu lembrava de Louis me contando que preferia deixar a casa no nome de Letier. E eu dizia: mas ele quer isso? Ele falava: ele não vai saber. E eu respondia: acho que ele tem direito de saber, sim...
No fundo todos tínhamos o direito de saber, poxa. E ele tinha direito de não contar, afinal era ele que estava indo embora. A viagem era só dele.

Falei com outros amigos, ainda no sonho. Avisei do velório. Nos reunimos na casa deles. Mas aquela sensação de: queria ter dado um abraço, não saía de mim. Era um misto de sentir a solidão dele e arrependimento por não ter aproveitado seus últimos meses junto.
Perda. Eu tinha perdido um amigo, tinha perdido momentos e tinha perdido a liberdade de decidir como ia lidar com a ida dele. Mas o pior sentimento foi o de impotência. De não ter conseguido amenizar aquela solidão dele.

Eu assistia ao choque do marido que estava, com todo o direito, muito pior do que eu. Ele tentava digerir. Não tinha raiva. O amor era uma marca de ambos e ele tentava recordar de todos os momentos em que seu companheiro deu sinais do que ia acontecer. Ele caminhava pela casa, lento, pensativo, e contava história aleatórias sobre os objetos que ali estavam, sobre uma última mudança naqueles móveis, sobre um livro que estava sendo lido. Não chegava a estar catatônico, mas o pensamento ia looonge. Não chorava. Eu chorava. Muito.

O grupo de amigos chegou. Ficamos no jardim esperando os rituais do velório e enterro. Alguém resolveu tirar uma foto. Ela iria junto no caixão, para mostrar que essa viagem não se fazia por todo só.
Se não conseguimos dar suporte em vida, iríamos junto, para a outra vida. Nem que fosse simbolicamente.

Acordei. Estou chorando até agora. E sei vou arrastar essa sensação o dia todo. Vou precisar dizer para mim, por várias vez: não, ele não morreu. Foi um sonho. Mas a agonia vai me acompanhar. Até eu dormir de novo.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Como uma onda do mar...

1 de novembro
Agradeço por poder planejar o final de ano pensando nos cartões de natal qeu vão além-mar, porque tenho amigos e família em vários lugares desse mundão de Deus.

2 de novembro
Agradeço pelas lições de mansidão que recebi do pai. Um dia eu consigo...



3 de novembro
Agradeço por poder conhecer mais e experimentar mais e que o tempo não atrapalha.



4 de novembro
Agradeço por mesmo com um monte de brigas e discussões, principalmente para ler um mapa, eu e a irmã sempre nos ajeitamos, mesmo embaixo de chuva e no frio.

5 de novembro
Agradeço por esse céu que embalou a viagem dos meus queridos de volta para casa.



6 de novembro
Agradeço por ter como missão organizar livros e mais livros...podendo beber vinho e enfrentando meus medos sozinha em uma casa de 1800.

7 de novembro
Grata por planejar um inverno que será muito ocupado baseado na variedade de coisas por fazer...

8 de novembro
Agradecida por ter aprendido a contemplar com a cã.



9 de novembro
Grata pelos amigos de tempos e de além-mar que ajudam com indicações até de como cuidar da pele em tempos de ventos frios e sol queimante.

10 de novembro
Grata por poder fazer listas das missões que tenho pela frente e me motivar por elas.

11 de novembro
Feliz porque Deus nos ouve e atende as nossas preces.


12 de novembro
Agradecida porque consegui um outro trabalho que vai me manter ocupada no inverno e ajudar a socializar. Agradecida também por presenciar a liquidação do pijama.



13 de novembro
Agradecida por ter uma sogra afetuosa e que se importa e lembra de detalhes e datas.


14 de novembro
Grata por poder ter acesso ao conteúdo do que aprendi nos cursos de meditação e assim poder prover minha auto-cura.

15 de novembro
Agradecida pela tecnologia que propicia pagar contas à distância.

16 de novembro
Grata por conhecer pessoas novas no meu trabalho na loja. E mais agradecida por aprender a fazer coisas legais.

17 de novembro
Grata por essa lua.


18 de novembro
Grata por ter uma casa equipada para o frio e mais ainda por ter roupas adequadas ou acesso a comprá-las.

19 de novembro
Grata pela beleza do outono.


20 de novembro
Agradeço por ter opções de renovação e artesanato que me mantém ocupada. Grata, ainda por ter liberdade de ir aos poucos ajeitando a casa em que moro.

21 de novembro
Agradeço pelo produto químico criado para tirar grossas camadas de tinta dos lugares.



22 de novembro
Grata por poder contar com ajuda profissional no treinamento da Pandora mesmo à distância.

23 de novembro
Agradeço por seguir cozinhando mesmo quando as coisas não ficam tão bonitas...



24 de novembro
Agradeço por continuar escrevendo e pesquisando lembrando da máxima da Dory: continue a nadar...

25 de novembro
Muito agradecida pelas pessoas que inventam os clubes de vinho que ajuda produtores a investir em suas pesquisas e criações. Agradeço também por quem inventou o vinho.


26 de novembro
Agradeço por ser protegida de notícias e cenas ruins, pelo belo me rodear, por ser abençoada na minha caminhada.

27 de novembro
Agradeço por receber lambidas toda vez que preciso...

28 de novembro
Agradeço por ter acesso à justiça sempre que preciso.

29 de novembro
Sou grata por ser lembrada como profissional pesquisadora.

30 de novembro
Agradecida porque o inverno está chegando e terei tempo de recolhimento.