Hi Lily!!!

Lily chegou ontem e eu passei o dia tentando entender quando foi que comecei a derreter de amor. É claro que quem já é avó tenta explicar. Mas não tem explicação. Tem só uma avalanche de sentimentos. Imagino que seja algo como usar drogas. Isso. Eu passei o dia num torpor, como se eu estivesse em outra dimensão.
Os mais céticos vão falar: mas você já não sabia que ia vir um bebê? Sabia.
Mas esse bebê não tinha nome. Os pais decidiram que contariam a escolha só quando ela nascesse. Eu entendi o motivo e respeitei. Mas eu tinha que me referir a minha neta de algum jeito.

Então a nora, com aqueles aplicativos de grávida, ia acompanhando o crescimento do bebê. E eu chamando ela de figo da vovó (pq ela estava do tamanho de figo), de brownie da vovó, de manga da vovó, até que chegou na Chinchila. Ok, não tem nome, eu arranjo um: chinchilinha. E ela foi sendo chamada de chinchilinha da vovó até ficar de um tamanho de uma melancia, ao ponto que o filho falava que era a melancia e atrás dela vinha a nora.
A distância não ajuda nessas horas. A gente aqui nesse frio do Maine e eles no calor constante do Panamá. Perdi as contas das vezes que gritei com o marido dizendo: não é justo!
Mas a Deusa sabe o que faz. Do jeito italianado que sou, eu não ia dar sossego para eles.
É tudo muito diferente!
Longe de qualquer família, eles foram construindo o que sabiam de gravidez pelas leituras no google. Tão diferente dos falatórios familiares em que cada um dá palpite, tem uma história da vizinha de quando o nenê estava virado e teve que desvirar, ou as receitas para azia ou enjôo daquela prima. De vez em quando eu lembrava de alguma coisa e mandava uma mensagem.
- mãe, já conversamos sobre isso. Decidimos que vamos comprar tudo usado, não tem porque ficar gastando com coisa nova.
- Está certo.
A nora tinha feito uma tabela. Boa que é no excel, tinha listas e mais listas de marcas, de nomes, e de produtos que iriam precisar. Global, marcas de vários países. Tudo, sem conselho algum dos mais experientes...
Teve um dia que, no facetime para a gente dar oi para a barriga, eu falei 30 minutos com a nora no telefone. A glória! Calma que só ela, foi me ouvindo e dando resposta para tudo. Na verdade nem tão calma assim. Quando os exames periódicos mostravam que tamanho a nenê ia ficando, a nora se arrepiava.
- Ela vai ter que sair de algum jeito...

A última vez que tentei dar um pitaco meio assim, sem jeito, encaminhando um artigo sobre a manobra de Heimlich pro filho, tive que ouvir:
- mãe a gente fez curso, lembra?
- Tá, mas não sabia que você tinha aprendido isso, né?
- É básico, mãe.
- Tá.

Enfim, praticamente cega, surda e muda nessa lonjura, a ansiedade só aumentava. Porque no fundo a gente cria os filhos com todo o carinho, com todo amor, mas não confia. Morre de medo que vão fazer cagada, se machucar, fazer uma escolha de nome para neta toda errada. Daí lembrei de uma única vez que o filho bebê, se sufocou com um pedaço de pão. Pai dele arrancou do carrinho, virou de ponta cabeça e voilá: pão voando e bebê respirando. Sem curso de Heimlich, nem nada. E ele está aí, andando, trabalhando em outro país e fazendo neta para mim. É para confiar, não é? Não, lá no fundo você ainda acha que tem que meter os bedelhos.

Nos últimos dias, morrendo de ansiedade para saber se a neta vinha ou não vinha, comecei a puxar assunto com o filho sobre qualquer outra coisa. Eu sabia que ele ia gritar comigo se eu ficasse perguntando da nenê todos os dias. Então, para mim, lá no fundo, eu imaginava: se ele não responder, é porque tem parto acontecendo. Daí ele demorava, vinha e respondia a coisa randômica. E eu ficava roendo as unhas porque não teve parto.
Tinha monitoramento com o médico praticamente diário na última semana, mas eu ficava sabendo de um de outro e olha lá.
Coração se corroendo muito de medo que algo desse errado. Que a nora sofresse. Que fosse traumático. Pedi para a Nossa Senhora do Bom Parto para olhar por eles. Marido me acordava no meio da noite a qualquer barulhinho do celular:
- É a bebê?
-Não, é a previsão do tempo...

Não me lembro de ter ficado nem 10% desse jeito quando pari o filho.
Então, a lua ia mudar nessa terça e passei o dia pensando: agora vai.
Abandonei a tática do assunto randômico e perguntei:
- Chinchilinha viu que a lua mudava hoje?
-...
MUDO. NÃO RESPOSTA.
Gente, só podia. No primeiro tremelique do telefone, mais de 4 horas depois da pergunta:
- Viu. Parabéns vovó! :)

Aí eram dois avós bobos de pijama no meio da sala chorando e se abraçando.
Sim, ela sempre esteve ali na barriga, no quentinho. Mas saber que ela fez a entrada para esse mundo, e respirou, e está viva, é inexplicável. Ela era real. Ela existia.

Um pouco mais tarde a mensagem da mãe:
- Lily Bona nasceu no dia 19/11/19 às 19h22, com 3,4 kg e 49 centímetros. É super calma, já mamou e está dormindo.

Lily. Lily. Lily.


Não tinha nome mais simples. Mais fácil. Mais leve. Mais tranquilo para ser falado e soletrado nas 4 línguas a que ela vai ser exposta na tenra idade.
Lily.

Lily não era somente bonito, era brilhante.
Eu não conheço nenhuma Lily, o que faz a minha neta ser mais exclusiva ainda no meu mundo.
 E, de repente, como uma bigorna que caiu na minha cabeça, eu entendi que eles sabiam o que estavam fazendo, e estavam fazendo com cuidado. De repente eu entendi que filho e nora não eram mais adolescentes. Eram adultos, fazendo escolhas ponderadas e capazes de discernir e de cuidar de outra vida, mesmo longe de mim. De repente eu entendi que o milagre estava acontecendo de novo e que tudo acontece no seu tempo e de um jeito mágico e que a gente não controla porra nenhuma dessa vida. Passei o dia assim. Tentando digerir que aquele menininho com a cara toda suja de chocolate, sentado na cadeira de comer era, agora, pai. Um pai que ainda sente tudo muito à flor da pele e chora. Pelo menos em uma coisa ele concordou comigo:
- eu disse a você que tudo ia mudar quando ela nascesse.
- sim! É mágico, mãe! É de uma hora pra outra.
- Você agora sabe que é capaz de matar por essa coisinha que está nos seus braços, não é?
- Sem dúvida.

E é aí que as gerações se encontram. No final das contas, a ciência muda, os jeitos de fazer, de cuidar, mudam, mas aquela empatia que liga as gerações por esse fio condutor comum que é essa coisa maluca de sentir-se responsável por outra vida, é sempre a mesma.
Agora eu entendo a minha mãe. E é bem possível que agora ela entenda a mãe dela.
Mas nada melhor que essa irmandade que a gente divide entre amigas. Uma, já avó, me aconselhava:
- Só sente, minha irmã, só se deixa levar... É mágico.
A outra, nem perto de ser vó mas com um coração maior que ela mesma:
-  Tô numa audiência morrendo de vontade de chorar. E NÃO POSSO.
A outra:
- Estou me sentindo tia-avó! Que lindo!
A mais poética de todas:
- Que força de nome. Lembrei de Gal. Olha:

Percebi que sabia a música de cor e salteado. Fui pesquisar.
A original é de um filme-musical de 1953. Conta a história de uma menina francesa (igual mãe de Lily) que está perdida e é adotada por um circo. Ela acaba criando um número em que fala com as marionetes e o moço que as manipula só consegue falar dos sentimentos dele por ela, a partir dos bonecos.



Bem, como uma avó normal eu já comprei o filme, já ouvi todas as versões cantadas por diferentes celebridades, já votei para mim mesma que a letra em português (adaptada por Haroldo Barbosa) é mais feliz que a em inglês, criada originalmente pro filme Lili e composta por Bronislaw Kaper e Helen Deutsch. A trilha ganhou o Oscar e o filme ainda teve mais 6 nominações ao prêmio. Na gravação de Neide Fraga, a valsa é evidente. 

E foi assim que passei meu primeiro dia de avó: chorando vez sim, vez não, imaginando minha neta Lily dançando essa valsa flutuando feliz na sala da casa dela,  e tendo a certeza que meu pai, biso da Lily, é o protetor dela e está ali, zelando por ela e sorrindo feliz para a bisneta que habita essa Terra.

Comentários

  1. Parabéns vó Nívea!!!! Que ela seja abençoada e uma benção na vida de todos !!!!

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    1. Obrigada, Ro. Ainda bem que temos a escrita como terapia, né? Beijo grande!

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  2. Seus textos são sempre lindos!Este então carregado de emoção e maravilhoso! Estou emocionada! Muitas bênçãos na vida da Lily!

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    1. Obrigada... Unknown. :) Amém para as bençãos, são muito bem-vindas!

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  3. Parabéns vovó, primeiro pela Lily e pelo Diogo e depois pelo belíssimo texto.

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